quinta-feira, 25 de novembro de 2021

'Ou ia pra aula ou comia': como insegurança alimentar está prejudicando universitários brasileiros


Ao sair com sua bicicleta para fazer entregas de comida a serviço de um aplicativo, a universitária Franciele Rodrigues, 29 anos, "reza" para receber algum pagamento em dinheiro — e, com isso, ter ela mesma alguma quantia em mãos para garantir sua alimentação para os próximos dias.

 

Ela concilia a graduação em fonoaudiologia na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) com bicos de entregadora na capital gaúcha porque, desde que deixou de viver com sua família na periferia de Porto Alegre e se tornou universitária, "o bicho pegou" na tentativa de atender sozinha suas demandas de estudo, moradia e sustento.

Tudo isso se reflete em uma situação que ela conta já durar anos: ela vem comendo pouco e mal, o que já gerou consequências para sua saúde.

"Entrar na faculdade representou deixar de trabalhar e deixar de ter cuidado com minha saúde. Quando saí da casa dos meus pais e entrei na universidade, foi a primeira vez que precisei racionar comida para ter por mais tempo e diminuir a qualidade da minha dieta para ter o que comer no dia seguinte", contou Franciele por telefone à BBC News Brasil, dizendo já ter passado alguns dias sem comer nada nessa trajetória, além de ter tido anemia.

"Durante a pandemia, piorou essa questão da alimentação. O preço das coisas aumentou muito."

Para complementar a renda, a universitária Franciele faz entregas de bicicleta

Situações como a narrada por Franciele, de insegurança alimentar entre universitários, têm ganhado a atenção de pesquisadores no Brasil e no exterior.

Não há dados nacionais ou de diferentes anos que possam demonstrar um aumento recente na insegurança alimentar destes estudantes no Brasil, mas pesquisadores da área sugerem que a piora em indicadores econômicos, cortes orçamentários para as universidades e a pandemia podem ter agravado o problema. Este período trouxe como consequência, por exemplo, o fechamento de restaurantes universitários (RU).

Por isso, diversas instituições anunciaram estar coletando informações e realizando pesquisas com estudantes sobre a questão alimentar deles durante a pandemia, como na Universidade de São Paulo (USP) e nas universidade federais de Uberlândia (UFU), do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), do Acre (UFAC), Rio Grande do Norte (UFRN), Mato Grosso (UFMT) e Paraná (UFPR).

Algumas resultados já foram publicados. Um artigo científico de março mostrou que 84,5% de 84 estudantes morando no Conjunto Residencial da USP (CRUSP) entrevistados online tinham algum nível de insegurança alimentar — definida por ao menos uma resposta afirmativa a perguntas como "nos últimos 3 meses, a comida acabou antes que você tivesse dinheiro para comprar mais?", "ficou sem dinheiro para ter uma alimentação saudável e variada?" ou "sentiu fome, mas não comeu porque não podia comprar comida suficiente?".

Já na dissertação de mestrado da nutricionista Natália Caldas Martins na Universidade de Fortaleza (Unifor), verificou-se que 84,3% de 428 universitários da rede pública da Bahia e do Ceará apresentaram algum grau de insegurança alimentar na pandemia — 35,7% leve, 23,6% moderado e 25% grave.

Estes universitários fazem parte de uma grande parcela da população brasileira em insegurança alimentar: eram 116,8 milhões de pessoas nessa situação no país em 2020, segundo estimou o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19. De acordo com a pesquisa, a parcela da população afetada cresceu significativamente nos últimos dois anos.

Café em falta e remédio para dormir e não sentir fome

Quando conversou com a BBC News Brasil, Franciele Rodrigues, que mora com o namorado, hoje desempregado, contou que a única proteína que eles tinha em casa naquela semana era ovo — e, mesmo assim, esse estava sendo racionado.

"Ontem, a gente comeu ovo meio-dia e de noite, só um arrozinho com feijão para ter (ovo) no almoço hoje", disse.

Na sua universidade, a UFCSPA, não há um restaurante universitário — a existência deles não é obrigatória por lei. Mas Franciele conta com bolsa alimentação de R$ 300 mensais, além de R$ 400 de auxílio-moradia.

Sem conseguir um emprego por conta da rotina de aulas e estudos e com aluguel e outras despesas a pagar, esse valor é insuficiente para se manter, ela diz.

"No primeiro mês de faculdade, fiquei sem dinheiro porque a bolsa demorou a sair. Teve dias que eu não comi. Ou ia pra aula, ou comia."

'A gente não sabe se vai sair dinheiro no aplicativo', diz estudante de fonoaudiologia sobre os motivos para racionar comida na semana

Com a pandemia, o namorado, que trabalhava em um restaurante, perdeu o emprego. Sem as aulas presenciais, ela deixou de conseguir vender lanchinhos e sucos que vendia na faculdade, perdendo mais um bocado de renda. Em 2020, a universidade organizou a entrega de cestas básicas mensais para alunos com vulnerabilidades como ela, mas Franciele diz que neste ano deixou de receber a doação.

Hoje, até o café está faltando em casa, e as frutas são raridade. Por outro lado, ovos, salsichas e hambúrgueres congelados passaram a protagonizar as refeições.

"Pulamos o café da manhã. Costumamos almoçar e jantar", conta Franciele, dizendo já ter perdido uma disciplina quando as aulas eram presenciais, por não ter o que comer. "Hoje, vejo que a situação está horrível mesmo para quem não pega assistência estudantil."

Para a estudante de turismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Juliana Castro, 21 anos, uma solução para conter a fome devido a refeições puladas tem sido dormir — às vezes através de remédios para isso. Durante sua trajetória universitária iniciada no segundo semestre de 2018, ela recebeu bolsas por alguns meses, não conseguiu empregos para complementar a renda e hoje conta estar endividada. Como essa situação financeira afeta diretamente sua alimentação, ela conta ter perdido quase 20kg nos últimos dois meses.

"Posso te dizer que o semestre passado eu passei acho que porque Deus quis. Eu não consegui ler texto, escrever então era fora de série", conta Juliana, que nasceu na pequena cidade de Palma (MG) e mora hoje em um alojamento da UFJF. "Não consigo me concentrar para fazer as coisas, fico com indisposição, cansaço. Já desmaiei por ficar sem comer. Fico com a barriga e a cabeça doendo de fome."

"Nos dias que eu não como nada, literalmente nada, eu só durmo. Às vezes eu tomo remédio para dormir, porque dormindo eu não sinto fome."

Desde o início da faculdade, a estudante teve a ajuda de amigos, que dividem com ela compras ou emprestam o dinheiro ou o cartão; e recebeu por algum tempo algumas bolsas, sempre com valores abaixo de um salário mínimo.

Juliana conta que durante dois anos recebeu uma bolsa vinculada ao Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), mas a vigência do benefício acabou. Ela também recebeu por alguns meses uma bolsa bancada por emendas parlamentares destinadas à Diretoria de Imagem Institucional da UFJF, precisando em contrapartida trabalhar em projetos de extensão. Entretanto, os pagamentos desta são irregulares.

Em nota, a UFJF afirmou que "dada a origem dos recursos — emenda parlamentar — o pagamento da bolsa dependia do envio de recursos financeiros pelo Congresso, o que não ocorreu de forma linear e seguindo prazos pré-estabelecidos".

A universidade afirmou que as bolsas pagas a alunos de graduação tinham até junho o valor de R$ 400, mas esses valores precisaram ser reduzidos para R$ 300 "em virtude das restrições orçamentárias às quais as universidades brasileiras foram submetidas".

Já a UFCSPA, onde estuda Franciele Rodrigues, afirmou em nota enviada à reportagem que está construindo um restaurante universitário, com previsão para abertura em 2022: "(…) cabe informar que a UFCSPA se tornou universidade federal em 2008, e desde então esta demanda (por um restaurante) tem sido apresentada pela comunidade universitária, demanda que está sendo encaminhada pela atual gestão."

"Salientamos a importância do PNAES que, mesmo com elevados cortes orçamentários, em conjunto com demais políticas públicas, tem sido um instrumento que colabora na segurança alimentar e na permanência estudantil no ensino superior", acrescentou a UFCSPA.

O impacto dos cortes para as universidades

O Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) foi criado em 2010 e repassa verbas a instituições federais de ensino superior para que estas forneçam, conforme suas políticas internas, assistência aos universitários na moradia, alimentação, transporte, inclusão digital, entre outros.

Entretanto, a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bruna Brelaz, diz que estas ações estão prejudicadas no contexto de "corte de mais de R$ 1 bilhão" no orçamento das universidades federais, citando dado da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) sobre a diminuição de verbas entre 2020 e 2021.

A Andifes diz que os recursos para o PNAES já têm sido insuficientes nos últimos anos, e que idealmente deveriam chegar a R$ 1,5 bilhão. Entretanto, segundo levantamento da entidade, em 2021 houve a maior redução no orçamento para o programa nos últimos cinco anos: o valor executado diminuiu 15,78%, caindo de R$ 1 bilhão em 2020 para R$ 874 milhões em 2021.

Esses valores são nominais — ou seja, não consideram a variação da inflação. Portanto, a diminuição do orçamento é na realidade maior do que 15,78%.

Na outra ponta, isso se reflete na evasão dos estudantes, segundo a presidente da UNE.

"Uma vez que a crise econômica é muito maior agora, e mais estudantes e suas famílias perderam rendas, a verba destinada a esses programas e bolsas não acompanhou a necessidade. Ainda não temos dados sobre a evasão universitária no pós-pandemia, mas com certeza, eles devem se elevar", escreveu Brelaz à BBC News Brasil.

O Ministério da Educação não atendeu ao pedido de posicionamento da reportagem.

Estudante de Direito, Erisvan Bispo, 43 anos, sabe bem o que é o descompasso entre o valor das bolsas e as necessidades. Indígena, ele recebe a Bolsa Permanência no valor de R$ 900 e, no passado, recebia também auxílio moradia e alimentação.

A Bolsa Permanência foi criada em 2013 pelo governo federal. Trata-se de um auxílio financeiro destinado sobretudo a universitários indígenas e quilombolas em instituições federais.

Em 2019, Erisvan precisou optar por alguma das bolsas, pois uma regra da sua universidade, a Federal da Paraíba (UFPB), passou a vedar o acúmulo de auxílios estudantis com a Bolsa Permanência. Perto da sua casa em Mamanguape (PB) e no seu campus, não há restaurante universitário.

"Acompanhando o aumento do preço das coisas, você fica perplexo. Quando você pensa o quanto de dinheiro entra e o quanto tem que gastar, enlouquece", disse Erisvan à reportagem por telefone. "Direito é um curso que eu preciso me dedicar muito. Não é impossível estudar e trabalhar, mas para ficar com um coeficiente de rendimento alto, é difícil."

"Sem trabalho, eu dependo das políticas sociais."

O "preço das coisas", como disse o universitário, realmente tem subido consideravelmente na alimentação, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No acumulado dos últimos 12 meses, a inflação nos alimentos e bebidas, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), ficou em 11,7%, conforme registrado em outubro. Entre os 10 alimentos que mais tiveram aumento estão o pimentão (85,37%), açúcar refinado (47,8%), mandioca (40,7%), filé mignon (38%) e tomate (31,99).

Em nota, o professor Alfredo Rangel, pró-reitor de Assistência e Promoção ao Estudante da UFPB, afirmou que a universidade conta hoje com quatro restaurantes universitários e pretende abrir mais uma unidade em Mamanguape no ano que vem.

Ele acrescentou que, embora a UFPB tenha recebido um orçamento menor para assistência estudantil, a universidade conseguiu manter o valor e o número de bolsas normalmente ofertadas.

Também com orçamento apertado, no seu caso para bancar aluguel, moradia, internet, transporte e comida, Erisvan diz ter cortado da alimentação itens que chama de "supérfluos", como iogurte, queijo, biscoito recheado, goma para tapioca e frutas.

"A única carne que consigo comer é hambúrguer, calabresa e salsicha, porque é barato", afirma Erisvan, acrescentando ter perdido peso por conta da combinação falta de renda e estresse por todo este cenário.

Em um futuro próximo, ele diz depositar esperança em oportunidades de estágio remunerado e, a longo prazo, nos frutos que sua carreira pode trazer.

"Às vezes, por conta dos cortes (na educação superior), sinto revolta. Mas também sou muito grato por estar na universidade. Eu não acordo reclamando, lamentando… Eu sei que estou passando dificuldades para ter uma melhoria de vida. Acredito que algo de bom vai acontecer depois que eu me formar, depois da carteirinha da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)."

Vulnerabilidade da 'primeira geração'

Erisvan diz ter uma origem "paupérrima" e é o primeiro da família a ir para a universidade. Nascido em uma aldeia na serra do Ororubá, em Pernambuco, ele e a família migraram para São Paulo (SP) fugindo de conflitos por terra. Ele morou cerca de 30 anos na capital paulista e depois resolveu voltar a morar e estudar no Nordeste.

Assim como ele, Franciele Rodrigues e Juliana Castro também são da primeira geração de suas famílias a ir para a universidade.

Apesar de vir dos Estados Unidos, um dos maiores estudos já feitos sobre a insegurança alimentar nas universidades mostrou que estudantes de "primeira geração" — ou seja, cujos pais não tinham ensino superior —, aqueles com níveis socioeconômicos mais baixos, além de imigrantes e pessoas trans eram mais vulneráveis ao problema.

A pesquisa publicada em 2019, intitulada College and University Basic Needs Insecurity e realizada pelo Hope Center, entrevistou 86 mil estudantes em 123 universidades. Deste total, 45% foram considerados como sofrendo de insegurança alimentar nos 30 dias anteriores.

Franciele, assim como outros entrevistados, está na primeira geração da família a ir para a universidade

A nutricionista Tânia Aparecida de Araújo é uma das autores da pesquisa sobre a insegurança alimentar entre alunos vivendo no Conjunto Residencial da USP (Crusp) durante a pandemia. Ela diz que neste e em outros estudos realizados no Brasil, a baixa renda foi um dos fatores mais importantes para a insegurança alimentar dos universitários.

Dos alunos considerados em insegurança alimentar no Crusp, 92,6% tinham renda considerada insuficiente.

Para Araújo, é justamente a chegada de estudantes de baixa renda à universidade nas últimas décadas, movimento que ela atribui a políticas de inclusão dos governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) e Dilma Rousseff (2011-2016), que impulsionou a insegurança alimentar nas universidades como tema de pesquisa.

"A gente tem agora mais pessoas de baixa renda entrando na universidade, o que é muito positivo, porque são ciclos de pobreza que podem ser quebrados. Mas antes, os universitários, principalmente de universidades públicas, eram de uma classe média branca. Agora, a gente realmente tem que dar atenção às políticas públicas para garantir, entre outras coisas, a segurança alimentar e nutricional desses estudantes", diz a pesquisadora, doutora em saúde pública pela USP.

A nutricionista aponta que, além da origem socioeconômica, os universitários ficam mais vulneráveis à insegurança alimentar à medida que deixam de ter redes de apoio como a alimentação e moradia na casa da família. Tendo que se virar sozinhos, muitos apelam às comidas ultraprocessadas como hambúrgueres e macarrão instantâneo porque são rápidas, práticas e baratas.

Ela também ressalta a importância dos restaurantes universitários mas diz que não deve-se esperar que eles contemplem integralmente todas as refeições dos alunos. Desejar comer em outros lugares além deles é legítimo — e em alguns casos necessário, como no caso de Juliana Castro, que teve problemas de intolerância a vários alimentos frequentes no cardápio do RU da sua universidade, como leite e carne de porco.

"A gente acha que a pessoa vulnerável tem que aceitar qualquer coisa, mas todo mundo tem direito de fazer suas escolhas alimentares. Por mais que tenha o restaurante universitário, é muito difícil você manter uma graduação fazendo todas as refeições, almoço e janta em um restaurante", diz Tânia Aparecida de Araújo, apontando para a importância das bolsas de auxílio, além dos RUs.

Para ela, os estudos têm se voltado para as universidades públicas justamente porque estas têm maior propensão a realizar pesquisas científicas — mas aponta que investigar a situação dos estudantes de faculdades particulares é também urgente, já que a presença de alunos de baixa renda nestas é grande, além do forte comprometimento financeiro que as mensalidades e financiamentos representam para eles.

Bruna Brelaz, da UNE, também aponta para diferenças entre os tipos de instituição. Enquanto as universidades federais contam o PNAES e a Bolsa Permanência, mesmo que aplicados de forma insuficiente na sua avaliação, as estaduais têm políticas e ações variando de acordo com a unidade federativa.

"Na nossa opinião, é preciso leis, decretos também estaduais, para garantir a manutenção desses direitos, além da regulamentação e constante fiscalização para as devidas condições de disponibilização deles", diz a presidente da UNE.

"Já nas universidades privadas, temos como realidade a falta de regulamentação, que dessa forma, não garante refeições com preço acessível, por exemplo", acrescenta. "Se alguma universidade privada institui esses restaurantes para estudantes ou vale alimentação é por iniciativa própria, mas sem haver uma regulamentação ou levantamento oficial."

Mariana Alvim, BBC News Brasil 


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terça-feira, 23 de novembro de 2021

Alta nos preços faz doações de comida desabarem até 97% e acende sinal de alerta em ONGs



Nos primeiros meses da pandemia, uma rara boa notícia trazida junto com a Covid-19 foi a onda de solidariedade que varreu o país. A sociedade civil saiu na frente do poder público e tratou de socorrer a parcela mais necessitada da população, que, em tempos de isolamento social, foi submetida a privações ainda mais profundas do que as habituais. Quem tem fome, tem pressa, ensinou o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997). Na Ação da Cidadania, ONG fundada por ele, o sinal de alerta vem agora com a constatação de que as doações responsáveis pela alimentação de muitas famílias já não chegam nas mesmas velocidade e quantidade de meses atrás.

 

A bem-vinda baixa nos números de contaminação e mortes, provocada pelo avanço na vacinação, deve ser comemorada, mas, por outro lado, desmobilizou pessoas físicas e empresas voluntárias. A inflação nas gôndolas dos mercados e a alta do gás pioraram a situação. Como resultado dessa combinação, a Ação da Cidadania, que chegou a arrecadar mais de R$ 10 milhões por mês este ano, agora recebe em torno de R$ 300 mil, uma redução de mais de 90%.

Na outra ponta, a quantidade de gente pedindo ajuda não para de crescer. No Rio, entidades menores, em rede, tentam apoiar umas às outras, trocando alimentos e outros donativos para suprir necessidades emergenciais. Outro fenômeno chama atenção: pessoas que mudaram de lado, passaram de voluntários a candidatos a algum tipo de auxílio.

Crislaine Inglidis, de 32 anos, sempre participou ativamente do projeto Parque Vivo, que funciona há 18 anos na Gávea com aulas de reforço escolar e outras atividades para moradores do Parque da Cidade e da Rocinha, na Zona Sul. Com o desembarque do coronavírus no Rio, perdeu o emprego de recepcionista em uma clínica médica, que fechou. Ela e o filho, Juan, de 7 anos, que vivem no Parque da Cidade, chegaram a depender integralmente de cestas básicas repassadas na entidade, parceira da campanha Eu Ajudo Como Dá, criada na pandemia pela dentista Simone Levy.

—Sempre fui ativa como voluntária no projeto, ajudando muitas pessoas com o pouco que tinha. Mas chegou uma hora em que eu precisei de ajuda também — conta Crislaine, que ainda necessita de apoio, mas já começa a ver luz no fim do túnel, na forma de alguns trabalhos extras.

Histórias como a de Crislaine estão longe de serem incomuns. Diretor-executivo da Ação da Cidadania, Rodrigo Kiko Afonso conta que a instituição, atuante junto a uma rede de ONGs, movimentos e lideranças de todo o Brasil, agora convive também com pessoas físicas batendo à porta. A próxima edição da tradicional Campanha Natal sem Fome é sua esperança de ver as doações voltarem a crescer.

De janeiro a agosto deste ano, a Ação da Cidadania conseguiu arrecadar cerca de R$ 100 milhões entre doações financeiras e de alimentos —um recorde na história da fundação. Em setembro, no entanto, o montante mensal desabou.

—Há a crise afetando as empresas e também a questão cultural das pessoas que só ajudam na tragédia e não doam no drama. Quando as pessoas veem na capa do jornal Extra famílias pegando ossos para comer, vão correndo doar. Mas não há uma cultura de doação contínua. Fora que há gente que doava e agora está mais apertada. Os servidores públicos do Rio eram grandes doadores, mas isso já não se vê mais —observa Kiko.

Este ano, por outro lado, a fundação aumentou de 2.100 para 3 mil as instituições assistidas. Para o diretor, a crise econômica enfrentada no Rio desde 2016 também é um fator que agrava o quadro de miséria:

— A Covid serviu para acelerar o processo. Sem o vírus, inevitavelmente daqui a um ou dois anos estaríamos vivendo o cenário de agora.

mês sim, mês não

Moradora do Morro Santo Amaro, no Catete, Maria Lúcia Alves da Silva, 63 anos, ainda precisa, mas já não conta mais com as doações como antes. Ela tem a guarda de dois netos, Leon, de 11, e Lívia, de 15, e se desdobra em faxinas para dar conta do sustento dos jovens. Os três vivem num cômodo (que precisa urgente de obras contra infiltrações) com dinheiro de um salário mínimo de pensão do marido de dona Lúcia, falecido, mais R$ 500 mensais que a idosa recebe por seu trabalho pesado:

—Aqui sou e Deus —resume ela, que eventualmente é ajudada pelo Instituto Pastoral São Cosme e Damião, parceiro da Ação da Cidadania:

— Eles tentam ajudar, mas nem sempre dá. Tenho recebido a cesta um mês sim, outro não.

O movimento União Rio se destacou na pandemia com a entrega de leitos e materiais hospitalares, como EPIs. Depois, focou no auxílio a famílias em situação de vulnerabilidade.

—Logo no início a gente entendeu que a fome chegou antes do vírus nas comunidades. Tivemos um boom de doações até julho de 2020. Em janeiro deste ano, as pessoas não estavam mais doando cestas de alimentos. E isso casou com o fim do auxílio emergencial do governo— lembra Daniella Raimundo, cofundadora do União Rio.

Segundo Daniella, a fome nas casas dos mais pobres voltou com força em fevereiro, e o assunto na mídia fez elevar de novo as doações:

— De abril a julho deste ano distribuímos em torno de 30 mil cestas por mês. Mas aí as ofertas voltaram a diminuir de novo. Em outubro, tínhamos só 300 cestas em estoque.

Menos cestas básicas

Esse movimento de ioiô nas ações de solidariedade é um tormento à parte. Na comunidade do Batan, em Realengo, a Associação Beneficente Amigos pela Caridade, que nos momentos mais críticos de restrições na pandemia entregava 2 mil cestas básicas por mês, atualmente não tem como atender nem as 160 famílias cadastradas no seu projeto de reforço escolar. Há seis meses, começaram os cortes na lista de beneficiados e, como resultado, dias com fila na porta, de pessoas em desespero.

— Aqui no Batan temos pessoas passando fome mesmo. E a alta dos alimentos só agrava essa situação—relata Agnes Ribeiro, fundadora da associação.

Catadora de garrafas PET e de latinhas na comunidade, Maria Aparecida Conceição, de 43 anos, tem duas filhas. Beatriz, de 12 anos, é inscrita no projeto de Agnes e, por isso, recebe a cesta básica.

— Muita coisa mudou. A gente ganhava muitas doações, e isso já não acontece mais. Agora tem mais catadores no bairro, porque muitos moradores ficaram sem emprego. A cesta básica é a base da nossa alimentação—revela Maria.

em busca de doadores

Também atuante nos últimos tempos, a campanha Eu Ajudo Como Dá calcula em 60% a queda nas doações de alimentos e dinheiro em comparação com os meses de acirramento da pandemia: o movimento da sociedade civil, desde abril do ano passado, quando teve início, ajudou mais de 20 mil pessoas e distribuiu cerca de 3 mil cestas básicas. Hoje, por mês, a meta é entregar o kit de alimentos a algo entre 100 e 200 famílias de projetos ligados ao Instituto da Criança. A dentista Simone Levy, criadora e líder da campanha, adianta que, no Natal, receberão ajuda 200 famílias. Para driblar a crise nas doações, ela vem investindo em campanhas até em condomínios. Na ação “Meu condomínio ajuda como dá”, são instalados um banner e uma caixa para receber os alimentos durante 30 dias. A mesma iniciativa já foi levada a escolas.

—Temos o tempo todo que fazer campanhas paralelas para que as pessoas vejam o nosso projeto. Mesmo quem doa desde o início já está ajudando de forma mais modesta, com valor menor ou menos alimentos —afirma Simone, que precisou criar uma modalidade de cesta básica mais enxuta. —Com o aumento do valor dos alimentos, uma cesta básica por R$ 70 reais passou a ser inviável. Então, agora para o Natal, lançamos duas: uma no valor de R$ 50 e outra no de R$ 100. A menor não tem proteína, muitas vezes não tem óleo e manteiga nem café. E o arroz, em vez de ser no pacote de 5 kg, é de 2 kg.

No Parque Vivo, famílias hoje dividem os alimentos de uma única cesta básica.

— E o pior é que a situação das pessoas que perderam emprego na pandemia está mais grave agora, ainda mais com a inflação forte — diz Andreia Martins, uma das fundadoras do projeto.

Simone Levy, que também atua com sua campanha junto à população em situação de rua, vê no dia a dia das ações de distribuição de alimentos nas calçadas o sofrimento sentido na pele por um número crescente de pessoas:

—Há famílias inteiras nas ruas. E, além das que a gente sempre encontra nas nossas ações, vêm surgindo sempre pessoas novas — diz ela, fazendo um apelo. — Tem várias maneiras de ajudar. Uma delas, por exemplo, é divulgando projetos como o nosso.

Ludmilla de Lima, O Globo


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