domingo, 3 de junho de 2012

Missão

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui._____________________________________
Missão

Missão significa um compromisso , uma obrigação, o ato da incumbência, o encargo.

No Planejamento podemos definir ‘missão’ como a razão de ser da organização.

É importante que a ‘missão’ esteja claramente definida e incorporada nas pessoas que integram a organização, porque é ela que serve de referência para orientar a tomada de decisões (inclusive as estratégicas), bem como para definir os objetivos a serem perseguidos.

Não deve a ‘missão’ ser uma referência rígida e imutável. Ao contrário, uma de suas características básicas é exatamente a flexibilidade, de modo que possa se adequar às mudanças que a realidade vai impondo ao longo do tempo. Portanto, de tempos em tempos, a ‘missão’ da organização deve ser discutida e devidamente adequada.
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"Uma empresa não se define pelo seu nome, estatuto ou produto que faz; ela se define pela sua missão. Somente uma definição clara da missão é razão de existir da organização e torna possíveis, claros e realistas os objetivos da empresa."Peter Drucker
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A ‘missão’ deve ser definida de tal modo que expresse aquilo que efetivamente desejamos que nossa organização seja. Deve ser ousada, desafiadora, mas de tal modo que esteja sempre visível, tangível, alcançável, bem ao alcance das mãos.

Naturalmente a ‘missão’ estará inserida num contexto em que os Valores da organização e a Visão de Futuro já terão sidos previamente definidos.

Um outro aspecto importante é não confundir Visão de Futuro com Missão. A primeira está relacionada aos nossos sonhos, ao norte, à direção que devemos seguir. É como se fosse uma passagem assegurando direito ao vôo futurístico que nos conduzirá ao amanhã. A Visão de Futuro cria um ambiente energizado, elétrico, inspirador para a instituição.

Já a Missão da Organização está mais relacionada à posição em que estamos, identificando, com clareza, o nosso negócio.

Exemplos de missão:
• Universidade Federal da Bahia

“A Universidade Federal da Bahia tem por missão produzir, socializar e aplicar o conhecimento nos diversos campos do saber, através do ensino, da pesquisa e da extensão, indissociavelmente articulados, de modo a contribuir para o desenvolvimento social e econômico do País e do Estado e promover a formação de profissionais qualificados para o mundo do trabalho e capazes de atuar na construção da justiça social e da democracia”.

Missão da Funape-UFG


• Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
“Viabilizar soluções para o desenvolvimento sustentável do agro negócio brasileiro, por meio da geração, adaptação e transferência de conhecimentos e tecnologias em benefício da sociedade”.

• Petrobras

“Atuar de forma segura e rentável, com responsabilidade social e ambiental, nas atividades da indústria de óleo, gás e energia, nos mercados nacional e internacional, fornecendo produtos e serviços adequados às necessidades dos seus clientes e contribuindo para o desenvolvimento do Brasil e dos países onde atua”.

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"Definir a missão de uma empresa é difícil, doloroso e arriscado, mas é só assim que se consegue estabelecer políticas, desenvolver estratégias, concentrar recursos e começar a trabalhar. É só assim que uma empresa pode ser administrada, visando um desempenho ótimo."Peter Drucker
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No processo de definição da missão, é fundamental considerar os seguintes componentes:

• segmentos-alvo, tecnologia, escopo-geográfico, benefícios demandados x benefícios oferecidos e crenças e valores dos dirigentes.

Responder às seis questões que alinhavei abaixo pode ser uma maneira fácil de desenhar um mapa do caminho, de modo que possamos alcançar, definir e escrever, sem complicações, a Missão da organização:

• Quem somos nós?

• Qual é nossa finalidade?

• Que fazemos para reconhecer, antecipar e responder às finalidades?

• Como devemos responder a nossos grupos de influências?

• Quais são nossos valores, cultura e filosofia?

• Que nos faz ser distinto e único?

Ao definirmos a ‘missão’ da organização estaremos, na realidade, identificando sua ‘razão de ser’.

É fundamental que no processo de redação cuidemos para que a ‘missão’ esteja elaborada de modo suficientemente clara, simples e concisa.

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"Uma missão bem difundida desenvolve nos funcionários um senso comum de oportunidade, direção, significância e realização. Uma missão bem explícita atua como uma mão invisível que guia os funcionários para um trabalho independente, mas coletivo, na direção da realização dos potenciais da empresa."Philip Kotler
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Outros exemplos de ‘missão’:
• Disney: “Alegrar as pessoas”;

• Fiat: “Produzir automóveis que as pessoas desejam comprar e tenham orgulho de possuir”;

• 3M: “Solucionar problemas não solucionados de maneira inovadora”;

• Natura: “Nossa razão de ser é criar e comercializar produtos e serviços que promovam o Bem-Estar/Estar Bem”;

• Citibank: "Oferecer qualquer serviço financeiro em qualquer país, onde for possível fazê-lo de forma legal e rentável";

• McDonald's: "Servir alimentos de qualidade com rapidez e simpatia, num ambiente limpo e agradável";

• Localiza National: "Oferecer soluções de transporte, através do aluguel de carros, buscando a excelência" (1989);

• Pepsi Co..: "Derrotar a Coca-Cola";

• Honda: "Esmagar, espremer e massacrar a Yamaha".

Missão do Exército Brasileiro
I. A fim de assegurar a defesa da Pátria:
- contribuir para a dissuasão de ameaças aos interesses nacionais; e
- realizar a campanha militar terrestre para derrotar o inimigo que agredir ou ameaçar
a soberania, a integridade territorial, o patrimônio e os interesses vitais do Brasil.

II. A fim de garantir os Poderes Constitucionais, a Lei e a Ordem:
- manter-se em condições de ser empregado em qualquer ponto do território nacional,
por determinação do Presidente da República, de forma emergencial e temporária,
após esgotados os instrumentos destinados à preservação da ordem pública e da
incolumidade das pessoas e do patrimônio, relacionados no art. 144 da Constituição.

III. Participar de operações internacionais, de acordo com os interesses do País.

IV. Como ação subsidiária, participar do desenvolvimento nacional e da defesa
civil, na forma da Lei.

• Pfizer: “Nós nos tornaremos a companhia mais valorizada do mundo para pacientes, clientes, colegas, investidores, parceiros comerciais e as comunidades onde trabalhamos e vivemos”;

• FORD: "Nossa missão é atender às necessidades de transporte de nossos clientes, aprimorando nossos produtos e serviços, prosperando com a empresa e proporcionando retomo aos acionistas";

• GM: "Fornece produtos e serviços de tal qualidade que nossos clientes sintam que receberam mais pelo que pagaram, nossos empregados e parceiros de negócios se beneficiem de nosso êxito e os nossos acionistas tenham maior retorno do seu investimento";

• BNDES: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social: "Contribuir para o desenvolvimento econômico e social do país";

• Petrobrás: Petróleo Basileiro S.A.: "Assegurar o abastecimento do mercado nacional de petróleo, gás natural e derivados, através das atividades definidas na Lei 2.004, de forma rentável e a menores custos para a sociedade, contribuindo para o desenvolvimento do país";

• Rede Globo de Televisão: "Contribuir para o progresso cultural, político, econômico e social do povo brasileiro, através da educação, da informação e do entretenimento";

• Fundação Roberto Marinho: "Contribuir para o desenvolvimento social através de ações educacionais, culturais e de apoio às atividades comunitárias, conduzidas através da criação de modelos ou de programas sistêmicos de caráter permanente”;

• SERPRO: Serviço Federal de Processamento de Dados: "Prover a Administração Pública, com prioridade para o Ministério da Economia, com informações para a tomada de decisões e gestão";

• GSI: Gerdau Serviços de Informática: "Ser uma empresa líder no mercado, prestando serviços avançados de teleinformática com alto nível de tecnologia, segurança e qualidade, que atendam às necessidades dos setores público e privado, usuários de sistemas complexos de informação";

• CNPq: Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico: "Promover atividades em Ciência e Tecnologia, através do fomento e execução de pesquisa, de formação de recursos humanos e de difusão da informação, para o avanço do conhecimento e a capacitação tecnológica, visando com a aplicação e valorização dos resultados, ao desenvolvimento sócio-econômico e cultural do País";

• RIOCELL S.A.: "A Riocell deve crescer no Brasil e internacionalmente, produzindo e comercializando celulose, papel e correlatos, que satisfaçam às expectativas dos seus clientes, maximizando o retorno dos investimentos, proporcionando o crescimento da qualidade da vida das comunidades internas e externas, preservando o ambiente";

• USIMINAS: Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais: "Exploração da indústria, do comércio e da importação e exportação de produtos siderúrgicos e de suas matérias primas, a execução e elaboração de projetos e pesquisas, a mineração, o transporte, a construção civil, a partir de estruturas metálicas e a prestação de serviços de qualquer Natureza";

• Sistema SENAI: "Prestar serviços às comunidades industrial, governamental, educacional e outras, nas áreas de preparação de Recursos Humanos, em diferentes níveis, assistência técnica/tecnológica, garantia e certificação de qualidade, geração e difusão de tecnologias e disseminação de informações, contribuindo para o fortalecimento da Indústria e o desenvolvimento sócio-econômico do país".

• MDA - Ministério do Desenvolvimento Agrário (2001): “Criar oportunidades para que as populações rurais alcancem plena cidadania.
Aspectos complementares a considerar:
1. Promover o desenvolvimento do meio rural de modo a garantir a sustentabilidade de empreendimentos da agricultura familiar já instalados e oportunizar a inserção de novos
2. Possibilitar o acesso á terra a quem dela necessita, criando condições paa sua independência
3. Promover a geração de emprego e renda no meio rural buscando criar alternativas de ocupação produtiva (lazer, artesanato, turismo)
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"A missão da Cruz Vermelha é melhorar a qualidade de vida humana;, aumentar a autoconfiança e a preocupação com os outros; e ajudar as pessoas a evitar emergências, preparar-se para elas e enfrentá-las." Cruz Vermelha Internacional
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O planejamento de uma 'missão’ espacial tem alguma coisa a ver com o planejamento de nossas empresas e instituições? Teria algo em comum com o nosso dia a dia? Vejamos no vídeo abaixo as palavras do comandante Marcos Pontes, o astronauta brasileiro:



Antônio Caralos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo.

sábado, 29 de outubro de 2011

O dirigente e a gestão

Desde 1903 com a administração científica de Taylor, até chegar aos dias atuais, as técnicas de gestão foram se adequando às necessidades das pessoas e das instituições. À medida que os problemas foram se apresentando, novas teorias se originaram, impulsionando as organizações e seus agentes para a conquista dos novos objetivos.

Conforme foi o mundo evoluindo, deferentes variáveis foram sendo delineadas. O enfoque nas tarefas operacionais, depois na estrutura das organizações, depois nas pessoas, e finalmente no ambiente e na tecnologia, nos legaram estes cinco componentes básicos que utilizados de forma isolada ou conjuntamente, conformam a gestão que empreendemos nas diferentes instituições.

Utilizando essas cinco variáveis de forma eficaz, o gestor consegue conduzir seu empreendimento rumo às mudanças e transformações necessárias, para que a instituição não perca a identificação com o seu tempo e, de igual modo, não seja atropelada pela concorrência, pela ineficácia ou pelas incertezas da modernidade.

O gestor de qualquer empreendimento, quando busca a eficácia, se reveste de um caráter educador. Como seu objetivo é extrair o máximo de produtividade de sua equipe de subordinados e colaboradores, deve estabelecer uma interlocução em que ensine e aprenda ao mesmo tempo, trafegando permanentemente numa via de mão dupla, em que o único objetivo é atingir o bem comum. Ao mesmo tempo em que assume o papel de educador, o gestor ao transformar as rotinas e as próprias instituições, maneja a cultura organizacional, abordando um dos componentes mais caros aos indivíduos e às corporações.

Todavia, um componente tem sido mantido a margem dos processos institucionais. O racionalismo, a burocracia, o tecnicismo, o materialismo contemporâneo impõem às presentes gerações um perfil pasteurizado, pretensamente científico e impessoal. Neste contexto, tratar dos valores imateriais, intangíveis e do espírito humano soa como retornar a um tempo distante e ultrapassado. É então de se argüir o quanto de amor as pessoas conseguem impregnar nas suas ações institucionais. A concorrência selvagem, o sucesso a qualquer preço implica, para quase todos, na supressão de tudo o que represente sentimento nas relações profissionais, vingando uma visão mecanicista e hermética do trabalho. Por isto, é comum nas repartições ver trabalhadores sendo coisificados, tratados como um poste onde o cachorro vai deitar a sua urina.

Somos um todo e é este conjunto que atua na vida, seja pessoal, familiar, profissional ou social. Dizer que é inadequado ou impossível agregar amor às nossas realizações institucionais é como imaginar ser possível, ao adentrarmos o local de trabalho, deixar pendurada num cabideiro, nossa alma, que serenamente aguardará o término da jornada, para novamente, como um sobretudo, ser vestida por cada um de nós.


Mas por incrível que pareça muitos são os que assim se comportam.

Quando trabalhamos com carinho, conseguimos agregar mais valor às nossas atividades.

O Ministério da Educação tem divulgado estudos que demonstram o quanto nossas crianças são impactadas negativamente pelo sentimento de rejeição provocado por colegas e professores. Os estudantes sentem-se ultrajados, desprezados, expressando esta relação no aproveitamento escolar, na auto-estima, e na vivência familiar e comunitária. Seria possível a manutenção deste trágico cenário num ambiente permeado de carinho e amor?

O mesmo se sucede nas instituições públicas e privadas. Trabalhadores com baixa auto-estima, com o sentimento de que estão sendo instrumentalizados limitam a produção ao trivial, ao elementar, agregando o mínimo de valor aos produtos e resultados, emplacando tão somente uma relação de faz de conta em que simulam – apenas simulam – darem o máximo de si.

“Ah, mas tem o salário, o chefe, a estrutura, o governo...” e assim vão reagindo os céticos. Mas estes sempre se comportaram desta forma e ocorra o que for, estarão sempre emprestando ao mundo a incredulidade, a dúvida sobre tudo e sobre todos, o sarcasmo, o desdém, a injúria, o insulto.

Importa destacar que mesmo a luta por salários e melhores condições de trabalho, por chefias democráticas, por estruturas sustentáveis e governos competentes, resultam mais eficazes se imersas em um contexto onde tenha lugar o carinho e o amor.

A velha máxima de que amor e carinho nunca são demais, estão na ordem do dia mais que em qualquer outro tempo da existência humana.

Empunhar essas bandeiras nos locais de trabalho e convivência é uma nobre tarefa que cabe a todos, mas fundamentalmente ao dirigente, ao gestor responsável por desbravar caminhos, descortinar horizontes, mobilizar e estimular sua equipe para que o processo produtivo se revista de plena qualidade.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Corrupção & mais corrupção

A descomunal corrupção no SUS

Por Roberto Maltchik, em O Globo

Criado em 1990 para assegurar o pleno atendimento médico-hospitalar à população, o Sistema Único de Saúde (SUS) transformou-se no tesouro mais nobre e vulnerável do orçamento público brasileiro. Recursos bilionários e pulverizados são desviados de hospitais, clínicas credenciadas e unidades de saúde. Investigações administrativas do Ministério da Saúde e da Controladoria Geral da União, concluídas entre 2007 e 2010, apontaram desvios de R$ 662,2 milhões no Fundo Nacional de Saúde.

O prejuízo pode ser bem maior, pois somente 2,5% das chamadas transferências fundo a fundo são fiscalizadas, de acordo com a CGU.

Só as irregularidades já atestadas financiariam a construção de 1.439 unidades básicas de saúde e de 24 Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), além de pagar os salários de um ano inteiro, com 13, de 1.156 equipes do Saúde da Família.

Em procedimentos, equivaleria a 1,21 milhão de cesarianas ou 1,48 milhão de cirurgias de hérnia.

O volume de dinheiro fiscalizado contrasta com a quantidade de desvios impunes. As fraudes incluem compras e pagamentos irregulares, superfaturamentos, desperdício com construção de hospitais que não funcionam e até contratação de um mesmo médico para 17 lugares ao mesmo tempo.

Nos quatro anos analisados, o prejuízo foi de R$ 223,07 milhões.

Para ter uma ideia dessa sangria a conta-gotas, O GLOBO recolheu detalhes de auditorias em vários estados e visitou quatro cidades.

Em Aparecida de Goiânia (GO), na Região Metropolitana, as 17 novas enfermarias do Hospital de Urgência custaram R$ 1,5 milhão, ficaram prontas em dezembro, mas não foram entregues pela construtora.

Os 38 leitos chegaram no mesmo mês, mas permanecem no almoxarifado, entulhados e se deteriorando na chuva. A construtora se esqueceu da saída de emergência, e os leitos não passam pelas portas dos quartos. Mais, aqui.
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Abaixo o artigo que escrevi anos atrás:

Sobre corrupção & saúvas

O vigor de uma democracia está umbilicalmente vinculado à sua capacidade de resistir e nocautear a corrupção. O costume de avançar sobre o patrimônio coletivo e o erário público vem de longa data, se confundindo, às vezes, com a própria trajetória da humanidade.

E apesar das medidas draconianas historicamente adotadas em defesa da coletividade, não obstante as enérgicas medidas para punir autoridades embaladas pela corrupção, este tipo de crime não arrefece, e recrudesce entre nós qual o pior tumor maligno. Geração após geração este mal vai se perpetuando nas diferentes culturas nacionais.

A aplicação da pena capital, das mais duras punições – invariavelmente acompanhadas de exposição e humilhação pública - não tem sequer amenizado a intensidade da grave hemorragia, que lança fora, para o latão de lixo, o melhor das forças, das energias de um povo, de uma nação.

Platão - discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles - já fazia referência à corrupção em uma de suas obras, “As Leis”, o mais longo e complexo diálogo do filósofo fundador da ‘Academia’. Ensinava aos seus discípulos os marcos da moral e da ética, recomendando a “desgraça” para todos os que aceitassem suborno e propina.

Na antiga Atenas não havia espaço para tergiversação e, pelo menos na escrita, a pena se mostrava severa: autoridade corrupta flagrada com a boca na botija tinha cassada a cidadania, sem mais possibilidade de participar e atuar nas instituições estatais. Seus direitos políticos eram de todo extirpados. Para ler o artigo completo, clique aqui.

sábado, 26 de março de 2011

Uma questão de amor à vida e ao próximo.

Japão identifica alta radiação no mar
Autoridades verificaram um elevado nível de contaminação na água do mar próximo à usina, mais de mil vezes superior ao permitido
Do Estadão

Em um modesto sinal de progresso no complexo nuclear Daiichi, em Fukushima, foi dado início neste sábado a drenagem de poças com elevado nível de radioatividade no prédio da turbina conectado ao reator número 1. Foi iniciada também uma operação para jogar água doce no compartimento de pressão do reator número 2. Ao mesmo tempo, as autoridades verificaram um elevado nível de contaminação na água do mar próximo à usina, mais de mil vezes superior ao permitido.

"Uma bomba foi instalada temporariamente no primeiro piso do prédio da turbina número 1 para drenar poças no piso térreo e estocá-las em um condensador - uma grande jarra de água que normalmente é utilizada para transformar vapor em água após processada na turbina", disse o porta-voz da Agência Nuclear e de Segurança Industrial do Japão, Hidehiko Nishiyama, em entrevista concedida este sábado. Mais, aqui.
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Sobre esta questão nuclear:

Uma questão de amor à vida e ao próximo.

 A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como a obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras. Declaração Universal dos Direitos da Água

A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial da vida. Como imaginar a atmosfera, o clima, a vegetação ou a agricultura sem a graça deste líquido precioso?

Em junho de 1992, o Brasil sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO RIO 92. A Conferência - considerada por muitos o evento ambiental mais importante do século passado, obteve a proeza de reunir representantes de 175 países e de Organizações Não-Governamentais.

Foi nesta Conferência que a ONU publicou o documento “Declaração Universal dos Direitos da Água”, cujo trecho figura em epígrafe, introduzindo este artigo.

Ainda que tardia, a Declaração procura resgatar a importância da água para a sustentabilidade do planeta.

Os cientistas da NASA - National Aeronautics and Space Administration – a agência espacial norte-americana, ao investigar a existência de vida em outros planetas, procura preliminarmente verificar a presença ou não de água, porque foi assim que a vida se originou por aqui.

Da antiguidade oriental emergiram muitos povos: o egípcio, sumério, acádio, assírio, persa, fenício, hebreu...

Essas civilizações estabeleceram uma dependência tão grande dos rios que passaram para a história com a denominação de “civilizações hidráulicas”.

O modelo de Estado adotado baseava-se, fundamentalmente, na posse das águas e das terras agricultáveis.

Mas antes mesmo da existência de Estados e povos organizados, a água já era um recurso natural a acompanhar a evolução humana. Desde os primórdios da existência, a espécie manteve-se a curta distância das fontes de abastecimento de água, condição imposta para o desenvolvimento, mas também para a sobrevivência.

O planeta seria um deserto inóspito inexistisse a água. Todos os animais que vivem hoje em terra firme, e os que traçam nos céus voos singelos e majestosos, evoluíram a partir de antecedentes que viveram nos mares e oceanos. E quando estas espécies abandonaram a água migrando para terra firme, tiveram que continuar servindo-se dela. Porque a evolução da humanidade e dos seres vivos, de forma geral, sempre esteve relacionada à disponibilidade de água.

A superfície terrestre tem nada menos que três quartos cobertos de água. Esta característica fez com que vingasse entre nós a cantilena de que os recursos hídricos seriam ilimitados, inesgotáveis. O que é grave, considerando que menos de 3 % da água do mundo é doce. E mais grave ainda, mais de 99% encontra-se congelada nas regiões polares ou em rios e lagos subterrâneos, limitando, portanto, sua imediata utilização.

A vinculação da humanidade com a água é tão umbilical que lendas antigas apregoavam a supressão da morte através da fonte da juventude, manancial que asseguraria a eternidade para os que a conseguissem acessar.

A fonte da juventude teria o condão de efetuar milagres, curar males e enfermidades, açoitar a velhice, mantendo os felizardos que a encontrassem em estado de eterna lepidez e juventude.

Não são poucas as referências sobre esta histórica busca pela água milagrosa. A mais antiga é uma obra dos sumérios, “Gilgamesh”, que se prevê ter sido escrita há 3.000 anos A.C.

A água é como o ar que se respira, indispensável para a vida humana. Tão indispensável que chega a compor 70% do nosso peso corporal. Uma pessoa faminta, sem alimento, é capaz de resistir por várias semanas; já sem água, perece em poucos dias.

No Brasil estão concentradas cerca de 12% de toda a água doce existente no mundo. E cresce o número de países que padecem com a escassez de água. Alguns já importam o precioso líquido. O Japão, por exemplo, faz vir parte dele da Coréia do Sul.

Se por um lado a abundância de água doce é um alento importante para o país, por outro, o desequilíbrio constitui um de nossos principais gargalos. A Amazônia concentra tão somente 7% da população brasileira, mas conta com 70% de toda a água doce existente no país. No nordeste encontra-se outro vértice do problema. Apesar da região contar com cerca de 30% da população brasileira, apenas 3% da nossa água doce lá se encontra.

Rodoux Faugh costuma alertar que a espécie humana prolifera no planeta de forma insustentável. E justifica lembrando que, em 1650, havia em torno de 500 mil habitantes no planeta e que em 2.011 já somos cerca de 7 bilhões. É gente demais para recursos naturais de menos.

O Brasil ainda conta com o privilégio de abrigar em seu subsolo um dos maiores reservatórios subterrâneos do mundo, o aquífero Guarani. Estima-se que este colossal reservatório natural se estenda por uma área de 1,2 milhões de km², área equivalente ao somatório dos territórios de muitos países.

O grande problema – que, em parte, já se verifica em vastas regiões do mundo - é que o recurso que possibilita a vida no planeta já dá sinais de esgotamento. Muito disso deve-se à pressão da demanda, aumento da população, da produção agrícola, industrial,... Mas não restam dúvidas que o desperdício é um dos componentes responsáveis pelo sinal vermelho, pelo sinal de alerta, de perigo, que já se anuncia de forma eloquente. Um dado revela o quão grave é a questão do desperdício de água nos núcleos urbanos, sobretudo dos países em desenvolvimento: 60% da água distribuída pela rede de abastecimento se perdem no caminho. No Brasil, 45% da água tratada para abastecimento das 27 capitais brasileiras é desperdiçada antes mesmo de chegar ao consumidor.

Caso a demanda continue crescendo no ritmo atual, cientistas estimam um cenário desolador: em 2025, 30% de toda a população mundial estaria sujeita às privações e suplícios da completa falta da seiva que sustenta a vida.

Se a água é vida, quando não tratada pode significar morte. As principais doenças que assolam as camadas mais pobres da população brasileira se propagam por meio hídrico como a gastrenterite, a cólera, a leishmaniose, a malária, a esquistossomose, as moléstias diarreicas e muitas outras. Em determinadas circunstâncias até mesmo a hepatite e a salmonelose.

No mundo, anualmente, morrem 10 milhões de pessoas, metade delas jovens e crianças, com menos de 18 anos, devido às doenças propagadas através de água sem tratamento adequado.

Cuidar, portanto, da água é questão de responsabilidade, de respeito, de amor à vida e ao próximo: um compromisso de sustentabilidade para com o planeta. Algo que, definitivamente, não se pode deixar para o amanhã.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Brasil não tem universidade entre as 100 melhores do mundo

Deu no Estadão

Com pontuação máxima, a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, manteve a ponta do ranking das melhores universidades em reputação do mundo, divulgado nesta quinta-feira, 10, pela Times Higher Education (THE), instituição baseada em Londres. Em setembro, quando a lista foi divulgada pela primeira vez, a universidade também estava no topo.

Entre os países do Bric, o Brasil é o único que não tem nenhuma instituição entre as cem melhores. Rússia (Universidade Lomonosov de Moscou), China (universidades Tsinghua, Pequim e Hong Kong) e Cingapura aparecem com instituições entre as 50 melhores do ranking. Já no grupo entre as 51.ª e 100.ª posições surgem universidades de países emergentes como a Universidade de Seul, na Coreia do Sul; Universidade de Taiwan e o Instituto de Ciência da Índia.

A classificação, organizada a partir de uma pesquisa feita com mais de 13 mil professores convidados de 131 países do mundo, reforça a posição dominante das instituições dos EUA. Reino Unido e Japão aparecem com estruturas universitárias robustas. O índice faz parte do ranking das melhores universidades do mundo divulgado pela THE em setembro do ano passado.

O índice de reputação considera apenas a imagem que os acadêmicos têm das instituições. A pesquisa pediu aos acadêmicos experientes para destacar o que eles acreditavam ser o mais forte das universidades para o ensino e a pesquisa em seus próprios campos.

Harvard obteve 100 pontos. As outras cinco melhores classificadas foram Instituto de Tecnologia de Massachusetts; Universidade de Cambridge (Reino Unido); Universidade da Califórnia, em Berkeley; Universidade de Stanford University e Universidade de Oxford (Reino Unido).

terça-feira, 8 de março de 2011

País perde R$ 7,4 bi por ano com água

Faltam investimentos em manutenção, fiscalização e atualização de redes de abastecimento para impedir vazamentos, ‘gatos’ e erros de medição
Edna Simão, de O Estado de S. Paulo

País perde cerca de R$ 7,4 bilhões por ano por falta de investimentos em manutenção, fiscalização e atualização de redes antigas de abastecimento de água para impedir vazamentos, ligações clandestinas – conhecidas como "gatos" – e erros de medição. Esse cálculo foi feito pelo consultor especialista em uso eficiente da água e energia, Airton Gomes, com exclusividade para o ‘Estado’.

Para chegar a esse valor, foram utilizados dados de 4.561 municípios constantes no documento mais recente – 2008 – do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) e considera a produção das cidades, tempo médio de abastecimento diário de 20 horas por dia, consumo autorizado não faturado, estimativa de perdas reais (vazamentos) e aparentes (fraudes nos hidrômetros e ramais clandestinos).

Segundo cálculos do especialista, do total de R$ 7,4 bilhões, R$ 4,4 bilhões são recuperáveis com medidas de gestão e investimentos. Ele classifica o número como"avassalador" porque o País necessita de investimentos de cerca de R$ 10 bilhões ao ano para garantir a universalização dos serviços de água e esgoto até 2015. "As empresas brasileiras estão perdendo dinheiro", ressaltou, acrescentando que há um limite para recuperação das perdas. Há um momento em que o custo para redução da perda é maior do que o resultado.

Obras novas

O cenário é reflexo da cultura brasileira de investir na construção de obras novas, o que foi estimulado na primeira etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e ignorar os sistemas já em funcionamento. Uma inauguração traz mais retorno político e pode ter um custo menor do que direcionar recursos para programas de ganhos de eficiência em sistemas antigos. Além disso, existem situações em que o nível de endividamento das empresas é tão alto que viabiliza a tomada de empréstimos e, consequentemente, investimentos.

Empresas como Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama), Companhia de Água e Esgoto do Amapá (Caesa) e Companhia de Saneamento Ambiental do Maranhão (Caema) têm o chamado Índice de Perdas de Faturamento (que considera tudo o que foi disponibilizado para distribuição e não foi faturado) acima de 70%, segundo dados do SNIS de 2008. O ideal seria, segundo o secretário nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, Leodegar Tiscoski, que esse número não fosse superior a 20%. A média nacional está próxima dos 40% de tudo o que é produzido.

Depois de anos de esquecimento, o secretário explicou que a primeira etapa do PAC focou investimentos em obras, mas que o governo está preocupado também com a sustentabilidade do sistema no longo prazo. O ajuste será feito no PAC 2 com a criação de uma linha de crédito específica para financiar programas de diminuição das perdas e desperdícios.

Airton Gomes acrescentou ainda que, no fim da década de 60, o país contava com 500 sistemas de abastecimento de água – agora, possui 5,5 mil. Porém, o País não se preparou para isso. "Passamos décadas construindo sistemas. É preciso mudar a cultura de obras. Em tempos de PAC, só se pensou nisso", destacou Gomes. Na avaliação dele, houve um desmonte da cadeia produtiva e agora, mesmo com a existência de recursos para investir, as companhias de saneamento básico estaduais e municipais não conseguem executar.

"Tem um caminhão de dinheiro, mas o setor demora de 4 a 5 anos para se reestruturar. Não tem quem faça projetos. Ou seja, não é uma questão apenas de dinheiro, pois não há quadro técnico", frisou.

O presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, disse que o elevado índice de perda de faturamento das empresas também está relacionado à má qualidade dos produtos utilizados para a construção das redes de abastecimento.

domingo, 6 de março de 2011

O fóssil corporativista

De Gaudêncio Torquato, em O Estado de S.Paulo

Ao passar por São Paulo para participar de eventos de ciência política, o professor americano Philipe Schmitter, autor de densa pesquisa sobre a democracia brasileira, com a qual embasou sua tese de doutoramento no final da década de 60, deixou no ar incitante provocação: não entende ele por que o Brasil ainda se vale do "fóssil corporativista". A expressão usada para se referir ao conceito - conotando coisa antiquada, ultrapassada, defasada no tempo - se refere, evidentemente, ao modelo adotado por Getúlio Vargas e inspirado em Mussolini, cujos elementos se apresentam organicamente vivos (e como) ainda hoje, bastando olhar para instituições amarradas à frondosa árvore estatal, como as centrais sindicais, ou a constelação de entidades que vivem de contribuições de interesse de categorias profissionais ou econômicas, agrupadas no chamado Sistema S, encabeçadas por Sesi e Senai, por parte da indústria, e por Sesc e Senac, por parte do comércio.

A dúvida suscitada pelo pesquisador aponta para uma relação de troca: o corporativismo brasileiro continua a dar as cartas por conta do interesse das partes que dele se valem e nele se escudam em mantê-lo vivo. Para usar a conhecida expressão popular, os escudeiros do corporativismo, sejam representações laborais ou empresariais, querem mamar nas tetas do Estado. E este usa o equipamento para manter certo controle sobre as partes.

Impacta o professor Schmitter o fato de o Brasil, em pleno século 21, ainda não se ter livrado de um fenômeno que faria sentido nos anos 30 ou, como ele admite, até nos anos 50, e que hoje foi eliminado em países de costumes parecidos, como o México, onde a democratização esfacelou o modelo corporativista. A surpresa se torna ainda maior quando se observam a variedade de grupos étnicos e religiosos e a diferenciação das economias sub-regionais, características brasileiras que, por si só, dariam margem ao desenvolvimento de sólidas estruturas pluralistas e, consequentemente, ao desmoronamento do corporativismo. A dificuldade, não de todo detectada por aquele cientista social, reside na formação do ethos nacional. Expliquemos.

Somos um povo acostumado a viver sob a tutela do Estado. Cada ator social - grupamento, núcleos organizados, setores - imbui-se de pertencimento, a noção de que tem direito a uma cota do patrimônio estatal. O patrimonialismo é, assim, o desenho de fundo do traço corporativista. A este valor se agrega o cartorialismo, pelo qual a parte que cabe a cada um deve ser oficializada, documentada, registrada em cartório. Resulta desse impulso a proliferação de leis e decretos. O foro legislativo entope-se com a enxurrada de normas que visam a atacar, defender, proteger e preservar posições. O corporativismo, como se pode aduzir, se ancora em restrições, concessões, janelinhas de oportunidades e balcões de benefícios. São tantas as injunções que o oxigênio da liberdade de escolha acaba sendo ministrado a conta-gotas.

Nesse ponto, convém apontar a imensa contradição que permeia o tecido institucional: quanto mais o País avança na avenida da modernização de processos e práticas da gestão pública - cujo foco é o compromisso com metas, resultados, eficiência e eficácia -, mais preso permanece à floresta legislativa. Dessa forma, os trens velozes da contemporaneidade correm atrás da carroça protecionista. Eis aí o gigantesco paradoxo de nossa democracia funcional. O pluralismo que se enxerga na gama de instituições sociais e políticas, nas organizações não governamentais, nos grupos de interesse, não ganha correspondência no campo do voluntarismo e nas frentes de livre escolha. Há, quase sempre, a mão imperiosa do Estado determinando preceitos e obrigações. Não é assim, por exemplo, no engessamento das relações de trabalho? Não é assim com o salário mínimo, decisão do Estado, quando deveria ser uma negociação entre o capital e o trabalho? Sindicatos, mesmo os que se manifestam contrariamente ao imposto compulsório, fazem dele seu eixo. As centrais sindicais se assemelham, cada vez mais, a corporações utilitaristas, que vivem intensa disputa para ampliar as bases e expandir receitas.

A miríade de associações, cada qual defendendo reivindicações de nichos e cadeias produtivas, se acostumou ao ofício de articular com os Poderes para baixar decretos, normas, instruções ou leis específicas de cunho protecionista. Mas tal composição não condiz com o formato de uma sociedade agrupada em núcleos especializados? É verdade. A especialização de grupos, incluindo os profissionais liberais, tende a crescer e a gerar efeitos, inclusive de natureza política, com a formação de cadeias e coalizões voltadas para eleger suas representações ao Parlamento. Impõe-se a pergunta: então, quem levantará a bandeira dos grupos sociais desorganizados, das massas periféricas, enfim, dos contingentes populacionais mais carentes? Os partidos? Ora, também começam a agir de maneira corporativa. Defendem, primeiro, suas fatias de poder. As 27 siglas que giram na constelação partidária acabam, elas próprias, sendo responsáveis pelo caráter fluido da política. Competitividade maior haveria se tivéssemos apenas cinco, seis ou sete partidos, que, ajustados ao arco ideológico, fariam representação mais adequada às divisões sociais. Sob essa configuração, o conceito de bem comum ganharia força.

Como se pode ver, os impedimentos para desmonte do corporativismo se repartem em muitos espaços. Um nó vai puxando o outro. O Estado gordo e intervencionista atrai ambições dos atores, que, por sua vez, lutam para ganhar terreno e administrar feudos corporativistas. Já o foro de legalidade é respaldado pela massa legislativa. Explica-se, assim, como o fóssil corporativista repousa na tumba repleta de interesses praticamente imune às moléstias do tempo. Protegido por uma guarda pretoriana, que, a ferro e fogo, afasta aqueles que ameaçam sua sobrevida.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Sobre contos de fada e falta de carater

Da BBC-Brasil
Chinês vive 4 anos com lâmina de 10 cm na cabeça

Talvez, impávido, o querido leitor esteja a se perguntar o que tem isto a ver com planejamento? Primeiramente, sigamos com o video abaixo, querido amigo...



Agora, passe a vista no texto que escrevi alguns anos atrás:


“Se quiser que os seus filhos sejam brilhantes, leia contos de fadas para eles. Se quiser que sejam ainda mais brilhantes, leia ainda mais contos de fadas”. Albert Einstein

Por incrível que pareça, existem pais que jamais leram um conto de fadas para seus filhos. Um sequer. Talvez por isto a sociedade amargue a existência de tantos sem brilho nos olhos, sem senso de justiça, ética e solidariedade. Talvez por isto a sociedade amargue a existência de tantos homens que, em algum momento do passado, permitiram escapar a alma, deixaram esvair o espírito, consentiram perder a humanidade.

Na tarde do dia 13 de setembro de 1848, o médico John Harlow foi surpreendido com a inesperada chegada de um paciente em estado gravíssimo. Da cabeça dilacerada esvaia um rio de sangue misturado com massa encefálica. Teve pena do pobre coitado e desejou que a morte socorresse o trabalhador, livrando-o da dor e do suplício insuperável, insuportável. Pensou em mandar buscar o vigário da pequena localidade para ministrar a extrema unção, até que, surpreso, percebeu estar diante de um daqueles casos clássicos, emblemáticos, que a medicina não consegue explicar.

Apesar da barra de ferro ter desfigurado a cabeça, entrando pela face e saindo pelo topo do cérebro, o paciente falava quase normalmente e podia, inclusive, caminhar. Após prestar os primeiros socorros e administrar os medicamento de praxe, o doutor foi se inteirar do ocorrido.

Logo, o Dr. Harlow descobriu que Phineas Gage trabalhava para a Rutland e Burland, supervisionando a construção de ferrovias em Vermont, nos Estados Unidos. Os colegas de trabalho que o conduziram ao hospital relataram angustiados:

- Gage preparava uma carga de pólvora para explodir uma pedra, uma enorme rocha – disse um, num só fôlego, mal conseguindo manter-se em pé de tão assustado.

- Mas ele não se deu conta que socou uma barra de aço no buraco, uma barra grande, com mais de um metro de comprimento... 2,5 cm de diâmetro – interrompeu o outro, com a voz embargada, quase chorando.

Então o terceiro trabalhador, que desde o primeiro instante confortava Gage jamais se distanciando, tentou completar o relato:

- Com a explosão a barra de ferro foi direto para a cabeça de Gage, foi isso doutor, foi isso...Gage é o meu melhor amigo, meu único amigo... Ele vai se salvar, Dr, vai escapar dessa? – perguntou numa mistura de aflição, desespero e sincera preocupação.

Absorto em suas análises e divagações, surpreso com a desenvoltura do paciente que, não obstante a extrema gravidade dos ferimentos, falava com espantosa naturalidade, o Dr. Harlow completou o diagnostico: a barra de ferro iniciou a trajetória entrando pela bochecha esquerda, atingiu o olho, esmagando-o completamente, avançou pela parte frontal do cérebro, e foi sair pela parte superior, pelo topo do crânio, do outro lado.

O Doutor aspirou todo ar que conseguiu encontrar e mal recuperara o equilíbrio, foi surpreendido por uma violenta convulsão de Phineas Gage. Mandou que todos se retirassem e com a ajuda de enfermeiros imobilizou o paciente na maca encharcada de sangue.

Para surpresa de todos, Gage se recuperou e logo estava circulando pelas ruas do pequeno povoado. Mas algo mudara radicalmente na vida do até então respeitável supervisor da construção da estrada de ferro: sua personalidade agora era outra. Sobretudo os amigos e colegas de trabalho perceberam que “Gage já não era Gage”. Mudava de humor bruscamente, sem motivo aparente. Ao longo da vida forjara seu caráter como um trabalhador correto, honesto, ético, calmo, sociável, mas a barra de ferro parecia ter gerado um outro homem, extravagante, presunçoso, anti-social, mentiroso, agressivo, vagando de emprego em emprego, lançando maldição e praga sobre quem dele se aproximasse.

O episódio que acabo de relatar é verídico e ocorreu em 1848. Gage morreu em 1861, na miséria e acometida por horrendas crises de epilepsia.

O Dr. John Harlow impressionado com a evolução do caso passou a estudá-lo cientificamente. Aprofundou a investigação entrevistando colegas de trabalho, amigos e parentes de Phineas Gage, recorreu a pesquisadores e colegas médicos, e chegou a publicar dois artigos sobre a história médica reconstruída de seu paciente.

Este caso tornou-se referência no ensino da medicina, sobretudo da neurologia. Permitiu que os neurologistas concluíssem que a parte do cérebro que Gage perdera, os lobos frontais, tinha estreita vinculação com as funções mentais e emocionais que ficaram alteradas. Ao término de suas análises e estudos sobre o caso, o Dr. Harlow chegou a concluir que "o equilíbrio entre as faculdades intelectuais e as propensões animais parecem ter sido destruídas”.

Mudanças comportamentais tem sido uma característica latente nas sociedades modernas. E talvez o caso Gage nos ajude a melhor compreender mudanças comportamentais tão radicais e profundas como as que nos surpreendem cotidianamente.

Nossas crianças nascem sãs, radiantes de pura inocência, iluminadas pela áurea mágica de Deus, os olhos brilhando como estrelas no firmamento. Enquanto crescem são alegres, cantam, dançam, brincam e se esbanjam num caldo fértil de felicidade. Emitem luz e energia tão inebriantes que contagiam o mais enfadonho dos ambientes, irradiando felicidade e alegria onde viceja a tristeza e a amargura. Mas num dado instante, no decorrer da caminhada, algumas perdem a graça e começam a se distanciar do humano para se assemelhar, mais e mais com os lobos e algozes do homem. Até que deixam de ser homens, por completo. Algo em muito semelhante às conclusões do Dr. Harlow “o equilíbrio entre as faculdades intelectuais e as propensões animais parecem ter sido destruídas”.

À nossa volta, diuturnamente somos surpreendidos por pessoas aparentemente sãs, mas que em algum momento da vida se deixaram atingir por uma barra de ferro. Como algumas autoridades e políticos que – se arvorando defensores da moralidade e da ética – avançam sobre os cofres públicos, criando redes infindáveis de corrupção, ignorando a dor alheia (máfia da saúde, das sanguessugas, do plasma, das ambulâncias...) e a fome e a educação de nossas crianças (máfia do livro, do transporte escolar, da merenda, do leite...).

Phineas Gage não morreu. Seu espírito assombra a sociedade brasileira lançando lama e nódoa purulenta sobre a mente de dezenas de milhares, sobretudo de políticos corruptos e ‘empresários’ sem caráter.

O alento é que a mentira sobrevive por algum tempo, às vezes por muito tempo, mas jamais por todo o tempo. E a verdade vai redimindo os indivíduos, a sociedade e a nação brasileira. Vamos aprimorando nossa capacidade de separar o joio do trigo, o certo do errado, o bem do mal.

Apesar dos milhares e poderosos que têm barras de aço invisíveis encravadas em suas cabeças, a sociedade vai evoluindo e percebendo que – por maiores que sejam os problemas das forças de segurança, devemos optar sempre pela polícia e não pelos bandidos, que jamais poderemos considerar natural que traficantes e latrocidas mantenham intimidade com nossos filhos, que políticos e empresários éticos existem, e que serão em profusão e exuberância se priorizarmos os investimentos em educação de qualidade.

A cada dois anos o Brasil experimenta a epopéia das eleições livres e democráticas. E assim vai se livrando da maldição de Phineas Gage. Porque nosso destino está escrito nas estrelas e o construímos no dia a dia, vertendo sangue, sacrifício e suor com nosso trabalho digno e honesto. Enganam-se os que acreditam que o Brasil será dos corruptos, dos traficantes, dos bandidos. Esta terra está predestinada a ser dos justos, dos honestos, dos bons, dos éticos... e aproxima o momento em que nos libertaremos do julgo dos que ostentam barras de aço encravadas nas cabeças. Então o Brasil e os brasileiros seremos de todo livres, progressistas e felizes. Porque Gage - como afirma o neurobiologista da universidade de Iowa - será apenas “o início histórico dos estudos das bases biológicas do comportamento”.

Atinemos para a importante lição que Einstein fez questão de ensinar: “Se quiser que os seus filhos sejam brilhantes, leia contos de fadas para eles. Se quiser que sejam ainda mais brilhantes, leia ainda mais contos de fadas”.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Irresponsabilidade em cadeia ou Políticos-anões e humores da natureza.

Meus queridos leitores, a tragédia que assola o Brasil - e particularmente o Rio de Janeiro - é uma gritante denúncia de que, na república de banânia, o planejamento foi completamente intrumentalizado. Na terra brasilis, as eficazes ferramentas da boa gestão só têm servido para municiar os que diuturnamente tungam o erário público. Leiam, abaixo, o editorial do Estadão:  

Irresponsabilidade em cadeia

Não passa de escapismo político a tentativa de alguns governantes de atribuir a fenômenos naturais os dramas que, periodicamente, afligem as populações de determinadas áreas e às vezes se transformam em imensa tragédia humana, como ocorreu na região serrana do Rio de Janeiro. As pessoas não morrem por causa das chuvas, disse ao Estado a diretora do Centro para a Pesquisa da Epidemiologia de Desastres, Debarati Guha-Sapir, considerada uma das maiores especialistas do mundo em desastres naturais. As pessoas morrem porque "não há vontade política para resolver seus dramas, que se repetem ano após ano". A principal causa de tantas mortes em desastres naturais é o descaso político, resume ela.

Um exame das políticas públicas - ou da falta delas - de proteção de populações contra desastres naturais mostra, de fato, uma extensa cadeia de imprevidência, incompetência administrativa, incapacidade técnica e irresponsabilidade política. Trata-se de um problema antigo. Espera-se que as dimensões da tragédia do Rio de Janeiro finalmente alertem as autoridades para a questão e as forcem a elaborar políticas e projetos que evitem sua repetição.

As falhas são nítidas na esfera municipal, onde programas de defesa civil foram negligenciados e a intensa ocupação de áreas de risco foi tolerada. Cabe às prefeituras impedir a ocupação dessas áreas. Mas isso é só o começo dos problemas. Na área federal, quando há dinheiro, só uma parte, às vezes ínfima, é aplicada. É injustificável que, mesmo após a tragédia em Angra dos Reis, em 2010, quando um deslizamento provocou a morte de 53 pessoas - em todo o Estado do Rio, as chuvas causaram 74 mortes no ano passado -, apenas R$ 1 milhão tenha sido liberado para o governo fluminense pelo Programa de Prevenção e Preparação para Emergência e Desastres, do governo federal.

O governo Lula caracterizou-se, entre outros aspectos negativos, pela notória dificuldade de administrar os recursos de que dispôs para investir em programas como os de prevenção de desastres naturais. Mas o problema não se limitou à esfera federal. Governos estaduais não se habilitaram a receber a parcela que lhes poderia ser destinada, e alguns governadores, como o do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, ainda se declaram satisfeitos com o apoio que recebem do governo federal.

Por falta de quadros técnicos, muitas prefeituras não conseguem avaliar a extensão dos danos causados por desastres naturais nem elaborar projetos de recuperação das áreas atingidas. Nesse caso, tem razão o Ministério da Integração Nacional ao alegar que, sem projetos adequados, não pode liberar as verbas. Afinal, há um procedimento legal que precisa ser seguido - a apresentação de um projeto, a realização de licitação para a contratação de obras, entre outras providências - para que a operação não seja depois objeto de restrições por parte do Tribunal de Contas da União (TCU).

Apesar de este ser um problema conhecido há muito tempo, não há nenhum programa de capacitação técnica dos municípios, de modo a lhes permitir ter acesso a recursos de outras esferas de governo. Falta articulação entre os três níveis de governo. E falta até num mesmo nível, é o caso do federal, que só agora está programando uma ação conjunta dos Ministérios da Integração, das Cidades e de Ciência e Tecnologia para a elaboração de um programa eficiente de prevenção de enchentes.

Quando houver informações relevantes, é preciso que elas fluam. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais dispõe de um supercomputador para previsão do tempo e estudos climáticos. Se necessário, suas previsões devem chegar rapidamente, e com clareza, aos órgãos de prevenção e ao público, como ocorre na Austrália.

Horas antes da catástrofe do Rio, o Instituto Nacional de Meteorologia divulgou boletim alertando que havia "condições meteorológicas favoráveis à ocorrência de chuvas moderadas ou fortes". É uma informação relevante, sem dúvida, mas insuficiente para forçar as autoridades a remover as pessoas das áreas de risco. Em que situação ficariam as autoridades se tivessem determinado a remoção dessas pessoas e, no fim, as chuvas tivessem sido "moderadas"?

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Ainda no Estadão, Júlio Castro denuncia que
Dois anos depois, desalojados de SC ainda esperam ajuda do governo

Passados dois anos da maior catástrofe climática de Santa Catarina, que terminou oficialmente com 135 mortos e dois desaparecidos, parte dos 78 mil habitantes atingidos, entre desalojados e desabrigados, ainda aguarda pela ajuda governamental. As pessoas mais prejudicadas estão na região do Vale do Rio Itajaí.

O déficit habitacional é o maior problema. Muitas famílias que tiveram suas casas destruídas ainda vivem em acomodações improvisadas em abrigos coletivos ou na casa de parentes. Das 6,5 mil casas prometidas, cerca de 4 mil foram construídas. Até o fim do ano passado, segundo dados da Defesa Civil, cerca de 2 mil famílias se mantinham desabrigadas e outras 3 mil desalojadas nos municípios afetados.

Algumas dessas famílias serão contempladas com o último lote de 70 casas que estão sendo construídas na cidade de Ilhota. As unidades estão em fase final de acabamento e foram patrocinadas pelo governo da Arábia Saudita que, em dezembro de 2008, doou cerca de US$ 5 milhões exclusivamente para a construção de casas populares aos flagelados. Por parte do governo federal, R$ 1,8 milhão ainda precisa ser repassado para a compra de terrenos.

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E, finalmente, o artigo que escrevi dois anos atrás:
Políticos-anões e humores da natureza.

O Brasil não tem uma boa tradição de gestão pública. A máquina estatal encontra-se ainda com um elevado grau de engessamento, o que possibilita que a administração se prostre, ficando à mercê do político-anão de plantão. E quando refiro-me a político-anão, falo dos poucos, especializados na arte da oratória, da enganação, da trapaça e da corrupção. Não são todos, evidentemente, porque, felizmente, a maioria dos políticos é constituída por gente honesta, abnegada, que busca, com persistência e obstinação, corresponder às expectativas e ansiedades da população. Ocorre que os políticos-anões são como ervas-daninhas, são dotados da destruidora capacidade de colocar toda a plantação a perder. E o que tem resultado da inóspita equação “estado engessado-político anão” é um país que vivencia problemas que muitas nações já superaram séculos atrás.

A tragédia recente de Santa Catarina é um caso que exemplifica, à perfeição, o pressuposto.

O Estado amargou calvário parecido no ano de 1984, portanto deveria estar devidamente preparado para não se deixar surpreender com as “peças que a natureza prega”.

“Peças que a natureza prega”, “o volume de chuvas foi descomunal”; “as precipitações superaram todas as previsões”, “os temporais castigaram o Estado”, “foi uma fatalidade, imprevisível e inevitável”, apressaram-se em justificar políticos-anões, autoridades-anãs e responsáveis-anões, atribuindo a desgraça aos humores dos deuses dos vapores condensados na atmosfera. Para ler o artigo completo, clique aqui.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Desperdício: o ocaso da sustentabilidade.

As condições de vida no planeta têm levado ao explosivo crescimento da população, condição agravada pela acentuada ampliação da expectativa de vida. Até os anos 1600, vivia-se, em média, 33 anos. Nos anos 1970 essa média se fixou em 47 para, em 2010 saltar para 80 anos.

Naturalmente, tal dinamismo demográfico tem implicado em inumeráveis tensões tornando o impacto sobre o planeta cada vez mais agressivo e avassalador.

Para se contrapor às consequências desse processo, a humanidade vem procurando incorporar novos conceitos e paradigmas de desenvolvimento consentâneos com as atuais necessidades. O conceito de “eco eficiência”, por exemplo, coteja além de preços competitivos, bens e serviços qualificados. Mas não só. Encerra também o consumo de recursos naturais de forma sustentável, a qualidade de vida e a redução do impacto ambiental. E se cristaliza em boa hora. O consumo tem se manifestado de forma tão irresponsável que as estimativas mais comedidas apontam a necessidade de 5,5 planetas Terra caso o mundo passasse a consumir no padrão dos EEUU.

No Brasil, o desperdício tem sido um mal ingente, uma chaga que grassa entre nós. E nas dimensões que vem ocorrendo, reflete o nível e a qualidade de nosso desenvolvimento: sofrível, perdulário, indigente.

Para onde se volta o olhar, qualquer que seja a direção, o horizonte se apresenta sempre fosco, nublado, tomado por densa fuligem que impede a claridade e a brisa do ar. A paisagem é emoldurada por um deserto inóspito e o que se vê na tela é desperdício, puro desperdício, nada que escape à noção de desperdício.

Na indústria, no comércio, na prestação de serviços, não há setor da economia que consiga se manter ao largo dos gigantescos e avassaladores tentáculos do desperdício.

E não se trata de coisa pequena ou figura de retórica. Os índices são alarmantes, vergonhosos, indecorosos para dizer o mínimo.

Na construção civil, por exemplo, a conta chega a um patamar incestuoso: 30% de desperdício. Seria como se, de cada dez edifícios construídos, três fossem escolhidos para serem implodidos, destinados aos containers de lixo, computados como custo desperdício. Em alguns setores específicos da engenharia civil, os índices deixam de ser alarmantes para cair na vala do “acredite se quiser”. É o caso de alguns materiais como argamassa, cujas perdas podem chegar à casa dos 90%. Isso mesmo, 90%! E não há aqui o mínimo de exagero. Esses dados foram obtidos com rigor científico. Resultam de pesquisa realizada pela UFMG em conjunto com 15 outras universidades brasileiras, levantamento amplo, largo, realizado em 12 unidades da federação.

Na agricultura, o IBGE retirou o véu que escondia a medonha realidade do calvário. O Brasil jogou na lata do lixo 81,5 milhões de toneladas de grãos de arroz, feijão, milho, soja e trigo nas fases de pré e pós-colheita das safras agrícolas entre 1996 a 2003.

Com um problema tão candente como a fome e a subnutrição, o país consegue a proeza de jogar fora mais alimentos do que consome. Quando se trata de hortaliças, por exemplo, a soma anual de desperdício chega a 37 quilos por habitante, enquanto o consumo por cidadão é de dois quilos a menos, 35 quilos de alimentos por ano. Só na Central de Abastecimento do Rio de Janeiro o desperdício diário é de 40 toneladas de alimentos. Não custa enfatizar, desperdício que ocorre em um único dia e que se repete invariavelmente.

Outro setor estratégico também apresenta diagnóstico de absoluta gravidade. O desperdício chega a ser um escândalo para qualquer um dotado de uma mente medianamente sã. Nada menos que 45% da água tratada para abastecimento das 27 capitais brasileiras é desperdiçada antes mesmo de chegar ao consumidor. Traduzindo para o bom português, quase metade da água potável produzida no país não chega, sequer, às torneiras do consumidor. São 6,14 milhões de litros do líquido precioso perdidos dia sim e o outro também, volume suficiente para abastecer 38 milhões de brasileiros diariamente.

Tanto desperdício decorre, naturalmente, de um sem número de problemas, a maioria deles, de uma forma ou outra, relacionados a questões de logística e infraestrutura física, mas, fundamentalmente relacionados à educação e a cultura. Sim, porque certo grau de desperdício é administrável e ocorre mesmo nos países desenvolvidos. Mas no volume e na dimensão que o problema aqui se verifica só mesmo nos países situados nas franjas do desenvolvimento econômico.

Muito do desperdício resulta de um caldo cultural direcionado para o consumismo, o esbanjamento, a completa ignorância sobre o que seja reduzir, reutilizar, reciclar. E nesta seara, só a educação tem condições de atuar, alterando o status quo, substituindo hábitos e costumes, promovendo a nova cultura da sustentabilidade.

Urge atinar que ‘sustentabilidade’ é uma boa ideia. E as boas ideias, no dizer de Rodoux Faugh “tem o poder de, na mente humana, desencadear uma explosão construtiva, tamanha, que coloca o homem, a micro partícula do universo, na mesma dimensão e grandeza que o cosmos”.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Educação & Sustentabilidade

Ao comparar a performance da educação brasileira com a dos países desenvolvidos e mesmo com a dos emergentes, rompe no horizonte uma fotografia nada animadora. Sobretudo porque muito em breve deveremos ocupar a posição de quinta maior economia do planeta.


A preocupação decorre em grande parte do retrato estampado nos últimos relatórios da Organização das Nações Unidas que nos perfilam ao lado do Zimbábue no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH. Segundo os relatórios da ONU, a média de nossa escolaridade mal chega a 7,2 anos para pessoas com mais de 25 anos. Entre nós, a insustentabilidade escolar rompe a barreira dos números inaceitáveis: quase 50% dos alunos com 16 anos de idade já passaram pela repetência e amargam, como consequência, séries inadequadas à faixa etária.

Pesquisadores e estudiosos chegaram à conclusão que os estudantes deveriam permanecer 20,6 anos na escola regular. Mas no Brasil continental este índice – com toda a maquiagem já intrínseca aos dados oficiais – não chega a 14, para ser mais preciso: 13,8 anos.

Relatório do Education at a glance 2010 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) traz outra informação desoladora: apesar de ter ampliado os gastos com o ensino fundamental na primeira década de 2000, o Brasil ainda investe apenas 1/5 do que os países desenvolvidos destinam ao setor.

Esta realidade impacta o desenvolvimento do país com reflexos instantâneos no mercado de trabalho. O expressivo crescimento econômico – ancorado na exportação de commodities – que alavanca os investimentos governamentais em infraestrutura encontra-se em descompasso face à escassez de mão de obra qualificada.

Problemas crônicos de planejamento, capacidade de gestão e corrupção podem fazer com que o país perca o “time” e deixe esvair dentre os dedos a oportunidade do século: desenvolver de forma acelerada e sustentável.

Em tempo algum o volume dos recursos – públicos e privados – disponíveis se apresentou tão acentuado. O que reforça a necessidade de revigorar nossos sistemas de planejamento e gestão, e combater, de maneira decidida e implacável, a corrupção que achincalha a alma nacional. É neste contexto que a educação se reveste de importância singular. E não entendemos aqui a educação como a panaceia capaz de – qual varinha de condão – fazer desaparecer os problemas estruturais que estão na raiz de nossa formação antropológica: a cultura cartorial e servil, o coronelismo político, o fisiologismo e a corrupção, com a sacralização do Estado onipresente e seu aparelhamento pelos grupos de interesses. Substrato para a propagação do pragmatismo paradigmático do “jeitinho brasileiro”, do “levar vantagem em tudo”, do “rouba, mas faz”, “estupra, mas não mata”, “se é do Estado, não é de ninguém”, “o mundo é dos espertos”, “se é público é de quem chegar primeiro”,...

Rodoux Faugh enfatiza que “(...) a educação não pode ser entendida como o ente metafísico, a força mediúnica capaz de dar cabo de todos os nossos problemas e angústias. Todavia, importa destacar que não existe, na face da terra, problema que se estruture e se resolva desdenhando ou mantendo-se ao largo da educação”.

Mesmo os países vizinhos têm superado o Brasil quando se trata de investimento em políticas educacionais. O Movimento Todos pela Educação cotejou os dados e mostra que, enquanto gastamos R$ 2,9 mil, o investimento per capta de Chile e Argentina chega a U$ 2,1 mil.

Estão previstos gastos da ordem de R$ 958 bilhões na segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento. E não se computam nesses valores os gastos que se terá com os megaeventos como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Investimentos vultosos que demandarão mais mão de obra qualificada, que, por sua vez, resulta de uma educação qualificada, planejamento e sistemas de gestão qualificados, diuturno combate á corrupção e combate sem tréguas à cultura da impunidade.

Técnicos governamentais estão otimistas quantos aos investimentos que serão direcionados ao setor. Estimam para o ano de 2011 a aplicação de 7% do PIB em Educação. Importa não esquecer que no ano que vem se dará a extinção da malfadada Desvinculação de Recursos da União (DRU), com reforço de caixa para o setor da ordem de R$ 7,5 bilhões. São recursos que escoarão para o ralo do esgoto caso não cuidemos do planejamento e da gestão. Uma enormidade de capital, dinheiro vivo que encherão as burras dos gatunos e larápios caso não quebremos a espinha dorsal da corrupção e da cultura da impunidade.

Não se trata, portanto, de simplesmente melhorar a qualidade dos gastos públicos. Trata-se de internalizar novos paradigmas e adotar políticas públicas sustentáveis, com foco no desenvolvimento integrado, harmônico, holístico. Neste contexto, as pessoas deverão se constituir em prioridade absoluta. Novas pessoas para um novo planeta; resgatando valores já um tanto esmaecidos como a solidariedade, a partilha, a comunhão, o respeito, a tolerância, a democracia, o amor fraterno... Fora deste contexto, sustentabilidade se reduzirá à mercadoria barata disponível nos balcões da esquina, jogatina acadêmica/editorial, estratégia de marketing para promoção de sabonete, substrato para comercialização de prazeres e ilusões...

domingo, 21 de novembro de 2010

Que tipo de organização merecerá o século XXI?

Em toda a história da humanidade, jamais as transformações ocorreram tão celeremente como nas últimas décadas.

A velocidade tem sido tamanha que poucos países têm conseguido acompanhá-la, ampliando mais ainda o fosso que separa os países ricos dos pobres e remediados.

Se até bem pouco tempo atrás o desenvolvimento estava umbilicalmente vinculado às reservas de recursos naturais de cada país, hoje se vincula à capacidade de produzir conhecimento.

Por isto, persistentes investimentos em educação tem sido o principal insumo para o progresso das nações. Estão aí os exemplos da Coréia, da Austrália e da Irlanda, que persistiram na adoção de políticas públicas eficazes, ancoradas sempre na educação.

Outro ponto que merece reflexão é que cada fase da história gerou uma forma organizacional diferente, compatível com os valores, características e demandas do seu tempo.

O volume de mudanças que vem ocorrendo no mundo gera cenários de incertezas, e os problemas se revestem de complexidade jamais experimentada. Estamos como que numa ante-sala, prestes a adentrar num universo em que os modelos e paradigmas serão radicalmente diferentes dos atuais. Um novo formato organizacional está em gestação e seu nascimento se dará sobre os escombros e ruínas do modelo organizacional burocrático atual.

É que os novos modelos deverão estar compatíveis com as novas demandas. É isto o que tem ensinado a história das organizações humanas. A realidade virtual, a bolsa de futuros, as telecomunicações, a forma como os recursos materiais e financeiros transitam de um continente para outro, tudo isto já está a exigir uma organização de tipo novo, apta a enfrentar as exigências do crescimento, imposto pela explosão da população e do consumo. Mas apta também a enfrentar uma concorrência mais selvagem, tecnologias mais sofisticadas, instabilidades macro-econômicas, globalização irreversível, e tratamento de sua imagem e da imagem de seus produtos.

O volume inesgotável de informações disponibilizadas pela internet, muitas delas contraditórias e antagônicas, e as incertezas características deste tempo em vigoroso movimento, criam uma fuligem densa e espessa que oblitera os diagnósticos e consequentemente o estabelecimento dos objetivos estratégicos e da visão de futuro.

As variáveis tornaram-se quase incontroláveis e os problemas extremamente complexos. Neste ambiente de pura turbulência, só os que adquiriram a habilidade de gerar e tratar de forma conveniente o conhecimento serão capazes de sair – revigorados - no outro lado do túnel.

Os demais terão perdido o bonde da história. Assim como o continente africano ficou para trás, não podemos permitir que a América Latina seja a bola da vez.

Antônio Carlos dos Santos é professor universitário, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Chaves, seus amigos e o risco que nos assombra

Meus queridos leitores, após o inquietante artigo de Roger Noriega, publicado no Estadão, e que trato de reproduzir abaixo, segue o meu texto, colorido, que escrevi algum tempo atrás:

Com apoio do Irã, Chávez inicia seu programa nuclear

Venezuela garante que pesquisa tem fins pacíficos, mas parceria com Teerã viola sanções do Conselho de Segurança da ONU
Roger Noriega - O Estado de S.Paulo

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, admitiu há duas semanas que seu governo está "fazendo os primeiros estudos" para um programa nuclear. Tentou descrevê-lo como um programa inofensivo, elaborado exclusivamente para fins pacíficos.

No dia 21 de setembro, concedi uma conferência para jornalistas e estudiosos regionais na qual revelei, pela primeira vez, informações sobre o programa nuclear de Chávez e sua preocupante e considerável colaboração com o Irã.

Essa pesquisa, feita durante os últimos 12 meses por uma equipe de especialistas que analisou o material confidencial obtido de fontes de dentro do governo venezuelano, mostra um panorama ainda mais obscuro das intenções de Chávez.

O presidente venezuelano esteve trabalhando no programa durante dois anos com a colaboração do Irã, um Estado pária nuclear. Além de mostrar a cooperação entre os dois países, esses documentos indicam que a Venezuela está ajudando o Irã a obter urânio. Todos esses passos são claras violações das resoluções do Conselho de Segurança da ONU, destinadas a impedir o programa ilegal de armas nucleares iraniano.

O que Chávez insinua quando diz que somente está estudando a ideia de um programa de energia nuclear é enganoso. De fato, em novembro de 2008, funcionários iranianos e venezuelanos assinaram um acordo secreto, mediante o qual formalizaram a cooperação "no campo da tecnologia nuclear".

Na semana seguinte, o Ministro de Energia e Petróleo da Venezuela elaborou uma apresentação para a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), documentando a criação de um "programa de energia nuclear" na Venezuela. A apresentação, obtida de fontes do governo venezuelano, revela que, desde 2007, uma "Comissão de Energia Atômica" administra o programa.

Todos os países têm direito a um programa de energia nuclear pacífico, de acordo com o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), do qual a Venezuela é signatária. No entanto, a decisão de Chávez de confiar em um dos maiores proliferadores do mundo para desenvolver a capacidade nuclear de seu país fez o alarme disparar.

Não é somente a cooperação venezuelana com o Irã em seu programa nuclear que levanta perguntas. Outros documentos fornecidos por fontes do governo venezuelano revelam uma rede suspeita de instalações, dirigidas pelo Irã na Venezuela, que transgridem as sanções do Conselho de Segurança.

Cooperação. Por exemplo, um contrato de novembro de 2008 entre a empresa estatal venezuelana CVG Minerven e a estatal do Irã Impasco dá aos iranianos a concessão para a exploração de uma "mina de ouro" em Bolívar, Estado localizado no sudeste do país, na fronteira com a Guiana. A jazida também contém um dos maiores depósitos de urânio do mundo, segundo um estudo da U308 Corp., empresa canadense de mineração de urânio.

Não há nada de ilegal na mineração comercial de urânio, a não ser o fato de ela ser administrada pelo Irã. A Resolução 1.929 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em junho, após um esforço diplomático exaustivo dos EUA, ordena que todos os governos proíbam toda participação iraniana em "mineração de urânio, produção ou o uso de materiais e tecnologia nucleares". Se a Impasco encontrar ouro na Venezuela, não deve ser problema para ninguém. Mas, se extrair urânio, é outro assunto.

Além de adquirir uma mina localizada estrategicamente sobre depósitos importantes de urânio, as empresas iranianas ficaram responsáveis pelas instalações industriais próximas e parecem estar usando-as para fins que não são os que foram declarados publicamente.

Fábricas de fachada. Por exemplo, uma "fábrica de cimento" que produz pouco ou nada de cimento, assim como uma "fábrica de tratores" - que produz muito poucos tratores - são duas instalações que estão bem localizadas para apoiar as obscuras atividades do Irã em uma área que está longe de tudo, menos do urânio.

A "fábrica de cimento", de fato, processa minerais da mina Impasco, segundo fontes que conhecem a instalação. A fábrica, localizada em Monagas, Estado do sul do país, foi construída em 2007 pela Edhasse Sanat, uma empresa que é propriedade do Ministério de Minas do Irã.

De acordo com testemunhas, a planta ainda não produziu nem um saco de cimento, mas tem servido de canal para trasladar minerais para um porto no rio Orinoco, onde são transferidos para barcos de bandeira iraniana no oceano Atlântico. Quando chegam em mar aberto, não há nada que se possa fazer para evitar a entrega ao Irã.

A "fábrica de tratores", no Estado de Bolívar, é a segunda instalação que oferece ao Irã uma máscara para encobrir suas atividades na remota região. Operada desde 2006 por uma joint venture entre Venezuela e Irã, a instalação produz poucos tratores e está localizada em um complexo de estilo militar protegido por soldados da Guarda Nacional da Venezuela, segundo informaram de testemunhas que visitaram a instalação.

Surgiram fortes suspeitas sobre o verdadeiro fim dessa fábrica em dezembro de 2008, quando autoridades alfandegárias da Turquia interceptaram uma carga enviada do Irã para a "fábrica de tratores" na Venezuela.

Segundo informações divulgadas na mídia, foram encontrados 22 contêineres nos quais haviam caixas de carga marcadas como "peças de tratores". Elas continham barris de nitrato e sulfito, materiais usadas para fazer bombas - os especialistas turcos descreveram os componentes como um "laboratório de explosivos".

Além disso, a carga suspeita foi enviada pela Companhia de Navegação da República Islâmica do Irã (IRISL), que recebeu uma sanção do Departamento do Tesouro dos EUA, em setembro de 2008, por oferecer serviços logísticos ao Ministério de Defesa do Irã.

Violações. Além de servir como máscara para as operações iranianas, os bancos e outras empresas supostamente comerciais estabelecidos na Venezuela oferecem acesso por parte do Irã ao setor financeiro internacional, o que infringe várias resoluções do Conselho de Segurança, que negam fundos para programas ilícitos de armas nucleares do país.

A Resolução 1.803, de 2008, pede que os governos "exerçam vigilância" sobre os bancos iranianos, especialmente o Saderat, "para evitar todas as atividades que contribuam para a proliferação de nuclear".

Os documentos recuperados dos arquivos do governo venezuelano mostram que, em 2007, o banco Saderat incorporou o Banco Internacional de Desarrollo (BID), na Venezuela. Todos os diretores do BID são iranianos e parece que hoje operam como um banco venezuelano, que na realidade seria uma fachada do Saderat.

Relatórios de empresas iranianas que operam na Venezuela mostram transações em dólares feitas pelo BID, em clara violação às leis dos EUA e às resoluções aprovadas pelo Conselho de Segurança.

A ONU tinham boas razões para apontar o Saderat como um possível canal de fundos utilizados para financiar o terrorismo e a proliferação nuclear. Em 2006, o Departamento do Tesouro americano sancionou o Saderat por servir como canal de fundos para o grupo libanês Hezbollah, considerado uma organização terrorista nos EUA.

Há dois meses, a União Europeia congelou os ativos do BID por seu papel no apoio às "atividades nucleares ou de mísseis balísticos" do Irã. Contudo, o governo de Chávez continua permitindo que o BID movimente dinheiro por meio de empresas de fachada iranianas.

Perigo. Ignorar o que estão fazendo Chávez e seus amigos diante do nosso nariz já não é mais uma opção. Se os EUA e a ONU falam sério quanto a não proliferação, devem fazer com que a Venezuela e o Irã admitam e, se for necessário, devem tomar medidas para que os dois regimes sejam responsabilizados por seus atos.

Infelizmente, as autoridades americanas continuam evitando assuntos que possam levar a um confronto com Chávez. No entanto, a disposição da Venezuela para desobedecer abertamente à lei internacional e ser cúmplice das atividades do Irã, bem perto da costa dos EUA, está ficando evidente demais e, finalmente, perigosa demais para continuar sendo ignorada.

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O Risco que nos assombra




As conquista humanas se dão para o bem e também para o mal.

No caso da energia nuclear, por exemplo, a medicina testemunha avanços fantásticos que melhoram a longevidade e a qualidade de vida de pacientes que, e outra circunstância, sequer teriam sobrevivido.

Mas as forças que apontam para uma extremidade, apontam também para a outra. É o caso da indústria armamentista que utiliza o potencial da criatividade humana para provocar pavor, despertar o terror, a destruição e a morte.


E neste contexto os limites inexistem, são tão consistentes e rígidos como uma barreira de neblina. Neste cenário o horizonte será sempre um infinito a desbravar, para desgraça da humanidade.


A bomba atômica inaugurou uma nova fase para os propósitos de destruição em massa: a bomba de hidrogênio, as armas nucleares táticas, os mísseis balísticos intercontinentais de ogivas múltiplas, a bomba de nêutrons, os mísseis móveis, lançados de submarinos ou de plataformas montadas em locomotivas e caminhões, o projeto Guerra nas Estrelas... Há ainda quem acredite na existência de limites para a perpetração do mal, para a cultura do maligno?


Alguns cientistas acusam a existência de algo terrífico, um armamento que se acreditava na efemeridade das intenções, em estágio de prancheta, ainda na incubadora de projetos: a bomba termo-nuclear de cobalto, tão poderosa que, detonada, seria capaz de deslocar a terra de seu eixo gravitacional.


Independentemente do uso que se faça da energia nuclear, vários problemas decorrentes continuam insolúveis. Um deles: como armazenar os rejeitos resultantes do processamento do átomo?


Casos escabrosos de irresponsabilidade em seu nível mais aviltante levaram ao setembro negro goiano, ano fatídico de 1987, quando a violação de uma cápsula de césio-137 produziu o mais grave acidente nuclear brasileiro, um dos maiores do mundo. Os rejeitos estão armazenados em Abadia de Goiás e lá permanecerão por centenas de anos.


Geralmente o lixo atômico necessita ser armazenado por, no mínimo, mil anos.


As bombas nucleares já explodidas – na 2ª Guerra Mundial e nos experimentos aéreos, aquáticos e subterrâneos – estenderam a contaminação para todo o mundo. Essa contaminação generalizada aliada às demais formas de exposição, incorporou a todo ser vivo que hoje habita o planeta um derivado dos processos industriais da fissura nuclear. Na era do desmembramento do átomo, todo organismo que ostenta vida na terra já tem incorporado, em sua estrutura óssea, traços do estrôncio-90.


Um outro problema grave é que tudo que se refira ao assunto recebe dos governos tratamento sigiloso, como segredo de estado, assunto de segurança nacional. É a justificativa técnica-política para que toda a sujeira seja escondida, varrida para debaixo do tapete, mantida a inalcançável distância da opinião pública. E sequer as democracias mais robustas e dinâmicas conservam-se imunes à perversa manipulação.


No caso de acidente nuclear os governos nada, ou quase nada, informam. Pior, apegam-se a artificialidades para deformar a informação, procurando a manipulação mais rasteira, criando valhacoutos de hipocrisia.


Liverpool - a cidade industrial que presenteou o mundo com os Beatles – foi atingida, em 1957, pela radioatividade que escapou de uma usina ali localizada. Mas só em 1983 o governo inglês reconheceu o falecimento de 39 britânicos, vitimados pelas doenças cancerígenas resultantes da radioatividade provocada pelo acidente. Estamos discorrendo sobre acidente nuclear ocorrido em uma das mais desenvolvidas democracias, mas que, nem por isto, mantém-se invulnerável às urdições da manipulação política efetuada para obliterar a opinião pública.


Quando os ingleses guerreavam para retomar as Ilhas Malvinas, o destróier britânico Sheffield foi a pique, não suportou a artilharia, o pesado fogo das baterias aéreas argentinas. Esta batalha ocorreu no mês de maio de 1982. Apesar do sepulcral silêncio do governo britânico, a Agência Internacional de Energia Atômica denunciou que o navio estava carregado com armas nucleares. Com a salinidade e as condições de temperatura e pressão do ambiente marítimo, em que condições estariam hoje essas bombas atômicas? Em que nível estaria se dando o escape da radiação e a contaminação ambiental? O oceano Atlântico que banha a costa Argentina é o mesmo que conforma boa parte dos limites do Brasil.


Existem navios e submarinos - chineses, norte-americanos e da antiga União Soviética - de propulsão nuclear e convencional, carregados com artefatos nucleares, que foram a pique e que, desde então, contaminam os oceanos de todos os continentes.


Mas, sem dúvidas, o maior acidente nuclear da histórica ocorreu em abril de 1986 em Chernobyl. A explosão de um dos quatro reatores da usina nuclear soviética imundou a atmosfera do centro-sul europeu formando um céu maculado por densas nuvens radioativas. Pouco depois do acidente, o governo ‘informou’ as conseqüências mais sentidas da tragédia: 31 mortos e 200 feridos. Não demorou e a máscara foi ao chão. Exatamente seis anos depois, o governo publicou comunicado oficial revelando a dimensão da tragédia: ao invés de 31, o número de mortes chegou a 10 mil. E no mês de abril de 1995, nova revelação: o Ministério da Saúde da Ucrânia reconheceu que mais de 125 mil pessoas morreram entre 1988 e 1994, vitimadas pela radiação. Um ano depois, um comunicado conjunto da Ucrânia e da Bielorússia ajustava a revelação: o número de mortes que iniciou com 31 passou para 300 mil, o número de pessoas contaminadas para cinco milhões e a área inutilizada pela radiação para 140 mil km², equivalente ao tamanho de Pernambuco e Paríba juntos.


Só no processo de limpeza da região atingida, o governo da então União Soviética mobilizou cerca de dois milhões de servidores e voluntários.


Mais de 20 anos depois, a Ucrânia e os países próximos lidam com as vítimas do que ocorreu em Chernobyl: as pessoas apresentam doenças no sangue, no sistema nervoso, nos aparelhos digestivo e respiratório e, sobretudo, problemas psicológicos.


As imagens da destruição de Hiroxima e Nagasaki, 62 anos depois, ainda chocam. As fotos das vítimas japonesas ainda escandalizam, apesar da violência mais brutal ter se tornado banal nos dias de hoje. Pois a Organização Mundial de Saúde calcula que a radioatividade desprendida no acidente de Chernobyl superou em 200 vezes à liberada pelas bombas que reduziram a pó as duas metrópoles japonesas.


Além do ocorrido em Goiânia, o Brasil já passou por outras situações de grave perigo. Em julho de 1997, o reator da usina nuclear de Angra 1 teve que ser desligado por um defeito técnico ocorrido em uma de suas válvulas. À época, os físicos brasileiros atribuíram a razão do acidente à falha nas varetas de combustível. E o avaliaram semelhante ao ocorrido na usina de Three Mile Island, nos Estados Unidos.


Desta vez escapamos ilesos, mas o risco, agora sabemos, assombra e paira também sobre nossas cabeças.


Não devemos tomar a energia nuclear como um bem ou mal em si. A panacéia, a redenção ou o Hades. A resposta esta condicionada ao domínio do conhecimento e a responsabilidade para com a sustentabilidade do planeta e para com o futuro da humanidade – atributos que, convenhamos, escapam de parte considerável dos governos.


Mas uma preliminar básica para a sobrevivência da vida deve ser buscada a todo custo: a sociedade planetária precisa se apropriar do saber, universalizar a educação de qualidade para manter-se permanentemente em estado de mobilização, exigindo dos governos clareza, discernimento, compromissos, competência e ampla divulgação das iniciativas no setor. É o mínimo para lidar com uma energia tão poderosa, ao mesmo tempo criativa e destruidora. A única capaz de pulverizar, na fração do segundo, um nódulo cancerígeno, para o bem; ou, no limite, erradicar a vida terrena, para o mal.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br