quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Indígenas cobram no TCU consulta prévia em projeto de concessão da Ferrogrão


Ferrovia deve ligar estado do Pará ao Mato Grosso e já foi alvo de representação do MPF. Órgão apontou irregularidades do processo, que ainda não foi analisada.

 

A delegação de indígenas Kayapó e Munduruku entregaram, nesta terça-feira (23), uma carta ao Tribunal de Contas (TCU), no Distrito Federal, em que pedem para serem consultados pelo governo federal sobre a concessão à iniciativa privada da construção da ferrovia Ferrogrão. O trecho cortará os estados do Pará ao Mato Grosso.

O projeto já foi alvo de uma representação do Ministério Público Federal (MPF), assinada por 14 procuradores e cinco organizações indígenas e da sociedade civil e protocolada em outubro de 2020. O documento alegou irregularidades no processo e pediu que o processo de concessão seja suspenso até que seja realizada a consulta prévia.

Na carta entregue no gabinete do ministro Aroldo Cedraz - relator do processo da representação e da desestatização que envolvem a ferrovia - os povos indígenas pedem envolvimento das etnias nos projetos de infraestrutura desde a fase de planejamento.

"Os projetos de infraestrutura do governo têm que cumprir com o direito de consulta dos povos indígenas desde a fase de planejamento e, não, depois da licitação dos projetos, ou apenas no contexto do licenciamento ambiental para discutir medidas de mitigação e compensação", diz o documento.

"Os projetos de infraestrutura do governo têm que cumprir com o direito de consulta dos povos indígenas desde a fase de planejamento e, não, depois da licitação dos projetos, ou apenas no contexto do licenciamento ambiental para discutir medidas de mitigação e compensação", diz o documento.

A delegação também defende que eles sejam consultados sobre detalhes que envolvem a concessão, como, por exemplo, a viabilidade econômica, social e ambiental. Além disso, os indígenas argumentam que a construção da ferrovia afeta diretamente seus territórios.

"Nós temos o direito de sermos consultados sobre o projeto da Ferrogrão, sobre sua viabilidade econômica, social e ambiental, antes de sua licitação e de seu licenciamento ambiental. Os impactos dessa ferrovia e das demais obras a ela associadas envolvem impactos regionais que afetam nossos territórios, florestas, rios e, por tanto, nossa própria forma de viver. O governo ainda não cumpriu com sua obrigação de demarcação e homologação de nossos territórios", diz a carta.

"Nós temos o direito de sermos consultados sobre o projeto da Ferrogrão, sobre sua viabilidade econômica, social e ambiental, antes de sua licitação e de seu licenciamento ambiental. Os impactos dessa ferrovia e das demais obras a ela associadas envolvem impactos regionais que afetam nossos territórios, florestas, rios e, por tanto, nossa própria forma de viver. O governo ainda não cumpriu com sua obrigação de demarcação e homologação de nossos territórios", diz a carta.

O documento foi assinado por Alessandra Korap Munduruku, Beka Munduruku, Doto Takak-Ire, Relacões Públicas do Instituto Kabu e liderança Kayapó e Mydjere Kayapó, Vice-Presidente do Instituto Kabu.

 

Promessa

A carta diz ainda que o Executivo federal chegou a prometer em 2017 que ouviria os povos indígenas antes que o assunto fosse para o Tribunal de Contas da União. "O próprio governo já reconheceu sua obrigação de nos consultar e fez a promessa em 2017 de que só enviaria o processo da Ferrogrão para o TCU somente depois de nos consultar", diz a carta.

Alessandra Korap Munduruku conta que viajou 400 quilômetros até Santarém (PA) e depois até Brasília para entregar a carta ao TCU. Ela diz que, devido à pandemia, ela foi escolhida para representar alguns caciques.

"A gente teve várias conversas com alguns caciques e eu fui escolhida para representar eles, porque estamos com a pandemia a gente não pode vir aqui sabendo da situação da covid. A ferrovia vai trazer um impacto muito grande", disse.

"A gente teve várias conversas com alguns caciques e eu fui escolhida para representar eles, porque estamos com a pandemia a gente não pode vir aqui sabendo da situação da covid. A ferrovia vai trazer um impacto muito grande", disse.

"Não existe consulta nenhuma nas terras indígenas no momento da pandemia. Até porque estamos em pandemia, a gente está em isolamento nenhum governo pode fazer consulta nesse momento. Já perdemos parentes, já perdemos idosos, não é momento do governo decidir a nossa vida dentro do território", completou.

 

Representação

Na representação, o MPF alegou que o governo selecionou um único interlocutor para falar sobre os povos indígenas afetados pela obra e que a reunião isolada não configura consulta prévia. Na ocasião, o Ministério da Economia disse, em nota, que os contato com os indígenas foi realizado seguindo rigorosamente a legislação vigente e o protocolo do povo Munduruku.

O assunto seria analisado pelo TCU nesta terça-feira (23), no entanto, os indígenas enviarem uma petição solicitando a retirada do tema da pauta até que eles fossem ouvidos.

Segundo o documento apresentado pelo MPF, a ferrovia tem potencial impacto sobre 48 territórios de povos indígenas, entre eles: o conjunto de terras do povo Munduruku nas regiões do médio e Alto Tapajós; sobre as terras dos povos Panará e Kayapó, no sudoeste do Pará; e sobre seis terras indígenas no Mato Grosso, incluindo áreas de povos isolados e o Território Indígena do Xingu.

Por Beatriz Borges, no G1.com 


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domingo, 21 de fevereiro de 2021

O flerte de Merkel com o regime chinês

Merkel e o presidente chinês, Xi Jinping durante encontro em Berlim

Esforços da líder alemã para estreitar laços econômicos com Pequim geram críticas. Estaria Berlim na trilha do engajamento inteligente ou arriscando uma perigosa dependência de uma superpotência autoritária?

 

Em dezembro passado, Angela Merkel estava na defensiva. Enfrentava críticas no Parlamento alemão sobre sua iniciativa emblemática na China, um amplo tratado de investimento entre a União Europeia e Pequim. "Estamos vendo em Hong Kong que a China nem mesmo cumpre tratados sujeitos ao direito internacional", afirmava Margarete Bause, porta-voz para direitos humanos da bancada parlamentar do Partido Verde – um dos mais críticos em relação ao regime chin~es.

A resposta de Merkel deixava transparecer sua abordagem para a China, que vem sendo cada vez mais criticada. "Observamos com grande preocupação que, em Hong Kong, no momento, a questão de 'um país, dois sistemas' seja muito frágil, para dizer o mínimo", disse Merkel. "E, no que diz respeito a essa contradição entre os valores que compartilhamos e os interesses que temos, repetidamente temos que pesar as compensações conforme tomamos decisões políticas."

A repressão de Pequim às liberdades políticas em Hong Kong e aos muçulmanos uigures em Xinjiang destruíram todas as esperanças de que a China estivesse no caminho da abertura política. E a crescente assertividade da China fortalece a perspectiva de uma confrontação com os Estados Unidos que pode definir este século.

 

Negócios para a UE

Apesar dessas preocupações, Merkel avançou com o fortalecimento dos laços econômicos, culminando com o acordo de investimentos alcançado pela União Europeia e pela China no final de 2020.Para Merkel, a questão é garantir um negócio melhor para as empresas da UE que fazem negócios na China. Mas isso lhe trouxe uma enxurrada de críticas – não apenas por ignorar as preocupações com os direitos humanos, mas por ignorar um apelo do novo governo Biden para esperar e consultar, garantindo assim à China uma vitória diplomática na manobra da parceria transatlântica.

Noah Barkin, pesquisador do instituto German Marshall Fund especializado em relações entre Alemanha e China, crê que este foi um movimento consciente de Merkel. "Acho que há um desejo de se evitar uma segunda Guerra Fria. Ela está claramente determinada a desempenhar um papel moderador no confronto entre EUA e China, para evitar o isolamento da China e tentar vinculá-la à ordem global baseada em regras."

Embora as críticas estejam crescendo, a própria Merkel não dá sinais de mudança de curso em seus últimos meses no cargo. "Não considero muito sensato olhar para trás 15 anos e considerar os resultados de hoje", disse ela a repórteres no ano passado. "Acredito que seja certo e importante buscar boas relações estratégicas com a China. Mas você não pode ter ilusões. Você tem que comparar as coisas com a realidade."

 

Início ousado

Essa estratégia contrasta com os primeiros dias de Merkel como chefe de governo alemã. Seis meses após assumir o cargo, ela foi a Pequim em maio de 2006 com uma nova e ousada mensagem. Ao contrário de seu antecessor Gerhard Schröder, ela falava em público sobre os direitos humanos – e tentava ativamente produzir mudanças.

“Não só acompanharemos o desenvolvimento da sociedade civil na China, mas também usaremos formas de diálogo para tentar desenvolvê-la em uma direção que signifique mais abertura e mais liberdade”, disse ela.

Eram tempos otimistas. "Ainda havia muita esperança de que a China estivesse no caminho para um Estado menos autoritário", lembra Barkin.

 

Visita do dalai lama

No início de 2007, Merkel fez sua ação mais ousada de todas, convidando o dalai lama para uma reunião em Berlim. "Isso foi visto em Pequim como um verdadeiro tapa na cara", diz Barkin. "As relações diplomáticas com Berlim ficaram essencialmente congeladas por seis meses." Refletindo sobre a reunião mais tarde, Merkel disse que ela desencadeou um debate saudável. "O bom é que nós nunca permitiremos que valores e interesses entrem em competição inaceitável entre si, mas sempre tentamos encontrar o equilíbrio certo", ressaltou.

Mas Barkin avalia que aquela experiência teve um impacto. "Acho que foi uma espécie de alerta para Merkel. Ela mudou seu tom em público ao falar sobre direitos humanos." Segundo ele, o início da crise financeira global acabou alterando ainda mais o equilíbrio entre valores e interesses.

"A economia da China se tornou uma muleta vital", frisa Barkin, afirmando que as empresas alemãs a transformaram em algo mais parecido com uma catapulta. As exportações da Alemanha para a China aumentaram mais de 70% em dois anos, de 2009 a 2011. E, à medida que a crise financeira se transformava em crise do euro, a China se tornou um investidor valioso em títulos da zona do euro.

"Acho que isso influenciou a visão de Merkel sobre a China", acredita Barkin. "Ela ainda fala sobre a ajuda da China neste momento de crise existencial para a Europa."

 

Parceria estratégica

À medida que os laços econômicos cresciam, também crescia o engajamento político. As primeiras consultas intergovernamentais em grande escala entre a Alemanha e a China ocorreram em 2011, com o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, vindo a Berlim com uma comitiva de ministros.

Wen sugeriu um acordo com vantagens para ambos os lados. "A China espera de todo coração tomar uma direção, com a Alemanha, onde os grandes países se respeitem para que possamos criar uma situação win-win", disse ele.

Para Barkin, a mensagem era clara: "Quando a China fala em respeito nas relações bilaterais, o que realmente significa é que não quer que outros países interfiram, como diz, nos assuntos internos."

O equilíbrio de poder no relacionamento estava mudando rapidamente a favor da China quando, em 2012, um novo líder ascendeu em Pequim. Xi Jinping iria moldar uma nova era, fortalecendo o autoritarismo.

 

Dependência dupla

Se o confronto entre os EUA e a China continuar, a Alemanha pode entrar numa posição insustentável: dependente dos EUA para sua segurança, dependente da China para sua prosperidade.

"Acho que está ficando cada vez mais difícil ficar em cima do muro", diz Barkin. "Haverá uma série de escolhas muito difíceis para países como a Alemanha."

É uma escolha que pode recair sobre o sucessor de Merkel – os mais prováveis são Armin Laschet, presidente recém-eleito da CDU de Merkel, ou Markus Söder, atualmente governador da Baviera. Nenhum dos dois parece que buscará uma mudança significativa na política em relação à China. Mas eles podem ser forçados a mudar de curso, seja por seus prováveis futuros parceiros de coalizão, os verdes, ou por realidades geopolíticas.

O otimismo da primeira viagem de Merkel à China em 2006 já se foi. Mas, segundo Barkin, foi a aliança com Pequim entre 2009 e 2011 que colocou a Alemanha em seu curso atual. "Acho que Merkel se agarrou ao que muitas pessoas agora veem como uma abordagem antiquada em relação à China."

Na Deutsche Welle 


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