sábado, 6 de novembro de 2021

ENTREVISTA: “Precisamos de uma COP só para os oceanos”, diz cientista

Importância dos oceanos para o equilíbrio ecológico da Terra ainda não recebe a devida atenção

Pesquisador que integrou a maior expedição para estudar o microbioma oceânico cobra atenção a impactos da poluição e mudanças climáticas sobre a vida marinha. Mares respondem por 54% da produção de oxigênio do planeta.

 

É fácil compreender a importância dos oceanos para a vida na Terra: além de regularem o clima do planeta, as algas marinhas são responsáveis por 54% da produção global de oxigênio. Embora os mares exerçam esse papel vital, ainda não recebem a devida atenção nas mesas de negociação do clima. Essa é a avaliação do cientista Hugo Sarmento, pesquisador da fundação francesa Tara Océan.

"Precisamos de uma COP só para os oceanos”, afirma o biólogo, em entrevista à DW Brasil. "Já estamos em tempo de pensar numa coisa assim, porque as problemáticas são muitas, e diferentes dos ecossistemas terrestres”.

Sarmento fala com conhecimento de causa. O cientista português participou da primeira volta ao mundo realizada pelo navio da Tara Océan. Entre 2009 e 2013, a expedição coletou amostras de microrganismos em todos os oceanos do globo, no maior estudo do microbioma oceânico já realizado.

A viagem resultou em cinco artigos científicos publicados na prestigiada revista Science. A viagem tinha por objetivo o estudo do microbioma oceânico – "consórcios” ou superorganismos de espécies microbianas interdependentes, responsáveis por garantir as condições mínimas de vida do planeta.

"Existem 1 milhão de bactérias e 10 milhões de vírus em uma gotinha de água de mar. Esses microrganismos pertencem a milhares de espécies diferentes, e cada um tem uma função bem específica”, explica Sarmento. O cientista estuda como esses sistemas complexos são afetados pelas mudanças climáticas.

Fundamental para a vida na Terra, o microbioma é extremamente suscetível a mudanças de temperatura, correntes oceânicas e à presença de plásticos. Apesar dos impactos que já começam a ser observados, sobretudo nas regiões polares, as iniciativas de preservação ainda são tímidas. Não há clareza, contudo, sobre a responsabilização pelas águas internacionais.

"O problema é que o oceano não é de ninguém”, atesta o pesquisador. Sarmento apela para que a comunidade internacional chegue a um entendimento sobre essa indefinição. "Temos o exemplo da Antártica, que transformamos num santuário de pesquisa internacional. É um ambiente saudável, de pesquisa, e todos os países que estão lá se responsabilizam por uma parte.”

Professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), ele coordena o projeto de pesquisa AtlantECO no Brasil. A iniciativa financiada pela Comissão Europeia se dedica a pesquisar os oceanos, principalmente o Atlântico Sul, nos próximos quatro anos. Nesta sexta-feira (05/11), ele participa da conferência Um oceano sustentável, organizada pela Tara Océan no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

A conferência abre a série de atividades gratuitas, que irão até 10 de novembro e incluem exposições sobre microplástico no mar e o microbioma marinho, além de visitas virtuais ao navio-laboratório Tara, que ficará ancorado ao lado do Museu do Amanhã até o dia 7, e na Marina da Glória entre 8 e 10 de novembro.

DW: Como você explica para completos leigos o que é esse estudo, esse trabalho, qual é o foco dessa pesquisa, dessa experiência em que você trabalha?

Hugo Sarmento: Pouca gente sabe, mas a vida no oceano é totalmente dominada por microrganismos. Se nos ecossistemas terrestres temos as florestas, onde as plantas puxam os nutrientes do solo e levam até as folhas para fazer fotossíntese, no oceano são as correntes marinhas que transportam os nutrientes do fundo para a superfície. E quem faz fotossíntese são esses microrganismos. Portanto, a produção de oxigênio, a fotossíntese no oceano tem a particularidade de ser feita por microrganismos. Os oceanos ocupam 70% da superfície do globo terrestre. Se somarmos tudo, eles produzem metade do oxigênio que respiramos. Juntando com todas as florestas, esses microrganismos têm um papel muito importante para nós: eles produzem o ar que respiramos.

Tem outros aspectos importantes dos microrganismos marinhos: um deles é que cerca de 25% das emissões de gases do efeito estufa pela queima dos combustíveis fósseis são absorvidos pelos oceanos. Os gases acabam sendo fixados por esses microrganismos e indo para o fundo do mar, quando morrem ou são ingeridos por outros organismos. Eles acabam sendo esse sumidouro de carbono que aliviam um pouco os efeitos da queima de combustíveis fósseis.

Por último, esses microrganismos são a base de toda a cadeia alimentar do oceano. Todos os organismos do mar que a gente conhece comem planta ou algum organismo que come planta. Eles são a base de toda a vida no oceano. Esses microrganismos são extremamente suscetíveis a mudanças de temperatura, correntes oceânicas e à presença de plásticos. Os plásticos são colonizados por microrganismos e acabam servindo de transporte de microrganismos de um lado para outro.

O foco do estudo acaba sendo o microbioma, que é o conjunto de microrganismos e as suas interações, porque esses microrganismos interagem entre si, formando autênticos consórcios microbianos. Em um mililitro de água de mar existem 1 milhão de bactérias e 10 milhões de vírus – em uma gotinha de água de mar. Esses microrganismos pertencem a milhares de espécies diferentes, e cada um tem uma função bem específica. Pequenos distúrbios podem afetar as interações. A gente está estudando isso com muito cuidado.

A importância dos oceanos fica relegada a segundo plano nos debates sobre o futuro climático do planeta?

Já foi mais subestimada. Aos poucos, estamos começando a falar de oceano, trazendo o tema. Acho que a Fundação Tara tem feito um esforço importante junto da ONU, junto da Unesco, para levar a essas instâncias a problemática não só do oceano, mas especificamente do microbioma e do plâncton, que com certeza é muito importante. Os oceanos são o maior ecossistema do planeta.

Pela importância que têm para as pessoas e por regular o clima, ao transportar calor dos trópicos para as regiões temperadas, acredito que precisamos de uma COP só para os oceanos. Já é tempo de pensarmos em uma coisa assim. As problemáticas são muitas, e diferentes dos ecossistemas terrestres. Temos questões como a sobrepesca e a acidificação do oceano, causada pelo aumento do dióxido de carbono na atmosfera. Ele acaba entrando por difusão no oceano e baixa o pH do oceano. Isso tem um impacto tremendo nos corais e na biodiversidade. São muitas problemáticas, que justificariam uma COP só para os oceanos.

Quais são os riscos mais iminentes para esses microbiomas marinhos, tão importantes para a regulação climática?

Em primeiro lugar, o aumento da temperatura. Isso é uma realidade. Os oceanos de latitudes maiores já estão se tropicalizando. Observamos esses consórcios microbianos típicos de oceano tropical indo cada vez mais para latitudes maiores. Profundas mudanças estão acontecendo nos polos, e isso é muito problemático, porque é nessas regiões que temos as mudanças de temperatura em ritmo muito mais acelerado do que nas regiões temperadas, por exemplo.

Esses consórcios microbianos dos polos são muito mais sensíveis a essas mudanças de temperatura. Logo, podemos desde já antecipar graves impactos, tanto no funcionamento da cadeia alimentar, no sustento dos organismos maiores, quanto nesse serviço ecossistêmico que leva o CO2 para o fundo do mar.

Outra problemática grave é a dos plásticos, que vão se quebrando ao longo do tempo, se degradando, e atingem o tamanho do plâncton. Os pedaços maiores viram microplásticos que a gente não vê e acabam sendo confundidos com plânctons pelos organismos marinhos. Eles acabam ingerindo os plásticos, que não são digeridos e afetam a saúde do animal. Ele não sente mais fome e acaba morrendo com o plástico no estômago.

Se fizéssemos uma investigação, acharíamos pedaços de plásticos e microplásticos no estômago de praticamente todos os organismos do oceano hoje. É um problema muito grave, para o qual também não vemos qualquer solução no curto prazo. Precisamos discutir a redução do uso de plástico e, principalmente, banir aquele plástico de uso único, que se usa durante alguns minutos e já se joga fora. Se pudéssemos lidar com isso, já seria um avanço. Alguns países já têm metas, com datas para a proibição dos plásticos de uso único.

Temos ainda o problema do pH, de que eu acabei de falar. Essa questão é muito séria, especialmente para os corais, que são muito sensíveis a pequenas mudanças de pH. A acidificação dos oceanos é um produto do aumento do CO2 na atmosfera, então também tem impactos grandes na vida marinha.

Além da sobrepesca, outro problema gravíssimo, há pressões múltiplas: as zonas de baixo oxigênio estão se multiplicando ao redor do planeta, com o aumento da urbanização em zonas costeiras. É o que chamamos de zonas mortas, são zonas que ficam praticamente anóxicas, sem oxigênio. O mar está sofrendo com estressores múltiplos, como dizemos em nosso jargão.

As estratégias de mitigação dos efeitos climáticos sobre o oceano devem ser elaboradas por governos nacionais?

O problema é que o oceano não é de ninguém. Os países têm as zonas econômicas exclusivas, mas as águas internacionais não têm um país ou um dono que possa se responsabilizar. Já deveríamos estar negociando internacionalmente um tratado para as águas internacionais, como existe na Antártica, por exemplo. São águas de ninguém. Então, se você quiser jogar óleo, ninguém vai se responsabilizar.

Essa lógica é reforçada pela intensificação da procura por recursos minerais, e não só o petróleo. O pré-sal já é uma realidade, mas outra realidade que começa a ser mais frequente é a mineração em águas profundas. Só não se faz ainda porque é muito caro, mas em águas rasas já se exploram minerais – e o fundo do mar é muito rico em minerais. Hoje em dia, não existe nem legislação, nem debate. Do outro lado da balança, temos todas as pressões, poluições e o aquecimento global. Nesse momento, a balança do oceano está tendendo muito para o lado ruim, e as consequências podem ser muito nefastas.

O aquecimento global está afetando as correntes marinhas, e esses processos podem amplificar ainda mais os efeitos das mudanças climáticas. Imaginemos que a Corrente do Golfo diminua sua velocidade. Ela vai transportar menos calor do trópico para a Europa, e os invernos no continente passam a ser muito mais rigorosos do que os atuais, nos níveis do Canadá: na mesma latitude, temos invernos de -20°C, -30°C. Isso não acontece na Europa graças a essa corrente. É apenas um exemplo do que pode vir a acontecer se a gente amplificar mais os problemas que já estamos vivendo hoje em dia.

O oceano é o motor do clima do planeta. Se alterarmos alguma pequena pecinha desse motor, com certeza haverá consequências. E os microrganismos fazem parte desse sistema. Eles estão fazendo o trabalho deles, levando o carbono para o fundo e transformando em petróleo. Ao longo de milhares de anos no fundo do mar, esse plâncton vira o pré-sal, o petróleo. O grande problema é que estamos extraindo esse petróleo numa taxa muito mais rápida, pelo menos quatro vezes maior, do que a taxa em que o plâncton está levando o carbono para o fundo. Esse desequilíbrio é preocupante. Temos que desacelerar essa taxa de retirada, para dar tempo ao plâncton e ao oceano de se recuperarem.

Deveríamos pensar em um sistema de administração compartilhada dos oceanos?

O fundamental é que os órgãos internacionais possam assinar verdadeiros acordos, em espaços como a COP, em que o oceano não seja visto pelos governos na perspectiva simples de "o que eu posso tirar dele, o que eu posso ganhar?”. Atualmente, os governos partem para as negociações pensando em quanto vão conseguir ganhar em termos de acesso a recursos, rotas marítimas ou coisas do gênero. Eu acho que deveríamos ter um ponto de partida diferente.

Temos o exemplo da Antártica, que transformamos em um santuário de pesquisa internacional. É um ambiente saudável, de pesquisa, e todos os países que estão lá se responsabilizam por uma parte. No Ártico e no mar aberto, já é diferente. Vemos uma série de países reivindicando áreas maiores, zonas econômicas exclusivas maiores, mas baseados em interesses imediatos e financeiros, unicamente.

Deveríamos partir para acordos internacionais mais baseados no uso sustentável, tendo em conta também a parte social, de pesca com pequenas embarcações, e também a parte ambiental da manutenção dos recursos no longo prazo. Este seria um caminho interessante das negociações, mas de qualquer maneira, tem que ser dar em nível internacional e pela via diplomática.

João Pedro Soares, Deutsche Welle


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sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Ferrovias - pandemia provoca pouco impacto


Parte do aumento do volume de cargas neste ano deve-se à retomada do transporte de minério de ferro

 

Se a velocidade de trens de cargas no Brasil ainda deixa a desejar, na outra ponta a demanda dá sinais de retomada. De janeiro a agosto deste ano, o volume transportado cresceu 6,5% sobre o intervalo anterior, chegando a 246 bilhões de toneladas por quilômetro útil (TKU). O índice, que a primeira vista pode parecer modesto, se destaca em um cenário impactado pela pandemia. Mesmo quando se olha para 2019, período anterior á crise sanitária, houve aumento de cargas de 2,3% nos oito meses.

Considerando os números de 2021, que até agosto registrou média mensal de 7,7% superior ao ano passado, estima-se um total de transporte ferroviário de 390 bilhões de TKU ante 365,1 bilhões de TKU em 2020, mas abaixo dos 407,1 bilhões de TKU de 2018. “O setor foi pouco impactado pela pandemia, embora determinados segmentos, como combustíveis e produtos industriais, tenham experimentado algum tipo de redução dos volumes”, diz Fernando Paes, diretor-executivo da Associação Nacional de Transportes Ferroviários (ANTF).

Paes credita a alta em parte pelo aumento na produção de minério de ferro, com transporte de 170 bilhões de TKU, aumento de 7,6%. Os setores agrícola, de extração vegetal e de celulose contribuíram para o bom desempenho, com acréscimo de 2,5%, ou seja, 57 bilhões de TKU. Outros tipos de mercadoria cresceram 9,6%, com volume de 18,5 bilhões de TKU. “Mas há outros fatores que favoreceram a expansão, como os investimentos das concessionárias em segurança e via permanente e o início de operação de novos fluxos de transporte.”

Crítico da prioridade que o modal concede ao transporte de minério de ferro, Luis Henrique Teixeira Baldez, presidente-executivo da Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (Anut), entende que não se trata de um aumento da carga propriamente dito. “O fato é que o transporte ferroviário é concentrado em minério de ferro, que tem sua lógica de mercado própria”, afirma. A elevação de carga seria decorrência da retomada de volumes anteriores, que sofreu uma redução após o desastre ambiental em Brumadinho (MG), em janeiro de 2019.

Além do peso do minério, Baldez destaca o agronegócio, que tem participação de 15% nas ferrovias. “Apesar dos recordes das safras de grãos, não há expansão desse tipo de mercadoria, porque o modal ferroviário não tem capacidade para atender toda a demanda do setor”, afirma. Segundo Paes, da ANTF, a antecipação das concessões poderá compensar parte dessa limitação. Segundo ele, as empresas associadas à ANTE realizarão investimentos de mais de R$ 30 bilhões nos primeiros cinco anos de contrato, a partir da assinatura do termo aditivo.

Após um longo período de análise e tramitações, a Rumo, empresa de logística do grupo Cosan, foi a primeira, em 2020, a assinar o termo de concessão que dá à companhia o direito de prorrogar o prazo de vigência do seu contrato, que venceria em 2028. A Rumo informa “que o novo valor da outorga da concessão será de cerca de R$ 2,9 bilhões, que serão pagos em parcelas trimestrais ao longo da vigência contratual prevista até 2058, e os investimentos estão estimados em R$ 6,1 bilhões”.

Em dezembro de 2020, houve a renovação dos contratos da Estrada de Ferro Vitória a Minas e da Estrada de Ferro Carajás com a Vale. A renovação de 30 anos prevê R$ 17 bilhões em investimentos, além de R$ 4,6 bilhões em outorgas. Parte do valor será usada para a construção da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico), entre as cidades de Mara Rosa (GO) e Água Boa (MT). O objetivo é viabilizar o escoamento de grãos do Vale do Araguaia até a Ferrovia Norte-Sul.

A MRS Logística será a próxima a assinar o termo aditivo. “Estamos propondo uma série de investimentos para o setor e para a MRS, que seriam impensáveis sem o mecanismo da renovação. Os impactos serão sentidos em diversos setores-chave da economia no curto prazo”, diz Guilherme Mello, presidente da MRS Logística. Os aportes financeiros serão de R$ 9,7 bilhões em 280 projetos.

A expectativa é que o processo seja enviado ao Tribunal de Contas da União (TCU) até fim deste mês, com expectativa de que o contra to seja assinado no primeiro trimestre de 2022, diz Rafael Hipólito, gerente de planejamento estratégico e gestão de resultados da MRS. Com a renovação, um dos principais objetivos da concessionária, que atua no triângulo entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, é diversificar as cargas transportadas, antes muito focadas na produção da Vale, Gerdau, Usiminas e CSN.

“O foco é continuar diversificando e expandir o market share de carga geral”, diz Hipólito. No primeiro semestre, já representou 36,7% do volume transportado e o objetivo é chegar a 47% no máximo em 12 anos. “No primeiro semestre, o volume movimentado cresceu 8,5% sobre igual período de 2020.” Boa parte dos recursos financeiros previstos, segundo ele, será absorvida na construção de polos intermodais, “tripé fundamental para fazer a ampliação da carga geral, entre Minas Gerais e São Paulo e o porto do Rio para expandir a carga geral no Rio de Janeiro”.

Segundo Paes, da ANTF, é viável que a estrada de ferro, que hoje responde por 21% do transporte de mercadorias pelo modal, atinja 30%, como prevê o Plano Nacional de Logística. “Todas as renovações antecipadas dos contra tos de concessão preveem aumentos expressivos da movimentação de cargas por trilhos”, diz, citando a Rumo como exemplo.

A Rumo informa "que projeta um volume entre 72 bilhões e 76 bilhões de toneladas de mercadorias por TKU neste ano”. A empresa investirá em um novo empreendimento batizado de Ferrovia Autorizada de Transporte Olacyr de Moraes (Fato), que terá 730 quilômetros e será uma extensão do atual corredor operado pela Rumo, que vai do porto de Santos (SP) a Rondonópolis (MT).

Serão construídos dois novos ramais: um até Cuiabá e outro até Lucas do Rio Verde, ao norte de Mato Grosso, onde se concentra a carga agrícola da região. O contrato foi assinado no fim de setembro. A previsão é que as licenças ambientais sejam concedidas nos próximos meses e que as obras iniciem no fim de 2022 ou início de 2023. O empreendimento foi orçado entre R$ 9 bilhões e R$ 11 bilhões.

Em julho, a Rumo inaugurou um trecho considerado relevante de sua operação na Ferrovia Norte-Sul. O início da movimentação de carga começou no fim do terceiro trimestre entre Estrela D’Oeste (SP) e São Simão (GO). Nessa segunda etapa, entrou em funciona mento o novo terminal de Rio Verde (GO), que permitirá ampliar o volume transportado. Os recursos injetados foram de R$ 400 milhões, com capacidade para transportar 11 milhões de toneladas de grãos por ano.

Concebido no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o projeto da Nova Transnordestina, em princípio, seria concluído 11 anos atrás e colecionou inúmeras interrupções. O novo marco legal das ferrovias, anunciado em setembro, deu novo ânimo à estrada de ferro. Antes gerido pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), trocou de mãos e será tocado pelo banqueiro Daniel Dantas, dono do banco Opportunity. Quatro dias após o lançamento do regime de autorização para as ferrovias, com o envio da Medida Provisória 1.065 ao Congresso, a mineradora Bemisa, controlada pelo Opportunity, formalizou requerimento para assumir o trecho de 717 quilômetros de Curral Novo (PI) até o porto de Suape (PE).

A conclusão do trecho de Pernambuco é estimada em quase RS 6 bilhões e a ferrovia consumiu cerca de R$ 7 bilhões até hoje. O objetivo é escoar minério de ferro do Piauí até Suape. Apesar de contar coma entrega de alguns trechos e atingir quase 50% de execução das obras, a ferrovia ainda não é capaz de a tender a qualquer demanda por transporte da região.

O contrato de concessão do trecho 1 da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) foi assinado em setembro deste ano. A ferrovia, que vai interiorizar o desenvolvimento e integrar regiões, terá 537 quilômetros de extensão, ligando as cidades de Ilhéus e Caetité, na Bahia. O leilão do trecho da Fiol ocorreu em abril deste ano e a Bahia Mineração (Bamin) assinou o contra to de concessão por um período de 35 anos. Segundo o Ministério da Infraestrutura, a Fiol 1 receberá investimentos privados de R$ 3,3 bilhões, sendo que R$ 1,6 bilhão serão usados para o término do segmento de 537 quilômetros, hoje com 75% das obras concluídas.

Já o processo de concessão da Ferrogrão, de Sinop (MT) ao porto de Miritituba (PA), continua travado por conta de uma liminar do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que contesta a alteração de limites da Floresta Nacional do Jamanxim (PA) para a passagem dos trilhos. Prioridade do governo federal na área de infraestrutura, o ministro Tarcísio de Freitas reitera que “só insistimos no projeto da Ferrogrão porque temos players interessados. Vamos seguir em frente”. Levantamento feito por 40 entidades da sociedade civil organizada, enviado a potenciais financiadores do projeto, aponta que a Ferrogrão pode levar ao desmata mento de dois mil quilômetros quadrados de floresta nativa, com um custo de implantação até 3,5 vezes superior ao orçado pelo Ministério da Infraestrutura.

Rosangela Capozoli, Revista Valor Setorial  / Noticias


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