segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O pacote Guedes



Mais Brasil e menos Brasília”. A frase, usada na campanha presidencial de Jair Bolsonaro, começa a sair do campo das promessas. Com envio ao Congresso de três Propostas de Emenda à Constituição (PEC) que tratam da maior autonomia dos estados e municípios - com a expectativa de novas medidas chegarem aos parlamentares - o plano do ministro da Economia, Paulo Guedes, tira cidades e estados da tutela fiscal da União e dá liberdade para gestores escolherem a melhor forma de empregar recursos. Com gatilhos para facilitar o arrocho em economias estranguladas, a palavra de ordem é “quem fez a dívida, que pague”. Apesar de esta lógica parecer coerente para lares e empresas, a emancipação pode custar caro, principalmente às cidades e estados pouco comprometidos com a responsabilidade fiscal.

“Precisamos repensar a forma como o pacto federativo foi desenhado”, afirmou Guedes. Na avaliação dele, o governo - em todas as esferas - gasta muito, e gasta mal. “Vivemos no paraíso dos rentistas. Temos um ambiente ruim para criação de emprego, investimento, mas um ambiente amigável para quem quer emprestar dinheiro. E isso que precisamos mudar.” Nesse sentido, o governo anunciou a criação de três macromedidas (PEC Emergencial, PEC do Pacto Federativo e PEC dos Fundos Públicos) que tratam de maior autonomia para estados e municípios, liberação de recursos mais robustos para as gestões locais e gatilhos para cortar custos em caso de emergência fiscal. “O problema é que, apesar de termos uma Lei de Responsabilidade Fiscal, poucos são os gestores comprometidos com ela”, diz o ministro.

As duas primeiras PECs (Emergencial e do Pacto Federativo), que tratam de conter gastos de estados e municípios e redistribuir recursos, são as que mais preocupam parte dos economistas. Para o doutor em contas públicas, professor da Unicamp e ex-membro do Tribunal de Contas de São Paulo Gabriel Galante, com flexibilidade, os entes terão mais autonomia para investir e gerar emprego. “O problema é garantir que os gestores tomem as decisões corretas”, diz. A proposta do governo libera, por exemplo, recursos para aportes em infraestrutura, mas para regiões estranguladas financeiramente o recurso iria para abater dívidas. Eliosmar Ferreira, que foi secretário de Planejamento e Fazenda do Estado do Mato Grosso, entre 2006 e 2009, lembra que“diminuir o déficit é importante, mas se não houver estímulo econômico será como enxugar gelo”.

O anúncio das medidas, mesmo apontando para anseios do mercado, gerou também desconfiança. Muito, claro, por causa da maneira atabalhoada com que o Planalto tratou a reforma da Previdência, que saiu mais por habilidade de líderes congressistas - em especial Rodrigo Maia, presidente da Câmara que por tropas palacianas. A economista e professora da USP Laura Carvalho avalia que as mudanças seriam uma “miniconstituinte”, já que prevê alterações em muitos pontos da Constituição de 1988. “Meu medo é que o projeto seja uma forma de o governo aproveitar o argumento da estagnação econômica para mexer em direitos fundamentais”. Entre os argumentos para sustentar tal receio, a professora citou a questão da redução de jornada de servidores públicos em caso de emergência fiscal. “Serão só os funcionários administrativos ou professores e médicos também podem ter horas cortadas? Isso afeta diretamente o direito ao acesso ao estudo e à saúde pública”, diz.

A expectativa do governo é ter a boa vontade política de estados e municípios para moldar a opinião pública e contornar categorias historicamente resistentes a mudanças como a do funcionalismo público. Para isso, a promessa é uma chuva de dinheiro. Segundo o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, serão destinados aos estados e municípios cerca de R$ 400 bilhões em 15 anos. “Será uma verdadeira mudança na federação. Poderemos deixar o recurso na ponta, com a presença do estado da maneira correta”. Ele acrescenta ainda que a União deixará de ser fiadora dos estados e cidades, atuando apenas em operações de crédito com entes internacionais a partir de 2026. “Agora cada um paga sua conta. A forma como é hoje acaba pressionando o Tesouro Nacional. Quem faz a divida, que arque com ela. E assim que tem de ser”. Pela proposta, a União fica proibida de prestar socorro fiscal a partir de 2026.

Para se ter ideia da autonomia dos estados e cidades, um bom exemplo é o uso do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Hoje os recursos são divididos em três partes iguais de R$ 9,8 bilhões cada. Caso aprovada a proposta, a fatia do governo federal iria direto para os municípios e estados. Outra mudança importante diz respeito à alocação de recursos em saúde e educação, que possuem mínimo obrigatório. Agora, a ideia é que os mínimos para saúde (15% do orçamento dos municípios e 12% dos estados) e educação (25% do orçamento de municípios e estados) possam ser somados e distribuídos como o gestor escolher. Para o ex-secretário de Mato Grosso Eliosmar Ferreira isso pode ter caráter eleitoreiro. “Se hospital der mais capital político que escola, teremos mais hospitais, ainda que a urgência seja outra.”

Na avaliação de Laura, da USP, outro problema é que a redução dos recursos, em qualquer área, contraria orientações mundiais sobre sair de crises. “Precisamos flexibilizar o investimento, e não flexibilizar o potencial de cortes”. Para a acadêmica, a questão fiscal foi acentuada com o Teto dos Gastos. “O problema é que o teto amarrou a capacidade de investimento do governo. Se tudo continuar como está, ano que vem o governo estoura o teto, por isso essa urgência. Se aprovar este ano, em 2020 a União entra em situação de emergência e poderá fazer cortes.”

As duas primeiras PECs impactam altamente estados e municípios, enquanto a terceira está mais relacionada à União, a chamada PEC dos Fundos Públicos. Segundo Guedes, foram mapeados 281 fundos públicos e pelo menos 240 seriam extintos, reforçando o caixa federal com cerca de R$ 220 bilhões. A ideia é usar esses recursos para diminuir o déficit. O problema é que boa parte dos deputados faz parte, justamente, de frentes parlamentares que defendem o direcionamento destes recursos para seus respectivos setores. O Fust, por exemplo, é destinado à universalização dos serviços de telecomunicações, e seria um dos alvos.

Enquanto especialistas e governo avaliam os pontos positivos e negativos da medida, o Congresso Nacional também se move. Ainda que seja esperado que ao menos a PEC Emergencial seja aprovada este ano, em Brasília o tom de deputados, de oposição e situação, é de que não seja possível dar a celeridade esperada pelo governo. Em resumo, o que o governo entende como urgência o Congresso sinaliza como ‘fica-para-depois’. A deputada federal pelo PSOL em São Paulo, Sâmia Bonfim, afirma que a proposta desestabiliza direitos constituídos. “Nós, do PSOL, temos propostas para resolver a crise econômica invertendo prioridades e defendendo os pobres. A começar por uma reforma tributária que taxe as fortunas, os lucros e dividendos, atacando a desigualdade”, diz. Em condição de anonimato, um deputado do PSL afirmou a DINHEIRO que a forma como as medidas foram colocadas torna a aprovação em 2019 difícil. “São muitas regras, muitas mudanças, muitas negociações em pouco tempo.”

Fara o parlamentar, além de enfrentar a resistência da oposição, dos servidores públicos e de parte da opinião pública, haverá grande dificuldade de avançar com as medidas às vésperas de eleições municipais (2020). “A parte do texto que toca na eliminação de municípios não passaria em ano eleitoral”, diz. Segundo estimativas do governo, dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros cerca de 1,2 mil seriam extintos - aqueles com menos de 5 mil habitantes e cuja capacidade de gerar receita fique abaixo de 10% do total de gastos. Seriam eliminadas mais de 1,2 mil cadeiras de prefeito e 11 mil cargos de vereadores, além de vagas administrativas.

A aprovação de uma PEC é sempre a parte mais difícil, por exigir votações em dois turnos tanto na Câmara quanto no Senado e aprovação por parte de três quintos dos parlamentares de cada casa. Oficialmente presentes na entrega do pacote de Guedes, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ, ver quadro), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), prometeram dar celeridade ao texto. Na última quarta-feira 6 o presidente do Senado reuniu 40 parlamentares e o ministro Paulo Guedes para falar sobre o texto. Na saída, tanto Guedes quanto Alcolumbre reforçaram a necessidade de diálogo para adaptação da proposta.

Com relação à estratégia para aprovação das PEC, o jogo de xadrez de Guedes é repassar, além das três PECs já encaminhadas ao Senado, uma PEC que trata da reforma administrativa à Câmara, reforma tributária à Comissão Mista, e o projeto de Lei sobre desonerações na folha de pagamento. Das que já foram enviadas (PEC Emergencial, a PEC do Pacto Federativo e a PEC dos fundos públicos) a divisão da relatoria já foi definida: Na PEC dos fundos públicos o relator no senado será Otto Alencar (PSD-BA); a emenda que trata do pacto federativo terá relatoria de Márcio Bittar (MDB-AC) e ficará com o Podemos, ainda sem definição do parlamentar, o texto final da PEC Emergencial. No aguardo dessas novas medidas, uma incoerência surge no horizonte: a geração de empregos. Segundo Guedes o governo estuda como desonerar a folha de pagamentos. Tal medida será voltada a jovens e idosos. O problema, diz Ferreira, é que se o governo entrar em situação de emergência fiscal ficará impossibilitado de fazer desonerações. “Há alguns pontos de conflitos nos textos que ainda precisam ser ajustados”.

Dentro dessas mudanças, para que não haja malversação dos recursos a saída é a criação de um Conselho Fiscal da República. Nele estariam membros dos Três Poderes, além de integrantes dos tribunais de contas da União, Estados e Municípios. “Todos os poderes que têm a capacidade de manter ou desestabilizar o equilíbrio fiscal da República se reúnem a cada três meses para tratar da situação fiscal”, afirmou Guedes. Para o ministro, muitas vezes, os tribunais estaduais e municipais aprovam contas de gestores que não seriam aprovadas pelo Tribunal de Contas da União, e com o conselho será possível unificar a métrica de avaliação, sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), a participação visa alinhar as decisões da Corte em medidas que não causem impactos inesperados para as contas públicas. “O STF recebe todo tipo de demanda. Há contas de todos os tipos, e ninguém protege a viúva. A viúva é a União”, diz.

Por Paula Cristina, na Isto É Dinheiro


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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Brasil gera 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano



No Brasil, em 2018, foram geradas 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, um aumento de pouco menos de 1% em relação ao ano anterior. Desse montante, 92% (72,7 milhões) foram coletados - uma alta de 1,66% em comparação a 2017, o que mostra que a coleta aumentou num ritmo um pouco maior que a geração. Apesar disso, 6,3 milhões de toneladas de resíduos ficaram sem ser recolhidos nas cidades.
Os dados fazem parte do Panorama dos Resíduos Sólidos, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), lançado hoje (8). Comparando com os países da América Latina, o Brasil é o campeão de geração de lixo, representando 40% do total gerado na região (541 mil toneladas/dia, segundo a ONU Meio Ambiente).
“Os números mostrados no panorama colocam o Brasil numa posição muito abaixo de outros países que estão no mesmo nível de renda do Brasil. O nosso déficit é muito grande e nós precisamos realmente de medidas urgentes para não só recuperar esse déficit, como avançar em direção a melhores práticas de gestão de resíduos sólidos”, disse o presidente da entidade, Carlos Silva Filho.
Os resíduos sólidos urbanos correspondem a todos os tipos de resíduos sólidos - que resultam de atividades de origem industrial, doméstica, hospitalar, comercial, agrícola, de serviços e de varrição, e, em alguns casos, de coleta de entulhos - gerados nas cidades e coletados pelos serviços locais.
A tendência de crescimento na geração de resíduos sólidos urbanos no país deve ser mantida nos próximos anos. Estimativas realizadas com base na série histórica mostra que o Brasil alcançará uma geração anual de 100 milhões de toneladas por volta de 2030.
“Há uma consolidação na geração de resíduos sólidos, o que não está sendo acompanhada na oferta da infraestrutura necessária para lidar com todos esses resíduos. O que a gente percebe é que a geração de lixo aumenta no Brasil, mas a destinação adequada, a reciclagem, a recuperação, não acompanham esse crescimento na geração”, avaliou Silva Filho.
Coleta ameaçada
Em 2018, 29,5 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos seguiram para lixões - Wilson Dias/Arquivo Agência Brasil
De acordo com o estudo, há um contingente considerável de pessoas que não são alcançadas por serviços regulares de coleta porta a porta: 1 em cada 12 brasileiros não tem coleta regular de lixo na porta de casa.  
Na visão do presidente da Abrelpe, a falta de recursos dos municípios é um dos motivos. “Temos dois problemas, um é justamente a falta de percepção da importância da gestão adequada de resíduos sólidos para proteger o meio ambiente e para prevenir doenças, não existe essa percepção clara na sociedade e no Poder Público. O segundo fator, que é mais grave, é que, como esse serviço é municipal e os municípios estão bastante endividados, não têm recursos para custear todo esse processo”, lamenta Silva Filho.
A estagnação ou o retrocesso de alguns índices é potencializado pela falta de recursos destinados para custeio dos serviços de limpeza urbana que, em 2018, registrou queda de 1,28% de investimentos, além da perda de quase 5 mil postos de trabalho direto/formal. Para a execução de todos os serviços de limpeza urbana foram aplicados pelos municípios apenas R$ 10,15 por habitante/mês, em média.
De acordo com o estudo, o país utiliza o aterro sanitário como forma de disposição ambientalmente correta (59,5% do volume coletado). Entretanto, mais de 3 mil municípios ainda destinam seus resíduos para locais inadequados.
Em 2018, 29,5 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos seguiram para lixões ou aterros controlados, que não contam com um conjunto de sistemas e medidas necessários para proteger a saúde das pessoas e o meio ambiente contra danos e degradações. Considerando países com a mesma faixa de renda (países de média-alta renda, segundo classificação do Banco Mundial), o Brasil apresenta índices bastante inferiores, pois a média para destinação adequada nessa faixa de países é de 70%.
Conscientização ambiental
A Abrelpe enfatiza que a coleta seletiva está distante de ser universalizada, e que os índices de reciclagem estão estagnados há quase uma década. Para a entidade, enquanto o mundo fala em economia circular e alternativas mais avançadas de destinação/reaproveitamento de resíduos, o país ainda registra lixões em todas as regiões e precisa lidar com um problema de comportamento da população: o brasileiro ainda está aprendendo a jogar lixo no lixo e a fazer a separação do resíduo com potencial de reciclagem.
“Na questão da reciclagem, para que ela aconteça, a primeira etapa começa justamente com o cidadão, que precisa estar conscientizado da necessidade de separar o lixo dentro de casa, estar educado de como fazer essa separação de maneira correta e a grande maioria da sociedade brasileira não tem essa consciência. A partir do momento que não há essa preparação dentro de casa, toda a sequência na cadeia da reciclagem acaba sendo prejudicada”, avaliou o presidente da Abrelpe.
Da Agência Brasil


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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Uma antiga entrevista que vale a pena reler: "monitorar o governo é forma de exercermos o poder"

                                   
                                          MIT Ethan Zuckerman (Ivan Pacheco)



Entrevista: Ethan Zuckerman

Da Veja.com

"Monitorar o governo é forma de exercermos o poder"


O diretor do Center for Civic Media, do MIT, fala do Promise Tracker, programa que vai colocar na mão do cidadão ferramenta de avaliação do poder público

Um time de trinta pessoas vai começar a circular por São Paulo com celulares à mão e uma missão: conferir se o prefeito cumpre o que prometeu em campanha. A inteligência do programa que vai comparar promessas e realidade vem do Massachusetts Institute of Technology (MIT): é criação do professor Ethan Zuckerman, diretor do Center for Civid Media. No futuro, o sistema poderá ser usado por qualquer pessoa, que se tornará fiscal do poder público. A ideia por trás da ferramenta é que, em tempos de divórcio entre cidadãos e políticos, votar não basta. "Monitorar governantes é uma forma vital de exercermos o poder", diz Zuckerman, que visitou as capitais paulista e mineira na semana passada para apresentar a ferramenta aos usuários que vão testá-la. Na prática, o Promise Tracker é um programa simples e em desenvolvimento para smartphone. Com o aparelhinho em mãos, os usuários podem visitar as ruas da cidade recolhendo informações geolocalizadas em texto, foto ou vídeo acerca da infraestrutura que encontram no local. Os dados são, então, colocados em um mapa e podem ser cotejados com as promessas de campanha de um governante. Os corredores de ônibus foram construídos? As escolas estão funcionando? E assim por diante. Por trás da ferramenta, está a convicção de Zuckerman de que o papel do cidadão não é apenas reclamar do administrador de plantão, mas também fiscalizar os poderosos, medir sua performance e eventualmente colaborar. "A esperança é que a confiança nos governos seja recuperada e que os governos se tornem mais dignos de confiança", diz. Na entrevista a seguir, ele fala sobre os testes do Promise Tracker e comenta os protestos ocorridos em junho, fruto de uma crise de "desconfiança pública", na visão dele.
Qual é a ideia por trás do Promise Tracker? 
Um professor da Universidade Columbia chamado Michael Schudson escreveu um livro há 15 anos em que afirmava que a maneira como pensamos a democracia está errada. Achamos que nossa tarefa é ler jornais e assistir a telejornais diariamente para saber o que os governantes estão fazendo e, a cada quatros anos, usar as informações que obtivemos para escolher nossos representantes. Isso estaria errado por duas razões. Primeiro, porque em geral não estamos tão bem informados sobre a vida pública. Em segundo, porque é inconcebível que as eleições sejam a única oportunidade em que damos nossa participação à vida pública. Qual seria o sistema mais participativo? Aquele em que a tarefa mais importante do cidadão é monitorar as tarefas do governo. É um trabalho habitual dos jornalistas, mas que poderia de certa forma ser executada também pelo cidadão. Monitorar governantes é uma forma vital de exercermos poder. Os movimentos de transparência pública já trabalham nesse sentido, mas se concentram no acompanhamento das despesas governamentais. É só uma parte do trabalho. Com o Promise Tracker, pretendemos monitorar tudo: um prédio cuja construção foi prometida está de fato sendo erguido? O trabalho está bem feito? Está no lugar certo? E assim por diante.

O que é possível monitorar? 
A melhor maneira de fazer isso é monitorar a situação da infraestrutura pública. Qual a condição das estradas? Elas estão melhorando com o passar do tempo? Quantas escolas foram construídas? Quantas vagas elas oferecem? Em São Paulo, há um movimento em favor do uso das bicicletas para o deslocamento, embora pedalar seja uma atividade reconhecidamente perigosa na cidade. Seria possível mapear, por exemplo, os locais onde houve mais acidentes ou onde há mais obstáculos aos ciclistas. Essas são coisas concretas e podem ser monitoradas.

Como está sendo feito o teste em São Paulo? 
Em São Paulo, o prefeito é obrigado a publicar suas promessas. A atual gestão apresentou 123 objetivos de governo. Entre elas, há por exemplo o compromisso de implementar 100 quilômetros de linhas de ônibus. Vamos alimentar o Promise Tracker com essas informações, iniciar o monitoramento e averiguar se as promessas estão sendo cumpridas ou não. Dezenove conselheiros municipais e cerca de dez pessoas da ONG Nossa São Paulo participaram do workshop do Promise Tracker, além de cerca de quarenta pessoas em Belo Horizonte. Seremos então responsáveis por atualizar o programa, localizar os dados recolhidos pelos usuários e colocá-los no mapa. Nosso trabalho é prover a ferramenta. O uso que será dado a ela depende de seus usuários. A Nossa São Paulo, por exemplo, planeja criar um site para que os usuários acrescentem mapas e dados relativos ao monitoramento de um objetivo. São tarefas nas quais os cidadãos podem ajudar o governo. A corrupção muitas vezes não se dá quando o governante coloca dinheiro no bolso, mas quando a administração pública faz o pagamento para que alguém realize um trabalho e a tarefa não é feita.

De que forma esse monitoramento pode pressionar o governo a melhorar sua atuação? Durante nossa passagem por Belo Horizonte, os participantes do workshop foram incentivados a fotografar pontos em que lixo se acumulava na favela Santa Luzia. A partir daí, vemos três formas possíveis de ação. A comunidade pode fazer um mapa mostrando os pontos de acúmulo de lixo, procurar o governo e dizer: "Vejam, mapeamos a situação. Agora, vocês precisam nos apresentar um calendário de coleta." No segundo cenário, os moradores procuram a imprensa, que pode amplificar a queixa. Finalmente, com os dados em mãos, a própria comunidade pode tentar resolver o problema. São três caminhos válidos. Eu espero que o primeiro seja bem-sucedido, pois acredito que os governos são de fato importantes. A falta de confiança nos governos que testemunhamos é consequência do fato de que o governo não percebe que é responsável pelas pessoas e essas pessoas, por sua vez, não sabem como influenciar seus governos.

O senhor acompanhou os protestos ocorridos no Brasil em junho do ano passado? Qual é sua impressão? 
Eu almocei com o prefeito Fernando Haddad durante minha visita a São Paulo. Ele leva a sério a ideia de transparência. E está muito frustrado porque queria mais dinheiro proveniente de impostos sobre a propriedade (IPTU) e das tarifas de ônibus para realizar projetos para a cidade. Porém, toda vez que ele tenta fazer isso as pessoas dizem: "Não acreditamos que o governo nos dará alguma coisa em troca." Ele sabe, portanto, que é uma questão de confiança. Deixe-me construir um paralelo com o que aconteceu na Nigéria. O movimento Ocupe Nigéria, que tomou as ruas do país africano, começou por causa de uma mudança na taxação da gasolina. O país mantinha um subsídio ao combustível, o que favorecia as classes mais abastadas, porque lá os veículos ainda são privilégio dos ricos. Quando o governo cortou o subsídio, e os preços do combustível subiram, as pessoas foram às ruas queimar pneus, inclusive as pobres. Por quê? Quando os subsídios foram cortados, os preços da água, do transporte, entre outros itens, também subiram. Tentando contornar a crise, o governo disse que usaria o dinheiro economizado com o corte de subsídios para construir escolas e hospitais, mas o povo respondeu: "Não acreditamos em você. Não acreditamos que o governo possa resolver nossos problemas. Vocês retiraram a única coisa que tínhamos: combustível barato."

É o que, na sua opinião, acontece no Brasil? 
De certa forma, sim. O prefeito prometeu fazer muitas coisas pela cidade, mas precisava de mais dinheiro. As pessoas responderam: "Nós não acreditamos em você." É uma questão de desconfiança pública. O desafio é: como reconstruir essa confiança. Uma das razões que me levou a construir o Promise Tracker é a possibilidade de fazer com que as pessoas gostem mais dos governos. O monitoramento do cidadão não é contra o governo. Ele pretende ajudar as pessoas a perceber que o trabalho do cidadão não é apenas reclamar, mas também reunir dados que revelem quais queixas são justificadas e quais são efeito da falta de confiança no governo. A esperança é que a confiança seja recuperada e que o governo se torne mais confiável. Precisamos encontrar um caminho em que faça sentido confiar no governo. Ainda estamos no começo desse processo, é claro. Estamos falando de mudança, da transição de um modelo em que você pede a um político que ele resolva seus problemas para outro em que você estuda o problema, reúne dados, analisa informações e trabalha com os políticos para resolver o problema.




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