quarta-feira, 6 de maio de 2020

Fábrica de projetos" de baixo risco para retomada com investimentos privados



Finalizado no dia 28 de abril, o plano foi estruturado por técnicos do Ministério da Economia para ser apresentado ao comitê de crise montado pela Casa Civil

A equipe do ministro Paulo Guedes quer a estruturação de uma "fábrica de projetos" de baixo risco como plano A para viabilizar a retomada econômica com investimentos privados em infraestrutura.

A avaliação, segundo documento interno visto pela Reuters, é de que a forte injeção de liquidez no mundo para combater os impactos negativos do coronavírus levará os investidores de longo prazo a apostarem em ativos no país desde que haja projetos de qualidade para tanto.

Finalizado no dia 28 de abril, o plano foi estruturado por técnicos do Ministério da Economia para ser apresentado ao comitê de crise montado pela Casa Civil. O ministério comandado pelo general Braga Netto é responsável pelo chamado Pró-Brasil, plano que foi divulgado no fim de abril sem grandes detalhes, mas que despertou preocupações no mercado pela previsão de utilização de recursos públicos para obras, o que vai contra o receituário defendido por Guedes.

O plano do Ministério da Economia, por sua vez, baseia-se na percepção de que a baixa capacidade operacional de elaboração de projetos de concessão é hoje um dos principais gargalos --se não o principal-- para o aumento dos investimentos privados no país. E que são eles, e não os investimentos públicos, que terão força suficiente para reativar a economia.

A partir de um cálculo de necessidade de investimentos em infraestrutura de 1,4 trilhão de reais no Brasil nos próximos 5 anos, a equipe de Guedes estimou a necessidade de investir 5,1 bilhões de reais na estruturação de projetos até 2023, sendo 1,1 bilhão de reais neste ano.

Em função da situação de penúria das contas públicas, o estudo propõe que sejam formadas parcerias com bancos públicos, como Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Caixa Econômica Federal, além de organismos multilaterais de crédito, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, New Development Bank e Banco Mundial, para bancar esses custos.

Segundo o estudo, a forma de operacionalizar as parcerias seria o contrato de financiamento externo, em que o organismo multilateral empresta recursos ao banco público, com ou sem garantia da União, com o objetivo de aplicá-los na preparação de projetos de concessão.

"Além disso, a carência do empréstimo pode ser calibrada no sentido de garantir que a licitação, que prevê o reembolso do valor dos estudos pelo vencedor, ocorra antes do pagamento do empréstimo, eliminando a necessidade de recursos orçamentários para este fim", diz o estudo.

Para acelerar o tempo de entrega dos projetos, já que sua estruturação hoje supera dois anos, a equipe de Guedes propõe ainda a criação de um modelo padronizado de contrato, com regras tarifárias e de modelagem já em conformidade com recomendações do Tribunal de Contas da União (TCU).

O Ministério da Economia não respondeu de imediato a pedido feito pela Reuters de comentário sobre o estudo.
ROTA ALTERNATIVA

Caso o governo entenda ser necessário injetar recursos públicos para impulsionar as obras em infraestrutura, os técnicos da pasta apresentaram um plano B em que o dinheiro do Estado seria aportado num fundo de natureza privada, com gestão de instituição privada e contratada por critério de melhor técnica, com a atribuição de fazer a gestão da carteira de projetos.

"O fundo seria capitalizado pela União, com aporte inicial em dinheiro ou outros ativos, e anualmente, de acordo com a disponibilidade orçamentária. É possível aproveitar a oportunidade para avaliar a possibilidade de encerrar fundos existentes e ineficientes e destinar seus recursos, quando existentes, para o novo modelo", traz o estudo.

Nesse modelo, todas as obras realizadas pelo fundo seriam privatizadas após sua conclusão.

Entre as vantagens do modelo, segundo o documento preparado pelos técnicos, estaria a impossibilidade de o fundo ser atingido por contingenciamentos, o que daria ao gestor maior capacidade de execução.

INVESTIMENTO PRIVADO EM XEQUE

O estudo reconheceu que há uma preocupação crescente quanto à disponibilidade de recursos privados após a pandemia para fazer frente aos investimentos que serão necessários em infraestrutura, num mundo que possivelmente contará com investidores mais receosos.

Em meio à volatilidade provocada pela crise e aversão a ativos considerados de maior risco, estrangeiros retiraram 22,2 bilhões de dólares em investimentos em portfólio no Brasil em março, valor recorde da série, conforme dados do Banco Central.

"Contra este argumento, coloca-se a enorme injeção de liquidez que os bancos centrais de todo o mundo realizaram como medida de combate aos efeitos econômicos adversos do Covid-19. As medidas monetárias foram agressivas, e a redução dos juros básicos tornou a taxa real livre de risco negativa na maioria dos países de baixo risco", diz o documento.

A avaliação dos técnicos é que os investidores de longo prazo, como fundos de pensão, vão buscar oportunidades seguras para baterem as metas de rentabilidade mínima anual. E que caberá ao Brasil, portanto, estruturar projetos de baixo risco para atrair este capital.

Os técnicos da Economia argumentam ainda que, com exceção dos setores de aviação e de energia, especificamente na geração, não há expectativa de queda forte de demanda à frente, até porque muitos setores já contavam com demanda reprimida.

"Os grandes gaps existentes não devem ser afetados. Em alguns, deve ocorrer até um aumento das necessidades de investimento no futuro, como em telecomunicações, saneamento e transporte urbano, tanto por maior demanda como por necessidades sanitárias", destaca o texto.

Em contraposição, os outros países do mundo que concorrem por investimentos no cenário internacional têm projetos mais voltados para o fluxo da demanda.

"Estes países, mais maduros, possuem uma menor percepção de risco pelo investidor; no entanto, não apresentarão oportunidades no curto e no médio prazos, sendo uma chance para o Brasil apresentar bons projetos e atrair o capital internacional disponível", pontua o estudo.

Da Revista Época







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terça-feira, 5 de maio de 2020

GRANDE CONFINAMENTO - NO OLHO DO FURACÃO



Economista-chefe do fundo fala a ÉPOCA sobre como pretende ajudar a salvar o mundo da maior crise econômica desde a Grande Depressão

O estudo do funcionamento da economia e a área do conhecimento dedicada a entender os tremores da Terra têm, pelo menos, um ponto em comum. Assim como os sismólogos aprendem mais com um terremoto de alta magnitude do que com vários pequenos, os economistas também extraem mais informações de grandes crises. Não existe a menor dúvida que o período pós-Covid-19 será marcado por uma avalanche de publicações sobre o Great Lockdown (Grande Confinamento), expressão já criada para a freada da economia mundial que estamos testemunhando.

Se ainda desse aulas de economia na Universidade Harvard, é provável que a indiana Gita Gopinath, de 48 anos, estivesse empenhada em uma dessas pesquisas de médio e longo prazo. Como chefe do departamento de economia do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gopinath não tem todo esse tempo. À frente da área econômica da instituição tida como a “emprestadora de última instância”, ela corre para evitar o que muitos acreditam que será a pior crise financeira em quase 100 anos.

Em entrevista exclusiva a ÉPOCA, Gopinath afirmou que o Grande Confinamento é uma crise inédita. O mundo nunca viu uma parada tão grande. “Isso quer dizer que dados históricos não são uma boa bússola para ver o que vem pela frente”, disse ela. “É um desafio descomunal prever como as economias serão impactadas e quais deverão ser as políticas mais apropriadas para responder às necessidades”, completou. Gopinath disse que a saída tem sido tentar “pensar fora da caixa”, o que inclui trabalhar de forma integrada com epidemiologistas e especialistas em saúde pública.

Pelo menos até agora, ela não pode ser acusada de estar dourando a pílula. Em meados de abril, o FMI, num relatório, previu que a recessão mundial provocada pela Covid-19 será a pior desde a Grande Depressão. “A atividade econômica global, atingida pela pandemia do novo coronavírus, poderá não se recuperar totalmente até o final de 2021”, diz o texto.

A corrida de governos ao FMI desde o estouro da crise de saúde pública dá uma ideia do que está por vir. De seus 189 países-membros, 104 já pediram algum tipo de ajuda. A instituição já mobilizou US$ 1 trilhão em empréstimos, o que equivale a 18 vezes o socorro que deu à Argentina em 2018, sua maior operação de resgate. A estimativa é que precise de muito mais — no mínimo, de US$ 2,5 trilhões. Há pouco mais de um mês, muitos economistas acreditavam que a parada provocada pelo novo coronavírus seria curta e, uma vez passado o perigo, a economia seria religada sem grandes estragos. À medida que foi ficando claro que as quarentenas seriam mais longas para evitar o colapso do sistema de saúde, as previsões de uma volta imediata foram trocadas por cenários em que empresas abrem parcialmente para, mais à frente, terem de voltar a fechar as portas. O resultado é uma conta maior para os governos que lançam pacotes de socorro a seus cidadãos e empresas, o que tem como efeito colateral mais endividamento e dificuldade de honrar os pagamentos a credores.

Na entrevista por escrito a ÉPOCA, Gopinath disse discordar “veementemente” de quem tem criticado a atuação do FMI — a principal acusação é que a instituição tem feito muitas previsões, mas indicado poucos remédios para a economia. “Nossas publicações têm apresentado conselhos e soluções pormenorizados. Elaboramos passos sobre como lidar com a crise na área da saúde, como ajudar os trabalhadores, lares, firmas e qual deve ser o papel das políticas monetária e fiscal”, disse ela, que também destacou a “rápida” ajuda financeira que está sendo dada e as iniciativas de perdão de dívidas para os países mais pobres.

Para Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), até agora o FMI não demonstrou estar à altura dos desafios. “A atuação do Fundo tem sido muito tímida e desapontadora”, disse. “Esta crise tem um paradoxo: é uma crise global, mas ela não vem sendo tratada de forma multilateral”, complementou. Langoni lembrou que os Estados Unidos estão, há algum tempo, impedindo um aumento de capital da instituição, o que reduz seu fôlego financeiro. Mas há também economistas de renome que reconhecem o esforço de Gopinath e o papel do FMI. “O FMI é o maior repositório sobre crises econômicas, tem informações técnicas relevantes sobre diversas situações, inclusive causadas por crises de saúde pública severas, como o ebola”, afirmou Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, professora da Universidade Johns Hopkins e colunista de ÉPOCA. “Neste sentido, vejo Gita Gopinath com uma comunicação diferente de seus recentes antecessores, com uma fala direta, mais incisiva, menos técnica, fundamental em um momento como este.”

Para sua equipe, Gopinath tem demonstrado que não está apenas preocupada com números. Em uma videoconferência para funcionários do FMI no final de abril, ela lembrou que “os tempos são desafiadores para todos”. Ao tratar do trabalho remoto, afirmou que isso poderia ser pesado para os que têm filhos em casa, em uma mensagem inspiradora. Quem está há muitos anos na instituição ficou surpreso com a intervenção. Economistas-chefes do fundo, sempre focados em contas na casa dos trilhões, recessões e desafios globais, não tinham o costume de falar sobre temas domésticos.

Criada em Calcutá, na Índia, Gopinath é de uma família de classe média ligada ao setor agrícola. Seu pai utilizava verduras e frutas para ensinar a ela conceitos matemáticos. Depois de quase seguir uma carreira no atletismo, optou por estudar economia, formando-se na Universidade de Délhi, em 1992, onde também fez mestrado. Já nos Estados Unidos, fez um novo mestrado, na Universidade de Washington, em 1996, e, cinco anos depois, concluiu o doutorado em Princeton. Mais tarde, se mudaria para a região de Boston para dar aulas em Harvard, com interesse nas áreas de câmbio, comércio, investimentos, crises financeiras, políticas monetárias e mercados emergentes.

Desde que chegou ao FMI, no ano passado, como a primeira mulher a ocupar o posto de economista-chefe, Gopinath vinha trabalhando em Washington de segunda-feira a sexta-feira e voando para Boston nos finais de semana para ficar com o marido, Iqbal Singh Dhaliwal, diretor do Laboratório de Ação contra a Pobreza Abdul Latif Jameel, no Departamento de Economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o filho adolescente e o cachorro Oreo. Com o novo coronavírus, tudo mudou. “Acho que o lado positivo desta crise é que estou trabalhando de casa”, disse Gopinath a ÉPOCA.

Por Henrique Gomes Batista, na Revista Época





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segunda-feira, 4 de maio de 2020

MENOS É MAIS - DE ONDE VÊM AS OUTRAS MORTES


O número de óbitos por razões naturais dispara em março e abril e aumentam as suspeitas de que a falta de testes esteja levando vítimas a terem a causa do falecimento erroneamente desvinculada da Covid-19

Origem dos primeiros casos do novo coronavírus no mundo, a China foi amplamente criticada por subnotificar suas mortes e não dar a real dimensão da pandemia para que os outros países pudessem tomar providências adequadas antecipadamente. Já o Brasil não pode reclamar de ter sido pego de surpresa. Quando o vírus começou a se espalhar pelo país, já se conhecia seu potencial de disseminação e mortalidade, observado na Europa. Essa vantagem deu tempo para que governadores implementassem antecipadamente políticas de isolamento social, mas não foi suficiente para que se colocasse em marcha um programa mínimo de testagem. Sem testes, o governo não tem um retrato fiel do problema e pesquisadores são obrigados a buscar outras formas de calcular o impacto.

Um levantamento feito por ÉPOCA com base em registros de óbitos de cartórios de São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Recife, capitais com o maior número de casos no país, mostra uma subida acelerada e atípica no número de mortes naturais — ou seja, mortes não resultantes de violência. Nesses locais, os cartórios registram 3.392 óbitos a mais, entre março e o início de abril, do que em 2019. Desse incremento, 1.618 são casos suspeitos ou confirmados de Covid-19. O restante, são doenças diversas. Ocorre que, ao se comparar fevereiro de 2020 com o mesmo mês do ano anterior, a oscilação é zero. Ou seja, a disparada nas mortes naturais (com ou sem Covid-19) ocorreu justamente nos meses de expansão da pandemia. Quem fornece esse diagnóstico não são as secretarias nem o Ministério da Saúde, e sim a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), que contabiliza os dados dos milhares de cartórios espalhados pelo país.

A maior disparidade de mortes em relação a 2019 ocorre em Manaus, onde houve 730 mortos a mais entre março e abril, em relação ao mesmo período de 2019, e apenas 82 casos positivos para Covid-19. No Rio de Janeiro, foram 639 mortes naturais a mais que em 2019, sendo 437 suspeitas ou confirmadas pelo novo coronavírus.

Naturalmente, nem todos os óbitos têm relação com a pandemia, mas o dado pode dar pistas sobre o tamanho da subnotificação. Além disso, o total de mortos pode ser ainda maior que o informado pelos cartórios. Isso porque o prazo legal para que uma pessoa que perdeu um ente querido faça o registro, e ele seja processado, é de até 15 dias em alguns casos.

A subida dos números de mortalidade para além do novo coronavírus tem sido observada em países e cidades que estão no epicentro da pandemia. Em Nova York, foram 4.200 mortes a mais em março, em relação à média dos últimos anos, além das registradas por Covid-19, de acordo com reportagem do New York Times. Na Espanha, foram 9.100 mortos a mais, sem contar as vítimas da pandemia. Na França e no Equador, ultrapassou 7 mil.

A alta de mortes naturais nas quatro capitais citadas no levantamento também ocorre em um período de crescimento de óbitos por síndrome respiratória aguda grave (SRAG), ainda de acordo com dados divulgados pelos cartórios. As notificações passaram de 21, entre março e 15 de abril de 2019, para 353 neste ano nas quatro cidades. O diretor científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) do Distrito Federal (DF), José David Urbaéz defendeu que as notificações de SRAG são um importante indicador para dimensionar o descompasso entre as confirmações da Covid-19 e o cenário real de casos, inclusive para os óbitos. “O vírus vai sempre caminhar mais rápido do que a capacidade de diagnóstico, mesmo nos melhores cenários. Talvez o melhor exemplo seja o da Bélgica, que passou a notificar como Covid-19 os casos de SRAG. Assim você tem uma ideia mais próxima do que está acontecendo. É um problema continuar o que estamos fazendo agora, notificar como caso real apenas os testados, os que estão internados nos hospitais. Não se notifica paciente que tem quadro leve. Isso vale também para os óbitos.”

A Covid-19, causada pelo sars-CoV-2, é caracterizada, na maioria das vezes, por doença respiratória grave, embora a literatura já comece a registrar casos, por exemplo, de mortes por acidente vascular cerebral e síndrome de Guillain-Barré. “Você vai aprendendo e desvendando a epidemia enquanto ela ocorre. Foi assim com o HIV. É sempre difícil fazer a leitura de dados epidemiológicos”, concluiu Urbaéz.

Procurado por ÉPOCA, o Ministério da Saúde afirmou que a subnotificação de casos é esperada “pelas características da doença e pela falta mundial de disponibilidade de testes”. O ministério disse ainda que não é esperada a subnotificação dos pacientes internados por SRAG, embora os boletins públicos da pasta contabilizem apenas casos de mortes por Covid-19 confirmados por testes.

O grupo “Covid-19 Brasil”, que reúne especialistas de várias universidades brasileiras, apontava no último dia 28 que as infecções pelo vírus já superavam a marca de 1,2 milhão, enquanto os dados oficiais apontavam 73.500 casos. Tal projeção é feita justamente a partir dos óbitos divulgados pelas secretarias de saúde. “Isso significa que estamos fazendo uma projeção de um cenário mais leve, a partir dos casos confirmados no boletim oficial. Se estamos prevendo que há 1,2 milhão de casos de Covid-19 a partir desses óbitos oficiais, significa que temos muito mais casos? Significa que ultrapassamos os Estados Unidos? Para que epidemia estamos olhando? Uma epidemia atrasada em média de uma ou duas semanas?”, questionou Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), e membro do grupo.

Não ter uma noção real dos mortos preocupa porque a informação é fundamental para que governos atuem para conter a crise, explicou João Abreu, cofundador da Impulso, que, junto com o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e o Instituto Arapyaú, criou a plataforma Coronacidades, que dá apoio técnico para estados e municípios no combate à pandemia a partir de simulações da demanda por leitos e do diagnóstico do nível de preparo local. “A gente tem recursos limitados. Muitas cidades não sabem como fazer para testar, não há protocolos. A gente deveria usar esse tipo de informação, por exemplo, para direcionar a aplicação de testes, que são limitados. Se você tem uma equipe de saúde, você deveria mandar para regiões com mais casos. Essa distribuição pode estar indo para o lugar errado”, enfatizou o economista.

Para Abreu, o número de casos de infecção por Covid-19 fornecido pelas secretarias é “inútil” diante da falta de testes. Um estudo feito pelo Coronacidades apontou que, nos municípios brasileiros com mortes registradas até esta semana, 14 têm uma taxa de mortalidade abaixo da média mundial, o que pode indicar que o cenário real de óbitos não está sendo contabilizado. Entre essas cidades estão capitais como Belo Horizonte, Florianópolis e Cuiabá. “Está todo mundo falando que está fazendo gestão da epidemia, mas ninguém está fazendo. Os dados não são adequados para fazer gestão. Como a gente está explicando isso para as famílias das vítimas? O ‘e daí?’ do presidente é generalizado. Ninguém está gerindo a epidemia efetivamente. As pessoas estão enxugando gelo”, avaliou Domingos Alves, da USP.

Outro efeito pernicioso da subnotificação é transmitir a falsa sensação de que a epidemia está se dissipando. “Passa para a população uma ideia de que o problema é menor do que é, e isso tem uma péssima consequência, que é a diminuição progressiva das taxas de isolamento”, concluiu o infectologista Urbaéz, da SBI do DF. Foi o que aconteceu no Brasil nas últimas semanas, com o recuo progressivo do confinamento. Não à toa, e nem por falta de alerta de especialistas, mais de 400 pessoas estão morrendo por dia no país em decorrência da doença. E esse número, já assustador, é aquele oficial, ou seja, o subnotificado.

Por Marlen Couto, na Revista Época







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