segunda-feira, 16 de julho de 2018

Startups crescem no Brasil e consolidam nova geração de empreendedores


Encontrar a solução para um problema é a grande missão de empreendedores. Seja no setor de saúde, educação, mobilidade urbana ou segurança, quando as novas ideias e as ferramentas de solução passam por tecnologia e inovação, em um modelo de negócio com baixo custo e alta potencialidade de crescimento, o desafio é conduzido pelas empresas chamadas startups.
Em todo o Brasil, estima-se que existam cerca de 62 mil empreendedores e 6 mil startups. O número é mais do que o dobro registrado há seis anos, quando o país ainda começava a discutir o modelo e a perceber o nascimento do novo mercado. Em 2012, haviam 2.519 startups cadastradas na Associação Brasileira de Startups (ABStartups). Em 2017, o número saltou para 5.147.
Segundo a associação, o número de empresas hoje pode ser ainda maior, por volta de 10 a 15 mil, mas muitas ainda estão na fase de ideias e nem todas tem o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). 
“A gente percebe que teve um amadurecimento muito grande do setor. Quando a gente pega 2012, ainda nem havia no Brasil de forma adequada a constituição de aceleradoras, empresas, conceitos de incubadoras. O tema subiu de nível. Esse número vai crescer muito mais em diversos segmentos”, acredita Rafael Moreira, secretário de Inovação e Novos Negócios do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.
Em 2018, o Brasil ganhou seus primeiros unicórnios, termo dado às startups que passam a valer mais de US$ 1 bilhão.  O feito foi alcançado inicialmente pelo aplicativo de transporte 99 e pela Nubank, startup que gerencia serviços financeiros, avaliada em mais de U$ 2 bilhões .
“Em geral, o ecossistema de startups vem passando por um amadurecimento muito interessante. Os números estão provando isso, a gente vem num crescente de quase 20% no número de startups ano a ano, crescendo bastante em meio a crise que a gente sabe que o país enfrentou. Acho que isso reflete o amadurecimento do empreendedor também, que entendeu como é o processo de funcionamento de startup”, avalia Rafael Ribeiro, diretor-executivo da ABStartups.

O que é uma startup

O empreendimento se caracteriza pela inovação do serviço produzido, geralmente de base tecnológica, desenvolvido a custos menores e processos mais ágeis. O termo também é sinônimo de pequenas empresas que estão no período inicial de desenvolvimento em condições de alto risco e incerteza.
As startups tanto podem oferecer serviços e produtos diretamente para o consumidor, quanto para outras startups. Quando alcançam maturidade, elas se sobressaem na oferta de serviços para grandes empresas que terceirizam as atividades relacionadas a inovação, pesquisa e desenvolvimento.
“É muito fácil hoje você contratar uma startup que tem um negócio pronto e consolidado para te atender do que necessariamente desenvolver dentro da sua própria empresa”, ressalta Rafael Ribeiro.
Segundo ele, há cada cada vez mais interesse do setor corporativo pelas startups. “Cada vez mais há a compreensão de que, quanto mais uma grande empresa está perto dos ecossistemas de inovação, mais ela percebe quais são as inovações que estão surgindo e podem afetar seu modelo de negócio, quais startups ela pode trazer para a sua cadeia de valor e quais ela pode investir e se tornar”, apontou Vinícius Lages, diretor de Administração e Finanças do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae).
Geralmente, as startups atuam em rede e funcionam melhor em ambientes que oferecem condições de desenvolvimento de uma cultura de inovação e empreendedorismo.
“Startups são portadoras de inovação tecnológica, que geram empregos qualificados, que tem um efeito multiplicador na economia e geram um incremento de eficiência. Então, se eu tenho uma empresa que tem uma solução inovadora, a própria adoção dessa solução faz a sociedade funcionar melhor”, efende Felipe Matos, um dos empreendedores pioneiros de startup no Brasil e integrante do movimento Dínamo pela articulação de políticas públicas para o setor.

Perfil dos novos empreendedores

Das empresas cadastradas na base de dados da ABStartups, 72% são lideradas por jovens entre 25 e 40 anos de idade, 87,13% são comandadas por homens e 12,3% por mulheres.
“O empreendedor hoje que está tendo um pouco mais de sucesso está entre 35 e 40 anos, é um empreendedor mais maduro, que muitas das vezes tentou um ou dois negócios e teve resiliência para continuar. Porque dificilmente no primeiro negócio vai dar 100% certo, mas o empreendedor brasileiro é bem diferentes dos outros, ele é bem resiliente”, diz Rafael Ribeiro.
Os setores que mais se destacam no setor de startups são educação (edutechs), agronegócio (agtechs), finanças (fintechs), internet, propaganda, comunicação, comércio eletrônico e saúde e bem-estar. Também há um número expressivo de startups nos setores de logística e mobilidade urbana, entretenimento, eventos e turismo.

Amadurecimento do setor

O maior número de startups brasileiras está concentrado nos estados de São Paulo (41%), Minas Gerais (12%) e Rio de Janeiro (9,7%).  Entre as capitais, considerando o número de empresas por habitantes, Florianópolis desponta na liderança . O desempenho atraiu para a cidade o primeiro grande evento nacional do setor, o Startup Summit, realizado nos últimos dias 12 e 13 de julho. Mais de 2300 inscritos participaram do encontro.
 “A gente não tinha eventos dessa magnitude voltado só para startup e empreendedorismo, principalmente fora do grande centro, no caso São Paulo”, afirma Felipe Matos.
Para o presidente do Sebrae, o evento representa um momento de maturidade do empreendedorismo. “O Brasil acabou de ganhar algumas posições no ranking mundial de inovação. A política de inovação foi também modificada para permitir que, por exemplo, organizações como a nossa participem com encomendas tecnológicas, tenham uma atuação maior. Estamos longe ainda do que outros países construíram, tem uma outra metade que precisa ser desenvolvida, mas posso dizer que o copo está meio cheio”, analisa Vinícius Lages, presidente em exercício do Sebrae Nacional.
EBC



Para saber mais sobre o livro, clique aqui.


domingo, 15 de julho de 2018

Boas ações podem ter efeito 'contagioso', indicam estudos

Pessoas tendem a ser influenciadas por atos de generosidade ou egoísmo dos outrosDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionPesquisadores tentam decifrar como atos de generosidade se disseminam pela sociedade
Em 2014, vídeos em que celebridades e anônimos viravam baldes de água com gelo sobre as próprias cabeças inundaram as redes sociais. A campanha, que buscava incentivar doações para pesquisas sobre esclerose lateral amiotrófica, se espalhou por vários países como uma onda de boa ação e contribuiu para descobertas científicas importantes.
O sucesso do "desafio do balde de gelo" é um exemplo de como a generosidade pode ser contagiosa. Mas por que milhares de pessoas se submeteram a um banho gelado e ainda doaram seu dinheiro para pesquisas sobre uma doença rara, causa que dificilmente as beneficiaria de forma direta?
Esse é o tipo de pergunta que cientistas como Jamil Zaki, professor da Universidade Stanford (EUA), tentam responder por meio de pesquisas. Uma das maneiras de entender como as boas ações se disseminam pela sociedade, segundo Zaki, é pela ótica da conformidade, que é a tendência de alinhar atitudes e crenças às das pessoas ao redor.
"Fundamentalmente, somos uma espécie social. As pessoas são muito motivadas a serem parte de um grupo e compartilhar um senso de identidade", diz o pesquisador. "Uma forma de fazer isso é imitando comportamentos, opiniões e emoções."

Influência do entorno é chave

No passado, o conceito de conformidade ganhou uma fama ruim quando estudos começaram a constatar que a pressão social era capaz de induzir indivíduos a adotar comportamentos nocivos ou duvidar de seu próprio julgamento. Em um experimento clássico, o psicólogo polonês Solomon Asch mostrava a um voluntário dois cartões: um deles continha uma linha reta e o outro, três linhas retas de tamanhos diferentes.
O participante tinha de identificar qual delas tinha o mesmo comprimento da linha de referência. Quando outros participantes escolhiam a resposta claramente errada, o sujeito tinha mais chance de seguir a maioria, indo contra o que seus próprios olhos estavam vendo.
Zaki, por outro lado, estuda como a conformidade pode levar a comportamentos positivos. Em uma série de experimentos coordenados por ele, os participantes que observaram seus colegas fazerem doações generosas para instituições de caridade decidiram abrir mais a carteira do que os que observaram doações mesquinhas.
Os resultados, publicados pela revista Personality and Social Psychology em 2016, também mostraram que o impacto de se observar a generosidade alheia não se limitou a copiar suas boas ações. A influência positiva também fez os participantes se mostrarem mais solidários em relação aos outros participantes e com mais empatia diante de situações adversas.
Cientistas também conseguiram mapear o modo como atos de cooperação podem se multiplicar pela sociedade. Um estudo feito por pesquisadores de Harvard e da Universidade da Califórnia em San Diego mostrou que indivíduos beneficiados por doações durante um jogo repassaram a generosidade a outros participantes, que por sua vez beneficiaram um terceiro grupo.
A pesquisa, publicada em um artigo da revista Proceedings of the National Academy of Sciences em 2010, mostra que a gentileza inicial foi capaz de atingir pessoas com até três graus de separação em relação ao primeiro benfeitor.

Estratégia vitoriosa em termos sociais

Mas a decisão de cooperar com outros membros da sociedade não é apenas um ato de pura e desinteressada generosidade. É, sim, uma estratégia vitoriosa em termos evolutivos, de acordo com Martin Nowak, professor de Harvard e diretor do Programa de Dinâmicas da Evolução da universidade. Segundo o especialista, a cooperação - seja entre humanos, insetos ou células - quase sempre se dá quando existe uma expectativa de se obter algo em troca no futuro.
Mãos unidasDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionPesquisadores avançam na tentativa de decifrar como boas ações se disseminam
Nowak propõe cinco mecanismos que explicam, à luz da evolução, por que um indivíduo resolve colaborar com o outro. O primeiro é a reciprocidade direta: eu ajudo e você me ajuda.
O segundo é a reciprocidade indireta: eu ajudo você, por isso ganho uma boa reputação e outra pessoa me ajuda graças a essa reputação. O terceiro é a reciprocidade espacial: eu ajudo meus vizinhos e assim aumento minhas chances de ser ajudado.
O quarto é a seleção de grupos, que se baseia no fato de que grupos de "cooperadores" se dão melhor do que grupos de "egoístas". O quinto é a seleção por parentesco: eu ajudo meus familiares porque tenho mais chances de compartilhar genes com eles e quero disseminar esses genes pela população.
"A cooperação - além da competição - está envolvida sempre que a evolução constrói algo novo, algo diferente", diz Nowak. "Por isso, eu tenho chamado a cooperação de 'arquiteta mestre' do processo evolutivo."

Comunicação é essencial

Além de experimentos em que os participantes têm de decidir se ajudarão ou não seus companheiros em diferentes circunstâncias, outro método para estudar como as pessoas cooperam umas com as outras é de forma teórica, por meio de modelos matemáticos.
Segundo Francisco C. Santos, professor do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, esses estudos teóricos são baseados em um ramo da matemática chamado teoria dos jogos.
"A teoria dos jogos é usar a matemática para estudar conflitos de interesse", diz Santos. Por exemplo, se um indivíduo está disposto a pagar um custo para proporcionar um benefício a alguém, é possível usar esses dados para construir equações capazes de prever as dinâmicas que podem ocorrer em diferentes cenários.
"Se conseguirmos compreender quais são os mecanismos subjacentes da cooperação, esse conhecimento é útil para promovermos a cooperação onde ela não existe."
Apesar das vantagens evolutivas de adotar uma atitude cooperativa, é fácil pensar em situações da vida real em que ninguém está disposto a ajudar as pessoas ao redor. Ou, pior, circunstâncias em que atitudes egoístas se espalham pela sociedade como um vírus. De fato, algumas pesquisas mostram que atos de indiferença podem ser tão contagiosos como quanto atos de altruísmo.
De acordo com Martin Nowak, a gentileza só se espalha pela sociedade quando os mecanismos que permitem essa disseminação são fortes o suficiente. Por exemplo, se o indivíduo que ajuda o próximo ganhar uma reputação boa o bastante para que outros decidam ajudá-lo, então, a gentileza se espalhará naquele grupo. "Se esse mecanismo não for forte o suficiente, a cooperação vai perder e a indiferença vai ganhar", diz o pesquisador.
Jamil ZakiDireito de imagemDIVULGAÇÃO
Image captionJamil Zaki, diretor do Laboratório de Neurociência Social de Stanford, investiga como atos de generosidade podem se disseminar pela sociedade
Um dos ingredientes essenciais para garantir que a onda de boas ações se espalhe, segundo Nowak, é a comunicação. "A ideia é que a reputação do indivíduo que colaborou seja conhecida. É importante disseminar informações sobre as decisões que os indivíduos tomaram em termos de cooperação."
Experimentos já mostraram, por exemplo, que mais pessoas decidiram comparecer às urnas em uma eleição quando viram no Facebook que seus amigos fizeram o mesmo. Da mesma forma, no fenômeno do desafio do balde de gelo, o fato de os vídeos terem se tornado virais teve um grande papel na multiplicação das doações.

Intervenções

Francisco C. Santos e seus colegas têm utilizado os modelos matemáticos para encontrar soluções para situações em que a falta de cooperação é notável, como a busca de um acordo para prevenir mudanças climáticas.
Ele observa que, sim, os seres humanos são propensos à cooperação. Mas isso ocorre principalmente em pequenas comunidades. Quando o assunto são mudanças climáticas, é preciso cooperar com o mundo inteiro. "Esse é um problema global, não local, o que faz com que seja tão difícil promover a cooperação nesses contextos."
Essa é justamente a premissa de um livro que Jamil Zaki deve lançar em breve nos Estados Unidos (The War for Kindness: Building Empathy in a Fractured World, ou A guerra por gentileza: construindo empatia num mundo estilhaçado, em tradução livre e sem previsão de lançamento no Brasil).
De acordo com Zaki, os humanos evoluíram para ser socialmente conectados e inclinados a ter empatia. Mas essa evolução ocorreu quando vivíamos em pequenas comunidades, ao redor de pessoas parecidas conosco e onde todos dependiam uns dos outros.
"Hoje, vivemos em um mundo gigante, somos conectados a milhares de pessoas, algumas das quais veremos só uma vez na vida, e possivelmente ao redor de grupos que nos ameaçam", diz Zaki.
Segundo o pesquisador, as regras sob as quais nós evoluímos para sermos empáticos foram quebradas. "Vivemos em um momento em que é muito mais difícil ter empatia, por isso vemos um crescente de ódio, desconexão e isolamento."
O cenário parece desolador. Mas Zaki garante que é possível reverter a situação se adotarmos estratégias para treinar o nosso "músculo empático". Ele cita estudos que concluíram que uma variedade de intervenções - como a leitura de obras literárias ou o uso de técnicas de dramatização - são capazes de aumentar o grau de empatia dos participantes. Para ele, a esperança de vivermos em um mundo mais cooperativo está em exercitarmos ativamente nossa empatia.
Por Mariana Lenharo, na BBC News Brasil



Para saber mais sobre o livro, clique aqui.


sábado, 14 de julho de 2018

Estudo da CNI mostra que 2,7 mil obras estão paradas no Brasil


O estudo Grandes obras paradas: como enfrentar o problema?, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), aponta que 2.796 obras estão paralisadas no Brasil, sendo que 517 (18,5%) são do setor de infraestrutura.
A área de saneamento básico tem 447 empreendimentos interrompidos durante a fase de execução. Na sequência, aparecem obras de rodovias (30), aeroportos (16), mobilidade urbana (8), portos (6), ferrovias (5) e hidrovias (5). A CNI informou que obteve os dados com o Ministério do Planejamento.
“Além de investir pouco em infraestrutura – apenas 2% do Produto Interno Bruto (PIB) –, o Brasil joga no ralo um volume significativo dos recursos aportados no setor, em razão do excesso de obras que são interrompidas antes da entrega. As paralisações consomem recursos sem gerar benefícios para a sociedade e são, em geral, consequência de falhas na forma como o setor público executa seus projetos”, diz a CNI.
Entre as principais razões para a interrupção de obras, figuram problemas técnicos, abandono pelas empresas e dificuldades orçamentárias e financeiras. O trabalho integra uma série de 43 documentos sobre temas estratégicos que a CNI entregou aos candidatos à Presidência da República.

Medidas

A CNI recomenda seis medidas para que o país evite paralisações e atrasos: melhorar o macroplanejamento, avaliar qual modalidade de execução é a mais adequada; realizar microplanejamento eficiente; aparelhar melhor as equipes; desenhar contratos mais equilibrados; e fortalecer o controle interno.
“É recorrente o problema da paralisação de obras. O país parece incapaz de aprender com todos os levantamentos, perdas e conflitos que esse processo gera”, afirmou, em nota, o diretor de Políticas e Estratégia da CNI, José Augusto Fernandes. “Por mais urgente que seja encontrar soluções para as obras paradas, também é preciso atenção com programas e metas direcionados à não repetição dos mesmos erros no futuro”.

Crise econômica

Segundo a CNI, a crise econômica no país gerou a necessidade de contenção de gastos e levou o governo federal a paralisar importantes projetos de infraestrutura. “Ainda que mais evidente no caso da União, esse processo de deterioração fiscal e contração de investimentos também afetou projetos de estados e municípios, que acabaram por cortar investimentos, também provocando a paralisação de obras de infraestrutura”, diz a confederação.
No entanto, segundo a CNI, a crise econômica e fiscal não foi o único motivo para tantas obras paradas e não é uma situação nova no país. “Um obstáculo importante ao desenvolvimento da infraestrutura nacional é a difícil interação entre os gestores públicos, responsáveis por fazer os projetos virarem realidade, e os órgãos de controle”, destaca o estudo.

EBC


Para saber mais sobre o livro, clique aqui.


sexta-feira, 13 de julho de 2018

Água na cerveja da Heineken


Disputa judicial entre um pequeno empresário e o Departamento Nacional de Produção Mineral pode levar à paralisação da unidade da cervejaria em Alagoinhas, na Bahia. Para evitar a perda de metade do mercado da região Nordeste, a segunda maior cervejaria do Brasil teria um custo trimestral estimado de R$ 240 milhões. Entenda por que a seca se aproxima

Há 22 anos, a holandesa Heineken estava muito distante do mercado brasileiro. A companhia só se instalaria no Brasil em 2010, com a aquisição da mexicana Femsa, dona da marca Kaiser. Mas, muitos anos antes, tinha início uma disputa judicial entre um pequeno empresário e o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) que deve afetar, agora, a produção da empresa em Alagoinhas, na Bahia, uma das 15 cervejarias dos holandeses no País.

Essa fábrica, que responde por metade do abastecimento da companhia no Nordeste e emprega cerca de mil pessoas, poderá ser paralisada até a primeira quinzena de agosto. A Advocacia Geral da União (AGU) determinou que o DNPM cumpra decisão da Justiça de lacrar os três principais poços que fornecem a matéria-prima para a produção das bebidas. Para entender por que a seca pode atingir a Heineken, é preciso voltar no tempo.

Em novembro de 1996, o então prefeito de Alagoinhas, Murilo Coelho Cavalcanti (PFL, atual DEM), assinava com José Nelson Schincariol, principal acionista da cervejaria paulista, morto em 2003, um contrato de incentivos fiscais para a instalação de uma fábrica no município, que receberia investimento de US$ 160 milhões e criaria cinco mil postos de trabalho. Além das vantagens financeiras, a cidade localizada no Recôncavo Baiano, distante 108 quilômetros de Salvador, era considerada um novo polo para a produção de bebidas em razão da qualidade de sua água.

O problema é que a área disponibilizada para a Schincariol ficava sobre o aquífero São Sebastião, cujos direitos de exploração tinham sido concedidos pelo DNPM para o empresário Maurício Brito Marcelino da Silva. No Código da Mineração, a prioridade é de quem faz o primeiro requerimento de uma área livre. Compete à União determinar os direitos de uso do subsolo e não a Estados e municípios. Marcelino da Silva tinha feito estudos preliminares e solicitou 2 mil hectares para explorar fosfato. O pedido é uma praxe, pois envolve a liberacão de uma grande área, que pode ser analisada com cuidado em busca de outros minerais mais valiosos, como ouro ou diamante.

Mas, para atender a um pedido da Prefeitura de Alagoinhas, o então procurador-geral do DNPM, José Roberto Jansen Pereira, assinou um parecer pedindo o indeferimento da autorização dada ao empresário “em razão do interesse coletivo ao particular”. Desde então, Marcelino da Silva trava uma batalha judicial contra o órgão federal. Em 1999, seu direito foi reconhecido pela Justiça, em primeira instância, e confirmado nos anos seguintes pelos tribunais superiores. Após mais de 30 embargos, em 2014, o ministro Napoleão Nunes Maria Filho, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), considerou procedente o pedido do empresário. Agora, encerradas todas as possibilidades de recursos, a AGU determinou que o DNPM cumpra a decisão. “Fomos surpreendidos, na época, pela pressão política. Por isso, fui até o fim para reparar os meus direitos”, diz Marcelino da Silva. “Por mais que tenha falado, pessoalmente, que era meu direito e mostrado documentos, o Estado nunca quis tomar conhecimento e me jogou para fora de campo.”

Em mais de duas décadas, a fábrica passou da Schincariol para a japonesa Brasil Kirin, que adquiriu o grupo paulista, em 2011, por R$ 3,95 bilhões. Desde fevereiro do ano passado está nas mãos da Heineken, que pagou US$ 1,1 bilhão pelos ativos da empresa nipobrasileira. Embora a cervejaria holandesa não seja parte do processo, ela será a responsável por arcar com os custos dessa longa batalha judicial. A equipe comandada pelo presidente da empresa no Brasil, Didier Debrosse, está correndo contra o tempo.

Em 28 de março, por exemplo, Juliana Vansan, diretora de assuntos governamentais, esteve reunida, em Brasília, com Victor Hugo Bicca, diretor-geral do DNPM, para tentar encontrar uma solução para o caso. “A Heineken assumiu o risco, mas não pode dizer que não tinha conhecimento do processo. O que ela não pode é tentar ganhar no grito para recomeçar a discussão”, afirma Marcelino da Silva. “A minha ação era contra o Estado, que terá de cancelar todas as licenças que foram dadas à empresa para extração de um produto mineral que é meu direito explorar. Portanto, a minha discussão com a Heineken não é o passado, mas para o futuro.”

As fontes dos poços de Santo Antônio, Cosme e Damião e São Sebastião, que retiram a água do aquífero, fornecem 95% de toda a água da unidade de Alagoinhas, que necessita de, aproximadamente, 250 mil litros por hora para a produção. Uma outra fonte, que está distante 14 quilômetros e fora do perímetro de disputa, não tem capacidade para substituí-las. A possibilidade de ficar na seca obriga a Heineken a pensar em planos de contingenciamento para não prejudicar a sua presença no Nordeste. A Sklein Consultoria, especializada em perícias na área de mineração, fez um estudo, a pedido de Marcelino da Silva, para entender o impacto do fechamento dos poços no negócio da empresa.

Em 30 dias, a empresa conseguiria ampliar a capacidade da sua única fonte disponível para atender, no máximo, 25% de sua produção atual, com um custo de R$ 1,8 milhão em obras e adequações. Outra alternativa seria aumentar a produção nas unidades de Jacareí e Itu, em São Paulo. Essas seriam as duas únicas com espaço para substituir Alagoinhas. O impeditivo seria o custo logístico, estimado em quase R$ 55 milhões, ao mês. A possibilidade mais esdrúxula seria contratar caminhões-pipa para abastecer a fábrica com água, mas a lógica econômica seria um entrave. A projeção é de um gasto mensal de R$ 25,6 milhões. Nenhuma saída é simples para a companhia com o fechamento iminente dos poços. “Estima-se, para os três primeiros meses, um plano de contingenciamento de R$ 240 milhões, para que não ocorram prejuízos relacionados à perda de mercado e outras perdas previstas, como a queda significativa da receita”, destaca o relatório.

A resolução do processo entre Marcelino da Silva e o DNPM acontece numa péssima hora para a Heineken, que vem crescendo no mercado brasileiro. A companhia, que era a quarta maior cervejaria do mercado nacional em 2012, com 9,7% de participação, alcançou a segunda colocação, no ano passado, com 20,4%, segundo dados da consultoria Euromonitor. A compra da Brasil Kirin contribuiu para essa ascensão, mas a empresa obteve uma expansão orgânica de 14% nesse período, ante um recuo de 1,5% da Ambev, sua principal concorrente. “O Nordeste é o grande baú do tesouro das cervejarias, por não existir uma liderança absoluta de uma empresa”, diz Angélica Salado, analista sênior de bebidas da Euromonitor International. “A Heineken ainda tem de resolver um imbróglio na distribuição, mas já era uma ameaça à Ambev. Depois da compra da Brasil Kirin, aumentou a capacidade de produção onde a empresa não tinha presença.”

Em nota enviada à DINHEIRO, a Heineken informa que “não tinha conhecimento da ação em questão, uma vez que nunca foi parte do processo judicial. Nesse sentido, a companhia entende que a decisão judicial em nada afetará a continuidade das atividades da cervejaria de Alagoinhas, que seguirá operando normalmente”. A cervejaria acrescenta, também, que “possui as licenças e autorizações necessárias para exploração da sua atividade fabril e comercialização de seus produtos”. Procurado, o DNPM não retornou o pedido de entrevista. O risco, agora, é a fonte secar de repente.
Por Márcio Kroehn, na Revista Isto É Dinheiro



Para saber mais sobre o livro, clique aqui.