sexta-feira, 13 de maio de 2016

Na fronteira do conhecimento: macaco consegue controlar os movimentos de outro com o pensamento


Tecnologia ainda dá seus primeiros passos, mas é avanço importante para contornar danos da medula espinhal

Cientistas americanos anunciaram ter conseguido fazer com que um macaco controle os movimentos do braço de outro com o pensamento.
Leituras do cérebro do primeiro macaco, chamado de mestre, foram usadas como guia para estimular eletricamente a medula espinhal do segundo macaco, chamado de avatar. Assim, o mestre pôde comandar os movimentos do avatar.

A equipe de cientistas espera que o método seja aperfeiçoado para permitir que pessoas paralíticas readquiram o controle de seus corpos. Danos à medula espinhal podem interromper o fluxo de informações entre o cérebro e o corpo e impedir uma pessoa de andar ou se alimentar sozinha. Os pesquisadores buscam contornar esse dano com a ajuda de máquinas.

Publicados na Nature Communications, os resultados do estudo foram descritos como "um passo importante" rumo a essa meta.

Conexão cerebral
Na pesquisa, cientistas da Escola de Medicina de Harvard se recusaram a provocar a paralisia de um macaco por considerar a atitude injustificável. Em vez disso, usaram dois macacos: um mestre e um avatar, que foi sedado para simular os efeitos da paralisia.

Um chip foi implantado no cérebro do mestre para monitorar qualquer atividade cerebral que envolvesse mais de cem neurônios. Durante o treinamento, os movimentos do mestre foram relacionados a padrões da atividade elétrica gerada por seus neurônios.

Por sua vez, o avatar teve 36 eletrodos implantados em sua medula espinhal. Testes foram realizados para verificar como o estímulo provocado por diferentes combinações de eletrodos afetava seus movimentos.

Só então os macacos foram conectados um ao outro para que as leituras cerebrais de um gerassem movimentos no outro em tempo real. O avatar segurava um controle que comandava um cursor em uma tela enquanto o líder pensava em mover este cursor para cima e para baixo.

Em 98% dos testes, o mestre conseguir controlar os movimentos do braço do avatar.
"Nossa esperança é obter um movimento totalmente natural", disse o pesquisador Ziv Williams à BBC. "Acho que teoricamente é possível, mas para chegar a esse ponto serão necessários esforços adicionais e exponenciais".

Para Williams, mesmo a menor capacidade de realizar movimentos novamente mudaria drasticamente a qualidade de vida de pessoas paralíticas.

Realidade ou ficção?

                            O controle de corpos com o pensamento foi tema do filme Avatar

A ideia de um cérebro controlar o corpo de um avatar já foi tema de filmes de Hollywood, como Avatar (2009).

No entanto, o professor Christopher James, da Universidade de Warwick, descarta um futuro no qual será possível comandar os corpos de outras pessoas por meio do pensamento.

"O risco de isso acontecer é nulo", disse James. "Mesmo ligada a outra pessoa dessa forma, quem não tem lesões na medula espinhal ou no tronco encefálico ainda assim reteria o controle de seus membros. Então, ninguém será capaz nem tão cedo de fazer alguém se movimentar contra sua vontade".

Mesmo assim, James afirma, a pesquisa tem grandes implicações, "especialmente no controle de membros quando há uma lesão ou no controle de próteses por quem teve um membro amputado".

Ainda há alguns desafios para atingir essa meta. Mover um cursor para cima e para baixo não se equipara, por exemplo, à complexidade de um movimento como o de levar um copo até à boca.

Além disso, os músculos tendem a ficar mais rígidos após uma paralisia e a pressão sanguínea varia bastante, o que torna a retomada do controle do corpo mais difícil.

"Este trabalho é um passo à frente importante porque mostra que existe a chance de usar ligações entre máquinas e o cérebro para reestabelecer a capacidade de uma pessoa paralítica de realizar movimentos", diz o professor Bernard Conway, chefe de engenharia biomédica da Universidade de Strathclyde (Reino Unido).

"No entanto, ainda será necessário muito trabalho antes que a tecnologia possa ser usada por quem precisa dela."

James Gallagher, da BBC News

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