quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Nelson Rodrigues



Sustentabilidade 3


U2 - One - Anton Corbjin Version



O Santo Graal - II


"Hoje, existe uma espécie de menosprezo por essa coisa tão simples que antes era falar com propriedade. Quando eu era trabalhador, sempre tinha as ferramentas limpas e em bom estado. Não conheço uma ferramenta mais rica e capaz que o idioma. E isso significa que se deve ser elegante na dicção. Falar bem é um sinal de pensar bem".
Saramago


O homem jamais se conformou com suas atividades instintivas. As reações efetuadas de forma mecânica - que dispensam o aprendizado e a reflexão crítica - como os atos de respirar, comer, defecar e se arrastar jamais satisfizeram o Homo sapiens.

Desde os primórdios sentiu a premência de avançar, de evoluir, de comunicar a experiência vivida, incorporando um discurso significativo. E neste contexto a aprendizagem está para a evolução da humanidade assim como o Santo Graal está para algumas seitas religiosas.

Aprender a dominar o fogo; dar novas formas à pedra, lascando-a; captar a forma de lidar com a argila, o ferro, o cobre, o aço... E transmitir o conhecimento adquirido, se diferenciando das demais espécies porque o que acumulou e acumula diuturnamente não depende exclusivamente das informações genéticas e do comportamento que se desenvolve automaticamente de sua relação com a natureza.


Portanto, uma característica fundamental do homem reside na capacidade de aprender, de processar as experiências e conhecimentos que recebe dos antecedentes e das antigas gerações para transmitir para os contemporâneos e para os que virão. É esta especial característica que elevou a espécie, possibilitando exercer completo domínio sobre o planeta, e que decorre da habilidade de criar sistemas de símbolos - sobretudo a linguagem - mecanismos de que se utiliza para dar significado às experiências vividas, transmitindo-as aos seus semelhantes.


Por esta razão, no planeta terra, tão somente ao Homo sapiens é dado pensar.


Todavia, no decorrer da evolução humana parece que modificações genéticas acometeram indivíduos e grupos deles, criando uma sub-espécie que cultua a mediocridade, a ignorância e a delinqüência intelectual. É deste grupo de pessoas – hoje tão numerosos que em alguns extratos sociais, amplamente majoritários – que se refere Saramago. De uma forma sentida, dolorida, num incontido desabafo, dá testemunho dos que menosprezam o idioma, a fala, o pensamento...


Porque a escalada dos que são incapazes de pensar e falar bem, parece não ter fim. Como pragas de vampiros vão galgando posições, ocupando todos os espaços, sugando todo o sangue e energia disponível à volta. São os dráculas modernos, arrogantes e presunçosos, artificiais e preguiçosos ao extremo, incapazes de ler um bom livro, freqüentar uma boa escola, encantar-se por um museu, um teatro ou um cinema.

Não desenvolveram a habilidade de escutar, de ouvir. Simplesmente simulam prestar atenção ao interlocutor porque todas as respostas já estão predefinidas, na ponta da língua, pronta para a erupção que exala estultícia, tolice.

Os néscios compõem uma caterva de malandros que avacalha o idioma, sempre testando nossa paciência para administrar o insuportável, o que afronta a harmonia e desequilibra, o que agride a lógica e aos ouvidos, o que distorce e desfigura a verdade.


Incapazes de compreender as virtudes do diálogo diplomático, discreto e de conteúdo, estão sempre como prolixos papagaios, repetindo citações imbecis e o que já foi dito e reiterado inúmeras vezes, falando alto e com estardalhaço.

Como não têm o poder da palavra, não dominam o idioma e ignoram a lógica, jamais alcançam o pensamento, o raciocínio, a reflexão. Então utilizam a verborragia dos retardados e, conseqüentemente, não convencem. Daí, para vencer, só pela força.

Como cansa escutar alguns políticos, alguns intelectuais, alguns professores,...broncos que infestam todas as categorias profissionais.


Jamais compreenderão o poder do silêncio, do instante mágico para processar o que se escutou, o que se viu, o sentimento que emergiu, quando as coisas se revelam em sua verdadeira intensidade. 

Quando sentimos a doce presença de Deus.


Artigo de Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de teatro Mané Beiçudo. 

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O artigo acima postei já faz algum tempo. Mas o artigo de Santiago Kovadloff, publicado no La Nacion, mostra cabalmente que sua atualidade incomoda. Abaixo trechos do artigo:


A interdependência entre linguagem, moral e política se mostra, desde sempre, como um fato indiscutível. George Steiner pôde constatar "as pressões exercidas pela decadência cultural sobre a linguagem". Desde o início dos anos 60, advertiu que "os imperativos da cultura e da comunicação de massa têm forçado a linguagem a desempenhar papéis cada vez mais grotescos." A obscenidade do grotesco consiste em sua ostentação; na exposição da vulgaridade como um bem.


Líderes políticos incorporam em seu vocabulário a grosseria e a insolência como se não fossem ou, ainda pior, como se fossem dignos de divulgação. Abertamente e com frequência cada vez maior, fazem eco deste fascínio pela grosseria verbal, esforçando-se em apresentá-la como uma garantia de autenticidade e proximidade com seu público. A brutalidade, o ordinário e o grotesco foram pavimentando o caminho para algo ainda pior: o movimento progressivo de todos os tipos de violência verbal.


E a chamada classe política não hesitou em fazer sua própria contribuição para esse exercício irresponsável da palavra, transformando o adversário em inimigo e a discordância com sua própria opinião em um insulto. A deterioração da linguagem tem uma forte influência sobre a força das idéias. Como bem observado por Steiner, à medida que esta deficiência se acentua "a linguagem deixa de configurar o pensamento avançando para a brutalização." Sejamos claros: quando a linguagem se corrompe, algo mais do que a linguagem está corrompido. O lixo em que se transforma, inevitavelmente contamina o pensamento.


O caso da atual liderança do partido governista é, neste sentido, patético. Ter adversários os repugna e acabam definindo-os como sendo seres insignificantes. Os maus-tratos que lhes são impostos não têm limites. Com isso, política conhecida tende a desaparecer. Em vez disso, tem seu lugar ocupado pelo despotismo. A intenção por trás dele não esconde seu propósito. A demagogia e a intolerância andam de mãos dadas. A pluralidade de critérios horroriza sua propensão para o monólogo.


Assim não incentiva o debate, mas sim o maniqueísmo. A discordância necessária se transforma, sob o seu peso, em confrontação. E o confronto, em seu caso, em uma prática voltada para o extermínio do adversário. A degradação do idioma, em boa parte dos políticos, reflete a magnitude alcançada pela perda do valor das investiduras. Tão difundida é essa degradação que seria injusto supor que o oficialismo tem o monopólio da degradação da linguagem. Mas é inegável que em suas fileiras esta prática encontra uma maior aceitação.


É indubitável que a meta para a qual se encaminha, na política, a degradação da palavra, é a subordinação forçada de toda dissidência a uma vontade despótica. Uma nova raça de excluídos começa ser forjada pela intolerância do poder. Os membros são aqueles que desejam continuar exercendo o pensamento crítico. Assim, a insegurança conhecida se acrescenta uma nova.


Andar pelas ruas, avenidas e vias é, há muito, um risco radical. Freqüentar livremente o caminho das palavras começa a ser também. Duas formas de crime se complementam na Argentina para multiplicar uma mesma desolação.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Gorki


Sustentabilidade II


U2 - Beautiful Day



China planeja pisar pela primeira vez na Lua em 2025



País também pretende enviar sondas de prospecção a Vênus em 2015
Agências Internacionais - Efe e AP, no Estadão


PEQUIM - A China espera pisar pela primeira vez a Lua em 2025, assim como enviar sondas de prospecção a Vênus em 2015.


Chang'e, o nome com o qual são batizados os satélites enviados à Lua pela China, refere-se a uma lenda chinesa segundo a qual uma deusa com esse nome habita a Lua.


O cientista Ouyang Ziyuan, membro deste projeto de satélites lunares, disse ao Global Times que se está planejando estabelecer uma estação espacial para 2020, baseada na tecnologia aeroespacial e no sucesso das futuras missões tripuladas.


O primeiro módulo espacial sem tripulação, o Tiangong-1 (que em mandarim significa "Palacio Celestial"), será lançado no próximo ano e nele se acoplarão outros lançamentos previstos no futuro, dentro do bem-sucedido programa Shenzhou, que em 2008 conseguiu realizar a primeira caminhada espacial com um astronauta chinês.


Pequim lançou sua primeira nave espacial tripulada, a Shenzhou 5, em 2003, tornando-se o terceiro país a dominar a tecnologia de enviar seres humanos ao espaço, atrás de Rússia e EUA.

No entanto, o clima de segredo e os laços militares do programa chinês vêm inibindo a colaboração com outras potências espaciais, incluindo a Estação Espacial Internacional (ISS).

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Na sequência, o artigo que postei em 2.008:
A janela de oportunidades

Poucos se lembram dos tempos nervosos da guerra fria, o embate de surdos-mudos travado pela URSS e EUA. De um lado, a defesa do comunismo, da economia planificada, do partido único; de outro a economia de mercado, as liberdades individuais, a democracia e a propriedade privada. Cada um deles criando sua rede de influência, seus países satélites.


A divisão ideologia chegou ao apogeu, ao seu ponto máximo, impondo até mesmo a divisão de países, como ocorreu na Alemanha, na Coréia e no Vietnã. O muro de Berlim foi o exemplo maior desta estupidez que não conheceu limites. As superpotências, sentadas sobre seus arsenais nucleares – capazes de eliminar a vida na terra por inúmeras vezes – estimulavam e municiavam os países subordinados nos conflitos regionais. Na Europa ocidental, os países de livre mercado organizaram-se na OTAN, a Organização do Tratado Atlântico Norte; e na cortina de ferro, o pólo antagônico estruturou o Pacto de Varsóvia. Um período lastimável, mas que resultou em alguns avanços, inequívocos, entre os quais, não custa rememorar, a conquista do espaço sideral.


A disputa insana encontrou um terreno propício para os embates, um campo emblemático, favorável para que, de forma instantânea, fosse possível propagandear ao mundo qual dos sistemas políticos era o mais avançado e eficaz.


O primeiro lance ocorreu no ano de 1957, quando a URSS lançou o foguete Sputnik com um cão dentro, o primeiro ser vivo a ir para o espaço. Mas o gol de placa dessa longa história ocorreria em 1961, quando a União Soviética promoveu o vôo inaugural na corrida espacial tripulada, colocando Yuri Gagarim em órbita.


O troco não tardaria.


Imediatamente informado do fenomenal acontecimento, o presidente norte-americano John F. Kennedy criou o Projeto Apollo com o objetivo de levar o homem à Lua. E cerca de uma década depois, em 1969, o mundo todo, entre surpreso e estupefato, não conseguia tirar os olhos da televisão que transmitia os primeiros passos do homem na lua, o coroamento da missão espacial norte-americana.


No dia 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Edwin Aldrin gozaram o privilégio histórico de serem os primeiros homens a caminhar sobre o solo lunar.

O feito abriu caminho para cinco novas missões que possibilitaram outros dez astronautas americanos pisar no solo lunar.


A conquista da lua teve um efeito devastador sobre a União Soviética e contribuiu de forma decisiva – muito mais do que muitos imaginam – para a derrocada do império vermelho.


De Gagarim até os dias de hoje, muito do nosso conforto e bem estar se deve às pesquisas realizadas no espaço. URSS – hoje a Rússia, EUA, Europa, Japão e agora a China continuam investindo no setor por terem conhecimento que a soberania sobre o espaço está para o progresso e o futuro assim como a conquista dos mares esteve, muito tempo atrás, para os navegadores vikings e fenícios.


Em um desses conflitos regionais, muitos chegaram a acreditar na vitória vermelha e na iminente hegemonia comunista sobre todo o planeta. Foi logo no final da Guerra do Vietnã. O conflito se originou em 1959, durou quase duas décadas, e só foi terminar em 1975. Os vietcongs, apoiados pelos soviéticos, ignoraram o colossal poderio bélico-tecnológico dos norte-americanos, impondo uma derrota avassaladora e vergonhosa aos EUA. Foi quando não poucos imaginaram que o momento sinalizava o início da débâcle definitiva do capitalismo e a conseqüente e inequívoca hegemonia da URSS sobre o planeta.


Mal sabiam que, poucas décadas depois, em 1991, era o próprio império soviético que desmoronaria, caindo em ruínas.


Nos embates militares de forma geral, um setor sempre elevado à categoria estratégica é o das comunicações. Na guerra fria não foi diferente.


O grande temor no período era de que, repentinamente, independentemente da guerra ser formalmente declarada, as cidades passassem a ser bombardeadas. Em decorrência do temor generalizado, o governo norte-americano investiu recursos para criar um sistema informatizado que garantisse a fluidez das comunicações militares, ainda que o caos provocado por um eventual ataque soviético se materializasse.


A pressão atuava sempre no limite do suportável. A União Soviética já havia logrado um expressivo tento ao lançar no espaço, em 1957, o Sputnik 1. Na prática, o que significava esta conquista comunista? Que os russos poderiam, através do espaço sideral, lançar bombas em qualquer ponto do mundo.


Pressionado, o presidente Dwight Eisenhower criou, em 1962, a ARPA, a Advanced Research Projects Agency, agência governamental que se incumbiria de retomar a supremacia digital na corrida armamentista, protegendo a América do Norte do que parecia à época, iminente ataque nuclear soviético.


Como, diante de um ataque nuclear, reorganizar o país para a necessária contra-ofensiva, sem dispor de um eficiente e confiável sistema de comunicação que sobrevivesse ao poder destrutivo da hecatombe?


Então, sob a coordenação do Pentágono, desenvolveram um revolucionário sistema de comunicação entre computadores, o ARPAnet - Advanced Research Projects Agency Network – com o objetivo principal de conectar as diversas bases militares e os inúmeros departamentos de pesquisa do governo americano.


A concepção lógica que norteou o desenvolvimento do projeto partiu da premissa de proteger a central de informações, a estratégia adotada foi diluí-la em vários lugares, diferentemente do que existia até então, quando todo o comando central se aglutinava em um único ponto, um único lugar, uma única instalação militar, alvo fácil de um possível ataque do inimigo.


Mas para viabilizar que a central de informação fosse diluída de modo a descentralizá-la fixando-a em diferentes lugares era necessário fazer com que os diferentes pólos fossem interligados, conversando entre si. E bommm!!! Em 1969 ocorre a primeira troca de arquivos. A palavra “Log” é transmitida pela Universidade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles, para a Universidade de Stanford, que recebe a mensagem e a responde com “in”, formando “login”. Esta primeira experiência não foi de toda exitosa, pois funcionou até a segunda letra. Todavia o teste-embrião da tecnologia de transmissão de dados digitais em “pacote”, inaugurando o sistema que mudaria a face do mundo, a forma como as pessoas, as instituições e os governos passariam a comunicar.


Como era vital para a segurança dos EEUU que o sistema se consolidasse, entrando imediatamente em operação, a ARPA se viu diante da necessidade de estruturar e financiar laboratórios em muitas universidades americanas. E, naturalmente, em determinado momento, estes laboratórios universitários tiveram que se conectar à ARPAnet. De modo que a revolucionária tecnologia manteve-se disponível exclusivamente para os setores militar e acadêmico. Mas a pressão para liberalização foi tamanha que, em 1987 a rede já estava totalmente liberada, assumindo o nome de Internet.


Hoje, não há setor que permaneça indiferente à rede mundial de computadores, pois isto significaria a liquidação, a falência mais completa.


Na educação, a Internet consolida um setor em plena expansão, a Educação a distância, com todas as vantagens que isto significa: efetiva possibilidade de universalização do ensino de qualidade com a inclusão dos brasileiros que desejam cursar o terceiro grau, e com expressiva redução dos custos. A Internet e a Educação constituem uma gigantesca janela de oportunidades para um Brasil diferente, um país justo e desenvolvido.


E poucos se dão conta que esta descomunal janela de oportunidades tem tudo a ver com a guerra fria que fritou nervos e mentes durante as décadas que sucederam a 2ª guerra mundial.


Artigo de Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mane Beiçudo. 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

LEAN NA GESTÃO PÚBLICA: A EXPERIÊNCIA DOS PAÍSES BAIXOS


DEPARTAMENTO RESPONSÁVEL PELA INFRAESTRUTURA DA REGIÃO IMPLANTOU UM PROGRAMA DE GESTÃO ENXUTA PARA CONSTRUIR UM DEPARTAMENTO MAIS RÁPIDO E MENOR

Por José Roberto Ferro, na revista Época negócios

José Roberto Ferro, presidente e fundador do Lean Institute Brasil (Foto: Divulgação)
JOSÉ ROBERTO FERRO, PRESIDENTE E FUNDADOR DO LEAN INSTITUTE BRASIL (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Governos de todo o mundo têm sido cada vez mais pressionados a reduzir de tamanho e a contribuir mais para a sociedade.
Na semana passada, estive visitando o Departamento (“Rijkswaterstatt”) responsável pelo projeto construção, gestão e manutenção da infraestrutura dos Países Baixos, ligado ao Ministério da Infraestrutura e Meio Ambiente.
Trata-se de um país de 17 milhões de habitantes densamente distribuídos por 41.500 quilômetros quadrados, que ficam totalmente abaixo do nível do mar. Esse departamento cuida de uma complexa malha de 3.000 quilômetros de estradas, 2.000 quilômetros de hidrovias e 5.000 quilômetros de canais.
Há seis anos, ele tem procurado melhorar seu desempenho através de novas práticas e métodos de gestão enxuta (lean).
A necessidade veio das decisões do governo central de fazer uma redução de 10% do pessoal empregado, com base na não substituição de aposentados e pessoas demissionárias e também visando a redução de cerca de 17% do orçamento até o ano de 2020, ao mesmo tempo em que se demanda melhor qualidade e volume dos serviços e dos investimentos.
Esse departamento definiu que seus principais objetivos são “manter os pés secos” dos cidadãos, o que significa reduzir a quantidade de inundações em um país que luta há séculos para evitá-las, garantir água limpa para todos, melhorar o fluxo de transporte e segurança nas estradas, canais e hidrovias e garantir informações confiáveis e úteis aos cidadãos.
Os canais e estradas não podem parar de funcionar nunca em uma sociedade que não aceita problemas como bloqueios ou paradas em seus fluxos de movimentação de pessoas e materiais.
Para construir um departamento mais rápido, menor e oferecendo melhor qualidade nos produtos e serviços, estabeleceram um programa intitulado KR8, inspirado na gestão enxuta (“lean management”), sendo K destacando a importância da relação com clientes, R implicando no respeito pelos colaboradores, e 8 significando os tipos de desperdícios que serão gradualmente eliminados.
Alguns dos principais líderes do departamento foram visitar empresas que estavam implementando o sistema lean (“ver para crer”) e ficaram impressionados. Ao presenciarem essas experiências em empresas privadas, notaram o entusiasmo e o engajamento das pessoas, chamando a atenção para como elas resolviam problemas e melhoravam constantemente o desempenho.
Embora reconhecendo que há muitas diferenças entre o ambiente da iniciativa privada e do governo – no qual a influência politica é grande, e há instabilidade e possibilidades de mudanças substanciais após ciclos de quatro anos, definidas pelas eleições e mudança de governo –, resolveram seguir em frente por acreditar que os princípios e métodos seriam úteis.
Assim eles têm conseguido um esforço para estabelecer um processo de definição e desdobramento de metas, um sistema de gestão visual dos indicadores, um esforço para aumentar a transparência e entender e melhorar os processos, além de procurar aproveitar melhor a experiência e o conhecimento dos colaboradores, ajudando-os a melhorar a cada dia.
Nesse contexto, a gestão dos projetos tem passado por mudanças no sentido de atribuir responsabilidades mais claras aos gerentes, assim como ampliar o escopo de suas ações.
Tive a oportunidade ver várias iniciativas interessantes, como o esforço para reduzir tempo e custos e melhoria da qualidade do trabalho de cálculos, fundamental para estabelecer propostas de licitação bem elaboradas, base para muitos dos trabalhos do departamento.
Os projetos de construção e manutenção de pontes metálicas passaram a ter uma preocupação mais ampla, não apenas visando a redução do investimento, mas também objetivando melhorar a confiabilidade e durabilidade, reduzindo os custos de manutenção ao longo do ciclo de vida da utilização dessas construções.
A melhoria da gestão tem contribuído para projetar, construir e manter equipamentos de infraestrutura adequados ao uso, mais baratos e de melhor qualidade na construção e na manutenção.
Outros países estão tendo iniciativas igualmente interessantes com a gestão lean no governo. Há pouco tempo, tive a oportunidade de comentar a iniciativa da cidade de Melbourne, na Austrália. Vários estados e municípios dos EUA estão tendo iniciativas semelhantes.
Esperamos o momento em que, no Brasil, os governos e partidos reverterão as suas expectativas de usar as administrações para servir aos próprios interesses para passar a servir aos interesses de quem efetivamente paga as contas e espera bons serviços: nós, os contribuintes.
(José Roberto Ferro é presidente do Lean Institute Brasil

Ionesco


Sustentabilidade


U2 - With Or Without You



Planejar para quê? - II


Os céticos costumam afirmar que fosse o planejamento algo estrutural e importante teria evitado a débâcle do império soviético, haja vista que lá se originou de forma efetiva o planejamento de Estado.

Já os entusiastas adeptos dessa ramificação do conhecimento científico, afirmam que, não fosse o planejamento, os países da cortina de ferro – carcomidos por dentro – teriam desmoronados há muito mais cedo.

O certo é que posições extremadas quase sempre não resistem a uma análise crítica mais estruturada. Por isso é preciso manter sobre tudo certo distanciamento, um distanciamento que nos mantenha vinculados aos marcos da racionalidade e do equilíbrio. Nem tanto o céu, nem tanto a terra. O que podemos asseverar nos valendo do rigor científico é que o planejamento é um sistema aberto; um sistema - convém repetir – um dentre os infindáveis existentes, nada mais, nada menos.

Jamais será uma panaceia a quem se atribuirá o poder divino de resolver todos os males da terra, de dar solução a todos os problemas das pessoas e das instituições. Como também não será jamais a desdita, a perfídia, o traidor das causas nobres e das esperanças alheias, o instrumento untado pela ciência e que se mostrou infrutífero e improdutivo e, por consequência, descartável, o típico ouro de tolo.

Condenar ou absolvê-lo será, quando menos, figura de retórica, trocadilho de intenções subalternas. Como todos os demais instrumentos da racionalidade humana, o planejamento será um bem ou um mal dependendo do uso que dele fizermos.

Se o contexto encerrar um eficaz conjunto de procedimentos metodológicos, se o manejo das técnicas e princípios forem criteriosamente empregados, e se os atores passarem por um rigoroso processo de capacitação para lidar com a ferramenta - extraindo dela tudo o que oportuniza, se houver vontade política da alta direção, então estarão criadas as condições necessárias para um desfecho satisfatório. Mas se necessárias, acredito que jamais teremos à mão as condições suficientes. É que em qualquer processo ou atividade em que nos lancemos sempre estaremos sujeitos às variáveis que jamais serão conformadas no todo, as variáveis da incerteza, uma fragilidade inerente à essência e ao âmago da espécie humana. Como jamais se cansaram de ensinar nossos avós, “errar é humano”.


Mas a construção de um cenário em que o planejamento orgânico e estruturado esteja presente nos deixam menos vulneráveis aos erros, menos sujeitos às contingências da improvisação e, naturalmente, mais próximos das metas e objetivos traçados, bem rente aos êxitos e acertos.

Quanto desenhando nossos planos de ação, especificando as atividades a serem desenvolvidas, determinando a maneira mais correta de alocar recursos, e disponibilizando meios e instrumentos adequados para construir um futuro desejável, estaremos lidando com o planejamento, estaremos planejando.

Como é da natureza humana e da essência do ambiente a rápida e contínua transformação, é de todo fundamental conduzir este vital movimento por caminhos mais produtivos, mantendo-nos ao largo do princípio da mão invisível e emprestando ao processo toda a racionalidade lógica e econômica, como também as racionalidades social, legal e política.

O planejamento não se esgota em si. Como já enfatizado, é um sistema aberto, que alimenta e é alimentado; partes interdependentes que ajustadas convenientemente conduzem às transformações sociais na direção e no sentido desejados. É quando se descortina a possibilidade do futuro ser diferente e melhor que o presente, produto e resultado da ação de variáveis causais específicas. É quando nos deparamos com o fato de que, se não podemos tudo, pelo menos podemos exercer um controle parcial sobre o conjunto de variáveis que determinam as mudanças.

A partir do instante em que o planejamento agregou princípios como a racionalidade, universalidade, unidade, flexibilidade, inerência e previsão, deixou de ser diletantismo para se situar no rol dos instrumentos imprescindíveis ao desenvolvimento do homem e de suas organizações.

Tomada a decisão de planejar, um conjunto de fatores assume enorme relevância: o como fazer e que metodologia adotar. A metodologia Quasar K+ de planejamento estratégico, como nenhuma outra, interage raciocínio lógico, arte e cultura e participação intensiva. Os planejadores que já experimentaram a ferramenta testemunham a qualidade dos produtos e resultados conquistados.

Diz o ditado popular “não existem bons ventos para quem não sabe aonde quer chegar”. De igual modo, jamais haverá planejamento capaz de conduzir os que não conseguem identificar a direção a seguir, as metas a alcançar.

Artigo de Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia de planejamento estratégico QuasarK+.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Shakespeare


Quando o ensino é de péssima qualidade, suas marcas são indeléveis...


U2 - Invisible


A revolução digital não cabe no século XVI - II




Nos primórdios do novo século, onde a característica mais saliente é a velocidade com que ocorrem as transformações, importa destacar o quanto as organizações atuam como estruturas refratárias às inovações.

As instituições de forma geral estabelecem seus arranjos organizacionais e suas estratégias de planejamento envoltas numa atmosfera denominada cultura organizacional.

Compõem essa cultura um conjunto de valores, princípios, modo de ser, elaborar e re-elaborar seus produtos e resultados.

Quando de direito privado, essas instituições - sujeitas ao ambiente inóspito e selvagem da concorrência - sentem-se estimuladas a modificar suas estruturas e assim se comportam para sobreviver num mercado que de tão competitivo chega a ser autofágico.

Já quando públicas, as instituições apegam-se no que conseguem para impedir o surgimento de novos valores e princípios. Adquirem uma habilidade especial para refugar tudo o que se origina do ambiente externo, tudo o que pareça novidade e que possa alterar o status quo vigente.

Mas sejam públicas, sejam privadas, é da essência da organização humana impor certo tipo de resistência aos processos de modernização.



Uma resistência monitorada, mantida sob controle, acaba se constituindo num insumo importante, numa boa medida para que não se caia em tentações efêmeras e voláteis, em aventuras passageiras, de momento, aquelas estimuladas pelo cartório das consultorias e editoras que engendram de tudo para manter seus produtos e serviços na crista da onda.

A grande questão é que nenhum dos grupos, nem as instituições públicas e sequer as privadas, conseguiu atinar para a velocidade das transformações de conteúdo, sequer para a direção que estão assumindo.

E neste contexto, após a revolução industrial, nada tem soado tão revolucionário como a revolução digital.

A transformação das tecnologias de comunicação imprimiu ao capitalismo um novo formato, baseado na comercialização da produção simbólica.

Com o novo capitalismo imaterial, a informação e o conhecimento passam a ser os grandes objetos de desejo dos mercadores do século XXI. É esta nova realidade que motivou os EUA a acionar a Organização Mundial do Comércio, demandando a regulamentação da educação, tipificada nas intenções norte-americanas como um serviço.

É que no veio da revolução digital, corporações multinacionais se organizaram ancoradas no estrado das telecomunicações.

A internet é o principal resultado deste novo mundo, o principal portal desse novo universo. Mas já ganha corpo um segundo, mas nem por isso, menos importante. Na parte desenvolvida do planeta, há muito as operadoras de telefonia não se limitam tão somente à transmissão de impulsos materializados em conversações e transmissão de dados alfa-numéricos. Elas já transmitem conteúdo com jogos de futebol, games e vídeo, avançando num espaço até então restrito às TV’s.

Para evitar que essas inovações sejam apropriadas exclusivamente pelos mega-oligopólios, o mundo se levanta, exigindo, por exemplo, software livre e programas consistentes e integrados de inclusão digital.

Por conta deste levante que transcende os governos nacionais, a multidão de usuários dessas novas tecnologias assume uma nova postura, uma postura ativa, revigorada, cidadã. Nos dias que correm, qualquer criança do ensino fundamental plugada na Internet é uma potencial produtora de conteúdos. Habilitada, passa rapidamente de produtora potencial para produtora efetiva. Com blogs e fotologs que ela mesma produz, conecta-se com o mundo, interage com todo o planeta, e não mais apenas com as amiguinhas de sala de aula.

Adicionar legenda
Com as rádios populares, as TV’s comunitárias no sistema cabo-sat, a internet, o computador e os aparelhos de telefone celular, descortina-se uma possibilidade nunca dantes havida, onde a produção de conteúdos encontra meios para se popularizar.

Mas as instituições, sobretudo as públicas, ainda não compreenderam a importância dessas transformações.

Como um elefante sedado, continuam distantes, num outro mundo, num outro tempo, como se relutando em adentrar, de corpo e alma, no século XXI.

Salvo raríssimas exceções, mal contadas nos dedos de uma das mãos, não investem no novo conhecimento, nem na base tecnológica, na infra-estrutura física das redes, muito menos na produção de conteúdos. Limitam-se a uma ação pasteurizada, de aquisição de equipamentos de “ultima geração” para fazer volume e mostrar, por meio dos marqueteiros, que o estado se “modernizou”.

Infelizmente, quando avaliamos o aparelho de estado no Brasil, percebemos que o século XVI ainda assombra nosso cotidiano, nossa rotina e nossas práticas administrativas. Para esse Brasil da idade média, de pouco tem adiantado a mobilização do mundo pela afirmação da cultura digital, pela democratização da informação. Para este Brasil míope e atrasado, de nada tem servido o movimento pelo software livre, pelo acesso gratuito às redes. Para esse Brasil dos idos da grande peste, pouco vale o esforço de mobilização para assegurar a inclusão digital.

O tempo do Brasil é o século XXI.

Artigo de Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. vilatetra@gmail.com

sexta-feira, 12 de setembro de 2014




Respeita Januário, Xote das meninas, Eu só quero um xodó - Gilberto Gil


O grande instrumento do líder: a observação


O ator é uma das referências do teatro. Para que um espetáculo chegue a bom termo, pelo menos sob o ponto de vista técnico, há que se ter, no mínimo, dois sujeitos: de um lado o ator, e do outro, o espectador.

Para transmitir sua mensagem, o ator se municia de diversos instrumentos e técnicas, como a linguagem gestual e a presença de palco; a impostação da voz e o aperfeiçoamento da dicção; a re-elaboração do texto, do contexto e de suas diferentes nuances; a interpretação cênica e um conjunto de outras ferramentas que torna sua ação dramática mais eficaz.

É este conjunto de técnicas que faz do teatro - enquanto instrumento de transmissão de conteúdos - a manifestação artística mais ampla, abrangente e adequada de todos os tempos.

Foi por esta razão que originalmente no Egito, e depois na Grécia e no restante do mundo, os sacerdotes e as elites religiosas utilizaram o teatro para reverenciar suas principais divindades.

Foi este conjunto de técnicas que levou Padre Anchieta a utilizar o teatro como instrumento de catequese, de conversão dos índios à causa cristã.

O teatro consegue - de forma presencial - aglutinar as demais atividades artísticas como a dança, a música, a arquitetura e a oratória, tornando-se, além de ponto de convergência, o mais ameno, agradável e eficaz veículo de comunicação e transmissão de conteúdos.

Não foi outro o motivo que levou o clero, na idade média, a levar o teatro para o interior das igrejas, promovendo autos que realçavam o conflito entre bem e o mal, massificando os valores da moral cristã.

Por suas exclusivas características e poder de mobilização, o teatro também tem servido aos propósitos dos sistemas autoritários, estejam eles à direita ou à esquerda do espectro político. Na Itália e na Alemanha nazi-fascista; nos países comunistas da então cortina de ferro; em Cuba, China e na Coréia comunista, é utilizado como caixa de ressonância da ideologia vigente.

Assim como um bisturi pode ser usado para o bem e para o mal, também o teatro é um instrumento que tem sido utilizado conforme a conveniência.

O teatro e a arte de uma forma geral atuam sobre os cidadãos, que tencionam a sociedade e a realidade, transformando-as para o progresso que expande e liberta, mas também para a inércia que limita e comprime.

No contexto de uma educação libertária que atue sobre os indivíduos habilitando-os para compreender, interpretar e modificar a realidade, e no contexto do exercício de um tipo de liderança que mobilize a equipe – do setor público ou privado - para a superação dos desafios, o teatro tem lugar de destaque.

Por isto deve ser utilizado em profusão tanto no ensino regular como no informal, tanto nas linhas de produção quanto nas reuniões de planejamento estratégico. Das creches e pré-escola, passando pelos ensinos fundamental, médio e superior, o teatro pode se constituir num grande canal de condução dos conteúdos pedagógicos. Da base da pirâmide produtiva, onde se operacionalizam as tarefas ao vértice superior, onde se instala a alta direção, o teatro pode se constituir num grande canal de condução dos conteúdos de qualidade e empreendedorismo.

Nas relações que se estabelecem nos centros de ensino, unidades de produção e instituições públicas perpassam mensagens e valores que muitas vezes se desviam do destino, ou chegam de forma distorcida, truncada e alterada. O domínio das técnicas dramáticas por todos que vivenciam o espaço educacional pode contribuir para a desobstrução dos canais, para a limpeza do lixo que congestiona nossas vias de integração.

Nos locais em que o teatro é utilizado como ferramenta para internalizar valores e princípios, os compromissos se intensificam, as responsabilidades se aprofundam resultando em conquistas mais expressivas, com as metas sendo sucessivamente superadas.

Um dos grandes segredos do teatro é a observação. O diretor do espetáculo e os atores exercitam-na a exaustão, pois disso depende a performance dramática de cada um. A caracterização de qualquer personagem será tanto mais profunda quanto mais detalhados forem os estudos originados das observações, efetuadas com rigorosa acuidade. É comum, por exemplo, atores que interpretarão personagens mais marcantes, como doentes mentais ou presidiários, internarem-se em sanatórios e centros de detenção para, observando em profundidade a realidade em foco, levar ao palco uma representação mais qualificada. Quando se verifica um teatro medíocre feito por atores medíocres, no fundo o que ocorre é a absoluta carência da habilidade da observação. Sem uma primorosa capacidade de observação, o teatro perde substância e qualidade.

Também na ciência é assim. Grandes descobertas se devem não às intenções dos cientistas, mas às suas capacidades de observar fatores que ocorrem ao largo do planejamento e da lógica traçada para o projeto de pesquisa.

Alexander Fleming, o pai da penicilina, deve esta esplendorosa descoberta à observação. No ano de 1928, enquanto concentrava todo o seu esforço e atenção numa pesquisa sobre a gripe, observou que sobre uma lâmina de culturas de estafilococos originou-se, acidentalmente, um mofo com um círculo em torno. Dando continuidade às experiências, comprovou que uma cultura líquida do mofo - que denominou penicilina - impedia o crescimento das bactérias mesmo quando diluída centenas de vezes. Por conta do experimento, fruto do acaso, mas também de aguda observação, Fleming ganhou o Prêmio Nobel de Medicina e a penicilina desde então tem ajudado a salvar milhões e milhões de vidas humanas.

O fato de o exercício teatral exigir de seus integrantes exaustivas investigações alicerçadas na observação metódica, é mais uma forte razão para que esta manifestação artística seja apropriada pelos educadores, pelos gestores, pelos dirigentes, pelos líderes, pelos empreendedores.

Um professor que não tenha desenvolvido um tino apurado para a observação, será quando muito um catequizador, jamais um educador. Formará alunos incapazes de enxergar a si, em conseqüência, incapazes de enxergar o mundo.

Um gestor que não domine com profundidade as técnicas de observação jamais estará em condições de sistematizar alternativas e oportunidades, jamais estará apto a identificar as ameaças, jamais conseguirá o respeito de sua equipe.

O mesmo ocorrerá com o empreendedor que estará atuando num ambiente hostil na condição de perneta, cego e mudo.

Por esta deficiência, tanto o educador quanto o gestor que desconhecem os princípios da observação, jamais se apropriarão da organização que faz a diferença, aquela exclusiva, singular, a única capaz de promover a intervenção substantiva.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo.acs@ueg.br

quinta-feira, 11 de setembro de 2014


Charge: a mais nova quadrilha


Se eu quiser falar com Deus - Gilberto Gil


Governança: os Valores Corporativos


Valor é um vocábulo com repercussão em praticamente todos os ramos do conhecimento.

Nas ciências exatas, lá está o termo - em matemática – determinando uma incógnita na expressão algébrica ou representando o estado de uma variável.

No direito pode representar a qualidade que tem o ato jurídico de produzir determinado efeito.

Na psicologia juízo de valor pode ser definido como uma apreciação subjetiva segundo tendências e influências sociais.

E em filosofia pode expressar os julgamentos não diretamente originados na experiência, ou da elaboração pessoal, em oposição aos julgamentos da realidade, intrínsecos ao conhecimento objetivo ou da ciência.

Mas é na economia que valor encontra seu significado mais conhecido, descrito nos glossários da língua portuguesa como:

1. o preço atribuído a uma coisa; estimação, valia;
2. relação entre a coisa apreciável e a moeda corrente no país, em determinada época, em determinado lugar;

Valor provém do verbo latino valere e até a vigência do português arcaico manteve seu sentido original passar bem, ser forte, válido, corajoso.

Sua utilização científica começou quando Adam Smith, assumindo a paternidade da economia moderna, estabeleceu a diferenciação entre valor de uso ( value in use) e valor de troca (value in exchange).

"Assim, o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta (self-interest), é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade."
Sempre intrigou o economista e filósofo escocês as disparidades observadas entre esses dois valores. Enquanto o ar e a água, por exemplo, têm inestimável valor de uso e diminuto valor de troca; o diamante tem um diminuto valor de uso e um enorme valor de troca. Esta equação, porém, que mesmo Adam Smith não conseguiu resolver, só seria entendida mais tarde, com a teoria da utilidade marginal.

Karl Marx considerava que o valor se traduzia em trabalho acumulado: um bem vale o trabalho que custou para ser produzido. O tempo mostrou que nem sempre é assim. Uma importante inovação, de fundamental importância para a humanidade, pode se originar do acaso, custando pouco ou nenhum trabalho. Sir Alexander Fleming que o diga, pois que descobriu a penicilina acidentalmente, por mero acaso.

Mas foi graças ao filósofo alemão Neitzsche que o termo valor passou a se confundir com “bem”.

E é neste sentido que a definição mais se aproxima dos objetivos focados no planejamento.

Sob o ponto de vista do planejamento, valores são aquelas idéias fundamentais, estruturais, que compõem o alicerce de uma organização. Dessa forma, tudo o que diz respeito às convicções dominantes, às crenças básicas, ao imaginário que a maioria das pessoas da instituição acredita e defende, pode conformar o que pretendemos como valores de uma organização.

Por isto, os valores atuam como a grande força motriz. Algo como a grande alavanca a que se referia o matemático, físico e inventor grego Arquimedes, quando sabiamente ensinou: “dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo”.

Os valores motivam, estimulam e direcionam as ações e atividades dos que compõem a organização, atuando como elementos catalisadores, assegurando unidade e coerência nos projetos e trabalhos.

Ao mesmo tempo, estabelecem uma zona claramente definida, um território plenamente demarcado, cujos limites são por todos conhecidos. De modo que o permitido e o não permitido, o certo e o errado, o aceito e o refugado, o bem e o mal não estão sujeitos a interpretações subjetivas. São sim referências por todos – verdadeira e entusiasticamente - assumidas. A busca da excelência está, portanto, condicionada à observância de um padrão de comportamento que permeia toda a equipe.

Quando estamos planejando a organização, devemos cuidar para que os valores estejam ancorados em algumas convicções fundamentais para o sucesso do empreendimento:

• num ambiente inóspito, onde a competitividade é gigantesca, é necessário cultuar os conceitos de Vitória, e de galgar a posição de Melhor, Superior, Primeiríssima;
• outro conceito por demais relevante é o que diz respeito à importância das pessoas, da equipe, da valorização do patrimônio humano;
• não podemos deixar de estabelecer um vínculo indissolúvel entre qualidade e o que produzimos (+ o que produziremos), sejam produtos ou resultados;
• aspectos que devem ser observados com especial atenção: criatividade, espírito inovador e determinação de solucionar problemas;
responsabilidade social.

Definidos os valores, eles passarão a acompanhar a rotina diária, vida diuturna das pessoas e da organização. Estarão balizando a caminhada em direção à conquista dos objetivos, da missão e da visão de futuro.

Abaixo selecionei alguns exemplos de instituições cujos valores estão estabelecidos:

• Excelência, consciência ética, transparência, comprometimento social, pluralidade, respeito pelo indivíduo e pela coletividade, integração, igualdade, responsabilidade, democracia, cidadania.

• ABM-ANRO Bank: Integridade, respeito, trabalho em equipe e profissionalismo.
• 3M: Inovação, integridade absoluta, respeito à iniciativa individual e ao crescimento pessoal, tolerância, qualidade e confiabilidade, solucionar problemas.
• ALCOA: Integridade, segurança e saúde, qualidade e excelência, pessoas, responsabilidade.
• Merck: responsabilidade social, excelência em todos os aspectos, inovação baseada na Ciência, honestidade e integridade, lucro a partir do trabalho que beneficia a Humanidade.
• Philip Morris: direito à liberdade de escolha, vencer (derrotar os outros numa boa luta), encorajar iniciativa individual, oportunidade baseada no mérito, trabalho duro e auto-melhoria contínua.
• Sony: elevação da cultura japonesa e do status nacional, ser pioneiro (não seguir os outros; fazer o impossível), encorajar habilidade e criatividade individuais.
• Walt Disney: sem cinismo, promulgação dos valores americanos, criatividade, sonhos e imaginação; atenção fanática à consistência e detalhe; preservação e controle da mágica Disney.
• HP: respeito pelo indivíduo, dedicação à qualidade e confiabilidade, responsabilidade comunitária.

Não à Hipocrisia
O Brasil passa pelo que talvez seja a maior crise moral de sua história. Jamais casos de corrupção e banditismo institucional enxovalharam tanto a nação. Por isto é necessário assegurar que os valores sejam exercidos na prática, não se constituam apenas em ’figuras de presépio’, em efêmeras ‘frases para inglês ver’.

Os que desejam um país mais justo e progressista, os que labutam por uma nação onde as oportunidades sejam democratizadas, devem se indignar, protestar, reagir, confrontar, dizer um retumbante NÂO à hipocrisia, à corrupção e a imoralidade que grassa no setor público & privado.

Não podemos permitir que nossos filhos e netos tenham vergonha da ética, da honestidade e da verdade.

Haveremos de construir a pátria de nossos sonhos, onde o protesto poético de Cleide Canton e Rui Barbosa (que você vê no vídeo abaixo na brilhante interpretação de Rolando Boldrin), seja – em curto espaço de tempo – apenas uma página que viramos. Simplesmente assim: uma página que viramos.

Cleide Canton e Rui Barbosa
 


Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014


Andar com fé - Gilberto Gil


Gestão, educação e autoritarismo.

  
A palavra democracia já se popularizou entre nós. Tornou-se parte do vocabulário popular incorporando-se ao cotidiano das pessoas. Se por um lado esta situação representa um avanço expressivo, dado que qualquer que seja o significado adotado, falar em democracia sempre será oxigenar o ambiente político; por outro, pode encerrar certa hipocrisia, um invólucro bem produzido para escamotear formas mais sutis de opressão e dominação. Quem não se lembra que a parte da Alemanha assumidamente bucocrático-comunista do período muro de Berlim era pomposamente denominada “democrática”?

De origem grega, a palavra democracia, na realidade, encerra uma multiplicidade de significados ditados, sobretudo, pela teoria política, ou mais apropriadamente pelas idiossincrasias circunstanciais. Originalmente significa uma forma de governo caracterizada pelos cidadãos exercerem diretamente o poder de decisão, quando prevalece a maioria.

Mas mesmo a maioria grega era bastante relativa, pois dela se excluíam as mulheres e a esmagadora maioria da população escrava.

O crescimento das cidades e a explosão demográfica ensejaram a modernização do estado e as necessárias adaptações foram tomando forma, de sorte que da democracia direta passamos para a representativa, quando o exercício da decisão se processa através de representantes preliminarmente eleitos.

No Brasil, a história democrática é caracterizada por idas e vindas - infelizmente mais vindas que idas. Momentos de expansão – vezes acelerados - revezando com outros letárgicos e sonolentos. Longos períodos de obscurantismo e opressão cedendo uma fração do tempo aos curtos e efêmeros períodos de liberdades.

Desde a proclamação da república já tivemos sete cartas magnas. Sete constituições, o que registra nossa extrema vulnerabilidade e o quanto nosso ordenamento legal é volátil.

Os limites da constituição imperial de 1824 estavam mais que evidentes quando estabeleceram inamovíveis vinculações do exercício dos direitos políticos ao nível de renda dos cidadãos, uma forma nada sutil de excluir a maioria da população do processo de participação institucional. Como que para redimir a tendência ultra elitista, a constituição de 1891 se volta para outra direção, garantindo alguns direitos, assegurando a representação das minorias e instituindo o sufrágio universal masculino. Mas manteve os analfabetos, mendigos, soldados e religiosos ao largo desta importante conquista política e social.

Decorre daqui, portanto, dois problemas que de certa forma perduram até a atualidade.

O primeiro é que o voto aberto, nas condições em que foi estabelecido, permitiu a manipulação eleitoral, o voto de cabresto e o coronelismo, que de certa forma – assumindo formatos mais sofisticados – ainda dominam o panorama político em vários rincões do país.

E o segundo é que a falta de justiça eleitoral independente depositou nas mãos do governo o reconhecimento dos deputados eleitos.

No ano de 1934 surge uma nova constituição, inspirada na alemã, e que incorpora a Justiça do Trabalho e outras conquistas trabalhistas.

Se sete foram as constituições, as intervenções militares foram nove, testemunhando nossa cultura autoritária e a onipresença dos quartéis.

Quando lançamos o olhar sobre o conjunto dos mandatários da nação, percebemos que dos cerca de trinta presidentes brasileiros, dez não completaram o mandato. Destes dez, quatro foram depostos por golpes, três morreram, e um sofreu impeachment.

Do total dos presidentes brasileiros é curioso observar que apenas quinze foram escolhidos pelo voto direto, portanto menos da metade.

Mas a história política brasileira mostra um outro viés: a utilização do eleitorado como massa de manobra dos grupos dirigentes. Esta situação chegou a tal grau que, durante a república velha, apenas 3% dos que poderiam votar eram chamados a colocar o voto na urna.

Em contrapartida, mais recentemente foi a opinião pública que, mobilizada, possibilitou o impedimento do ex-presidente Fernando Collor.




Já tivemos presidente que imaginava ser a gestão pública um ramo da engenharia civil. Era o caso de Washington Luiz que chegou a afirmar que “governar é construir estradas”.

Se Washington Luiz foi o benemérito originário das grandes empreiteiras, não ficou atrás quando o assunto era a exclusão social. Conseguiu atribuir às forças policiais uma função muito maior que a de assegurar a elucidação de crimes e a prisão de delinquentes. Foi Washington Luiz quem perenizou a expressão “a questão social é caso de polícia”.

Mas nossa sina autoritária tem raízes mais profundas. Nosso primeiro presidente, o marechal Deodoro da Fonseca (1889-1891), determinou o fechamento do congresso, decretando a seguir o estado de sítio.

Floriano Peixoto (1891-1894) arquitetou durante todo o tempo contra as liberdades individuais, sobretudo a de opinião e foi o primeiro a fazer prisões políticas.

Arthur Bernardes (1922-1926) conseguiu aprimorar os desvios despóticos de Floriano Peixoto, tornando-se o primeiro a construir uma prisão especial para presos políticos.

E daí segue um conjunto de acontecimentos de cunho autoritário, incorporados às nossas tradições e imaginário; registrando o quanto a democracia tem sido até o momento uma cantilena principalmente para os excluídos.

Mesmo nos dias de hoje, quando vivemos uma experiência democrática jamais experimentada, salta aos olhos o que parece uma inesgotável capacidade das elites políticas de promover exclusão social. A verdade é que, se avançamos na democratização da vida política, no campo econômico o que se fez foi muito pouco, haja vista o país ostentar uma das mais perversas concentrações de renda do planeta.

Este passado histórico afeta todos nós e, de uma maneira especial, os educadores. É que cabe a esta categoria especial de pessoas uma atividade por demais nobre: a de reproduzir o conhecimento, reciclá-lo, torná-lo assimilável para os aprendizes; desvendar os mistérios que emolduram as artes e o saber, e torná-los disponíveis e acessíveis a todos. E como conviver neste ambiente ignorando esta herança autoritária já incorporada – ainda que inconsciente - ao nosso modo de ser, pensar e agir? Este é o desafio do verdadeiro educador, transformar-se em um agente em permanente renovação, transformador de si e das coisas, um homem capaz de reelaborar permanentemente o mundo, ao mesmo tempo em que reelabora a si próprio. Um agente que enxergue o outro, e não só seus alunos, como literais parceiros neste processo dinâmico e ininterrupto de resgate da ética e da solidariedade. Um cidadão que não entenda a sala de aula como seu universo, e sim que perceba o universo como sua sala de aula.

É deste professor que nossos alunos necessitam. Nada de falsos libertários, loquazes ventríloquos, papagaios de pirata, cintilantes, onipresentes; sempre com as respostas prontas e definitivas na ponta da língua, mas hipócritas e pobres de conteúdo. Precisamos do professor que consiga superar e romper a redoma autoritária em que a sociedade está envolta. Do professor que ao invés de se colocar acima, se coloque ao lado do aluno, que partilhe com ele as dúvidas e que aceite o desafio de comungar a busca pela melhor das alternativas. Sim ao professor que - ao contrário da prepotência e arrogância da academia, dê guarida à humildade, à troca, à generosidade.

Se o que desejamos é edificar uma sociedade que partilhe os valores e as condições que nos transformem todos em cidadãos, então teremos que procurar por novos educadores e gestores públicos, por um agente que entenda a educação e a gestão como uma troca entre iguais com diferentes tipos de conhecimento. E que todo conhecimento incorpora, no seu devido contexto, importância individual e social.

Evidente que a abordagem do professor aqui adotada não se restringe ao profissional stricto sensu, vez que cada um de nós, diuturnamente, nos locais de estudo, trabalho, entretenimento e moradia somos a um só tempo professores e aprendizes.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Trigonometria tem a ver com escala musical?

Por Rodrigo, na revista Galileu
 (Foto: Samuel Rodrigues/Editora Globo)
Não, nada a ver. Mas a escala musical tem tudo a ver com a matemática. O grego Pitágoras (lembra do teorema?) descobriu que uma corda usada para fazer sons, quando é encurtada ou alongada, produz tons diferentes, guardando sempre uma relação entre o quanto você a reduz ou aumenta e qual será o tom gerado. Uma corda que tocada dá um Dó, reduzida a 3/4 do tamanho, produzirá um Fá. Essa mesma corda, reduzida a 2/3, produzirá um Sol. As escalas musicais, sequências ordenadas de tons que mantêm sempre os mesmos intervalos, pautam-se por essas proporções, não importa se começando em Dó, Ré ou outro tom.

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