
Teorias da conspiração, troca de acusações, disputa
por cargos e bravatas permeiam a crise
A foto que abre esta reportagem revela um candidato em ação. Um candidato a
autocrata, que participa de uma manifestação a favor da intervenção militar e
do fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Um candidato à
reeleição, que radicaliza o discurso com o objetivo de reagrupar sua base de
apoio, cada vez mais titubeante nas redes sociais. Um candidato a
incendiário-geral da República, que dobra a aposta no confronto quando se
espera dele que lidere o país e unifique os esforços destinados a atenuar os
efeitos da pandemia do novo coronavírus. Ao subir numa caminhonete em frente ao
quartel-general do Exército em Brasília, no domingo 19, Jair Bolsonaro encenou
todos esses papéis, menos o mais importante: o de presidente. Sua atitude
provocou as reações de repúdio de praxe — a maioria delas, aliás, pautada pelos
mesmos interesses politiqueiros, num período em que a energia dos poderosos
deveria se concentrar em um único propósito: salvar vidas. A magnanimidade,
porém, é virtude rara.
Desde o início de seu mandato, Bolsonaro radicaliza e depois recua, radicaliza
e depois recua, testando os limites das instituições. Diversionista por
natureza, sempre elege adversários de ocasião para não ter de dar explicações
sobre os muitos problemas de sua administração. Em plena pandemia, ele passou a
atacar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), sob o pretexto de que o
deputado patrocina uma pauta-bomba para desestabilizar o governo. A preocupação
presidencial, no entanto, vai além disso. Bolsonaro suspeita que Maia — com o
apoio de ministros de tribunais superiores — possa abrir um processo de
impeachment contra ele. Por isso conclamou sua soldadesca a bater sem dó no
parlamentar, a fim de intimidá-lo. Bolsonaro também iniciou uma operação para
esvaziar a influência do desafeto sobre os deputados e impedir que ele se
reeleja à presidência da Câmara no ano que vem. Pelas normas atuais, Maia e o
comandante do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), não podem disputar o cargo em
2021, mas ambos, também guiados por interesses pessoais, agem nos bastidores
para mudar a regra do jogo.
Em sua cruzada, o presidente desmoralizou de vez seu discurso contra o toma lá
dá cá e se rendeu às negociações com partidos conhecidos por mercadejar seu
apoio em troca de cargos e outras benesses. Entre eles, o PP do petrolão, o PL
do mensalão e o Republicanos, a nova sigla de Flávio e Carlos Bolsonaro. Com
sete mandatos de deputado no currículo, Bolsonaro conhece bem o apetite dessa
turma, tanto que está oferecendo a essas legendas o controle, entre outros, do
Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e do Departamento
Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), cujos orçamentos neste ano são de,
respectivamente, 54 bilhões de reais e 1 bilhão de reais. A meta é montar uma
base parlamentar contra um eventual processo de impeachment. Em suas
negociações com a velha política, o presidente mostrou simpatia pelas
pré-candidaturas ao comando da Câmara de Arthur Lira (PP), denunciado na
Operação Lava-Jato, e de Marcos Pereira (Republicanos), delatado pelo
empresário Joesley Batista. Fez isso dias antes de declarar, no comício
antidemocrático de domingo passado, coisas como “acabou a época da patifaria, é
agora o povo no poder” e “não queremos negociar nada”.
Em entrevista a VEJA, publicada na edição passada, Rodrigo Maia afastou a
possibilidade de abrir um processo de impeachment. É fato, no entanto, que
discussões sobre o assunto ganharam fôlego em Brasília, inclusive dentro de um
grupo apelidado de “resistência democrática”, que reúne congressistas,
ministros do STF e integrantes do Tribunal de Contas da União (TCU).
Há tempos eles conversam sobre quais estratégias Bolsonaro pode empregar para
se segurar no cargo — por exemplo, mandar o ministro da Justiça, Sergio Moro,
perseguir adversários — e sobre como seria um governo do vice Hamilton Mourão.
O grupo, que quer a reeleição de Maia na Câmara, não descarta o seguinte
cenário: nos próximos meses, haverá um salto no número de mortos pela Covid-19
no Brasil e os impactos negativos da crise no bolso das pessoas se tornarão
mais contundentes. Assim, a popularidade do presidente, hoje na casa dos 30%,
poderá cair a ponto de abrir caminho para um processo contra Bolsonaro. De nada
adiantaria ao presidente culpar os governadores pela derrocada econômica.
“Como se diz na minha terra, tem uma hora que o problema é federal”, afirmou a
VEJA um ministro que faz parte da tal “resistência democrática”. Pela
Constituição, um processo de impeachment requer a ocorrência de um crime de
responsabilidade. Pode ser só coincidência, mas órgãos de controle já mandaram
recados à equipe econômica sobre os riscos da utilização de bancos públicos
para o pagamento, por exemplo, do auxílio emergencial de 600 reais a
trabalhadores informais. O ministro Paulo Guedes e o presidente do Banco
Central, Roberto Campos Neto, ouviram que a falta de cobertura pelo Tesouro
Nacional pode levar a uma futura rejeição da prestação de contas do presidente
— e que isso poderia ser o estopim para a cassação do mandato. “Antes era
Guerra Fria. Agora virou batalha campal”, diz outro integrante do grupo. Nessa
selva de pedra, a briga entre Bolsonaro e Maia é insuflada por Paulo Guedes, o
czar da economia. O ministro e o deputado começaram a se estranhar durante a
tramitação da reforma da Previdência, quando Guedes recomendou ao povo dar uma
prensa no Legislativo.
O ministro Paulo Guedes rebate dizendo que Rodrigo Maia deseja apenas o
protagonismo, não trabalha e que, se quisesse, acabaria com o deputado em cinco
minutos Alan Santos/PR
No fim do ano passado, o Congresso aprovou uma lei que tirava do Executivo e
passava para o Legislativo o controle de 30 bilhões de reais do Orçamento da
União. Em conversas reservadas, Guedes reclamou: “Impressionante, né? Para
aprovar 30 bilhões de reais, Rodrigo Maia fez tudo isso em um dia. Para arrumar
a grana deles, é rápido. Mas para quem precisa demora”. A animosidade cresceu
diante da cobrança de Maia para que Guedes enviasse ao Parlamento as propostas
do governo das reformas tributária e administrativa. Com a pandemia do
coronavírus, houve uma tentativa de armistício. O ministro da Secretaria-Geral
da Presidência, Jorge Oliveira, convocou Maia e líderes partidários para uma
reunião com Guedes, o presidente do Banco Central e o então ministro da Saúde
Henrique Mandetta sobre a pandemia, o único tema que, segundo o presidente da
Câmara, unia o governo ao Congresso naquele momento. Deu tudo errado.
No encontro, Guedes repetiu apenas seu mantra a favor das reformas. Maia
retrucou: “Paulo, e o setor aéreo, que vai parar daqui a alguns dias? Como
vocês vão resolver esse problema? E o setor de bares e restaurantes?”. O
ministro nada respondeu na hora. No dia seguinte, em entrevista a VEJA, Guedes
declarou que com 3, 4, 5 bilhões de reais o governo aniquilaria o coronavírus.
Maia reproduziu essa frase em seu Twitter para sugerir que o ministro não tinha
a dimensão do problema. Guedes reagiu mandando uma mensagem ao parlamentar:
“Você me colocou numa armadilha naquela reunião com os deputados”. Maia
retrucou: “Combinei com o Jorge uma reunião sobre coronavírus, e você foi lá
tratar de reforma. Não te botei em armadilha nenhuma”. A partir daí, a situação
degringolou. Guedes defendeu uma proposta de auxílio emergencial de 200 reais a
trabalhadores informais, mas Maia convenceu os deputados a subir o valor para
500 reais. No fim, para garantir a paternidade da bondade, Bolsonaro bateu o
martelo em 600 reais.
Com o valor definido, Guedes aventou a possibilidade de só pagar caso fosse
aprovada uma emenda constitucional autorizando o gasto. Maia reagiu, disse que
não era necessário e venceu a queda de braço. O presidente da Câmara ainda
organizou a aprovação de uma emenda constitucional, a PEC do Orçamento de
Guerra, para tirar as amarras ao gasto público durante a pandemia. A proposta
só foi analisada pelo Ministério da Economia depois de muita insistência do
deputado. “O Guedes está completamente perdido. Não tem proposta. Não sabe como
sair da crise. Tem atrapalhado o governo. Muitas pessoas do palácio têm a mesma
opinião”, disparou Maia numa conversa reservada. “Na reunião que o ministro
Luiz Eduardo Ramos fez com líderes de partidos, ele não deixou o Guedes ir,
porque achava que o Guedes ia piorar a relação do Parlamento com o governo”,
acrescentou. O ministro reage principalmente nos encontros com Bolsonaro.
Neles, alega que o deputado é peça-chave de um complô organizado com o
governador de São Paulo, João Doria (PSDB), pré-candidato à Presidência, cujo
objetivo é desestabilizar a equipe econômica e o governo, dificultando a
reeleição de Bolsonaro. A proposta de socorro financeiro a estados e municípios
aprovada pela Câmara seria a prova disso.
Segundo Guedes, a versão original defendida por Rodrigo Maia causaria um
impacto de 285 bilhões de reais. Por isso foi tachada de pauta-bomba, já que
sangraria os cofres da União, e de peça da conspiração eleitoral, pois encheria
os caixas de governadores que podem enfrentar o presidente em 2022. Já Maia
alega que o texto aprovado tem impacto de cerca de 90 bilhões de reais. Devido
a essa diferença de números, o deputado declarou em entrevista a VEJA que o
ministro não era sério. Guedes não respondeu publicamente, mas a pessoas
próximas soou desafiador: “Se o Rodrigo Maia trabalhasse 10% do tempo em que
fica dando entrevista, já estaria bom. Se eu quisesse, acabaria com ele em
cinco minutos”. Ameaças à parte, Guedes está negociando com Davi Alcolumbre a
votação de um novo pacote de socorro a estados e municípios, em substituição à
proposta de Maia. Alcolumbre está empenhado no acordo com o ministro. Não é à
toa. Sua meta é concorrer à reeleição à presidência do Senado com a bênção do
governo. Em tempo: enquanto cada uma dessas autoridades defende seu projeto
pessoal de poder, o Brasil já ultrapassou a marca de 50?000 infectados e 3?300
mortos em razão do novo coronavírus.
Por Daniel Pereira, Thiago Bronzatto, Laryssa
Borges, na Revista Veja