domingo, 1 de maio de 2016

Empresas põem nomes lúdicos em suas diretorias para mexer com a criatividade dos funcionários



Diretor de felicidade, diretor de whatever e gerente de bem-estar são alguns dos cargos que fogem do convencional

Diretor de whatever, diretor de felicidade e gerente científica de bem-estar podem até parecer cargos futurísticos que vão existir nas empresas daqui a alguns anos, mas, na verdade, já são empregados atualmente. É que mais companhias estão passando a adotar nomes de cargos que fogem dos tradicionais diretores executivos ou gerente-geral, em uma estratégia para se diferenciar no mercado e também para fugir da mesmice.

Na Perestroika, escola de cursos criativos, são 28 diretores de whatever — isso mesmo, diretores de “qualquer coisa”, na tradução do inglês.

— As atribuições dos diretores de whatever são fazer tudo que for necessário para garantir uma boa aula. Desde falar com os professores, construir o conteúdo, vender o curso, até organizar as cadeiras e cuidar dos drinks da festa final, ou seja, whatever — explica Jean Philippe Rosier, sócio e diretor de Whatever da Perestroika, que, além de Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, onde nasceu, está se expandindo para Curitiba, Belo Horizonte e Brasília e para São Francisco, na Califórnia.

De coach a diretor de felicidade

A escola, que, em seu portfólio oferece cursos como “Empreendedorismo criativo”, “Fashion business”, “New Ways of thinking” e “Chora ppt”, tem o DNA da criatividade e, com seus diretores de qualquer coisa, procura imprimir esse conceito também.

— Cada vez mais, estamos buscando transparência e verdade nas nossas relações. Não precisamos mais seguir padrões, portanto, se o job description do profissional for zelar pela felicidade das pessoas dentro da empresa ou fazer qualquer coisa necessária para se ter uma boa aula, faz todo sentido o cargo traduzir exatamente isso — acredita Rosier.

É essa filosofia que o curso de inglês on-line Open English também procura seguir. A empresa conta com um diretor de Felicidade, ocupado pelo colombiano Alain Lagger, que atuou como coach do fundador e CEO do Open English, Andres Moreno.

— Ele então me perguntou se eu gostaria de compartilhar uma experiência semelhante com os funcionários da empresa. Moreno estava buscando uma forma de motivar seus empregados por meio de uma cultura de positividade, o que levou à criação do “Departamento de Felicidade” no Open English — explica Lagger.

De química a gerente de bem-estar

O trabalho dele inclui a organização de eventos de motivação, como workshops, palestras e concursos, e também sessões de coaching com funcionários e gestores — tudo isso com o objetivo de criar uma cultura positiva na empresa.

— Mantenho relações pessoais com empregados de todos os níveis da empresa. Eles escrevem para me contar suas conquistas e para pedir ajuda: contam que vão se casar ou que estão tristes porque perderam um ente querido — conta Lagger, que acredita que mais organizações vão passar a rever suas estruturas tradicionais.

 — Essa nova geração de trabalhadores tem demandas diferentes, uma vez que está acostumada com mais liberdade. Um universitário que possa escolher entre uma empresa com estrutura hierárquica convencional ou uma que tenha um departamento de felicidade, provavelmente escolherá a segunda opção.

No caso da Natura, a criação da Gerência Científica de Bem-estar, em 2010, reflete uma estratégia de aumento de investimentos em pesquisa e inovação. Para assumir o cargo, a empresa elegeu Rosa Friedlander, que atua há 23 anos na companhia e é química:

— A função que eu tenho atualmente não existe no mercado. Se a companhia optasse por trazer alguém de fora, até que essa pessoa entendesse os mecanismos da empresa e nos trouxesse resultados, poderia demorar além do devido.

A própria Rosa teve que passar por reciclagens e capacitação para o trabalho específico, fazendo cursos de semiótica e psicofisiologia para somar à sua formação como química.

— Nos últimos três anos, venho me capacitando, porque é um cargo novo na empresa — acentua Rosa, que costuma observar que seus interlocutores ficam perplexos, quando ela diz que é gerente científica de bem-estar. — As pessoas me olham com uma interrogação, e quem é mais distante do setor inclusive demora mesmo um pouco a entender.

Ao contar que é diretor de Whatever da Perestroika, Jean Philppe Rosier também precisa dar explicações:

— Todo mundo se surpreende e adora. Já recebi diversos e-mails elogiando a ideia, dizendo que adoraram o cargo. Geralmente, quando vou dar palestras nas empresas, me pedem para eu contar meu cargo e explicar como funciona. Todos piram com o conceito e com a nomenclatura.

Subway: artistas do sanduíche

E o uso de nomes fora do convencional não se restringe a cargos mais altos da hierarquia das companhias. Como forma de motivar seus funcionários, a rede de fast food Subway chama os atendentes de “artistas de sanduíches”, pois a empresa “acredita que esses funcionários não sejam apenas balconistas, mas verdadeiros consultores de sabores, que auxiliam na venda sugestiva, indicando, inclusive, combinações para os clientes”.

— Eu acredito que há sentido em todo trabalho, e que é importante para o funcionário se conectar a isso para ver um propósito maior — ressalta o coach e diretor de Felicidade do Open English.

Em O Globo
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