quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Quando se planeja - e o planejamento é deixado de lado - para corromper





Meus caros, no Brasil, o planejamento é desdenhado para, sobretudo, favorecer a corrupção. Por isso os prazos são ignorados, tudo fica para a última hora, o substantivo só é providenciado no apagar das luzes, então, a necessidade de viabilizar os projetos justifica a ‘criatividade’ quanto à elaboração de novos ordenamentos legais; preços astronômicos, custos superfaturados  e praticas inaceitáveis passam a ser tolerados; o exemplo mais eloquente?, a copa do mundo de futebol.

Na China, ao contrário do que ocorre aqui, a estratégia é planejar à exaustão, cuidar do detalhamento criterioso, investir nos planos de curto, médio e longo prazos... aqui se planeja quase nada para viabilizar o quase tudo oriundo da gatunagem; na China, se planeja quase tudo também para viabilizar a... gatunagem. Tanto lá como cá, os objetivos são os mesmos, cuidar da perpetuação dos grupos de interesses, manter o status quo, assegurar o 'desenvolvimento sustentável' aos olhos do povo e do mundo, mas nos subterrâneos, no submundo da vadiagem, dar plena vazão à corrupção...

Leiam abaixo matéria que extraí do jornal espanhol El Pais:

CHINALEAKS
Os escândalos de corrupção erodem o poder comunista
O enriquecimento das elites aumenta o mal-estar dos cidadãos com o crescimento dos escândalos
153 deputados figuram entre os 1.000 chineses mais ricos

No lado norte da Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em Pequim, um retrato gigante de Mao Tsé-Tung domina a entrada da Cidade Proibida, lugar dos imperadores durante quase 500 anos. O quadro –objeto de veneração de toda uma geração de chineses, educados desde a infância no culto ao líder e ao Partido Comunista da China (PCC) – é utilizado como fundo de fotografias que milhões de turistas nacionais e estrangeiros tiram todos os anos quando chegam como peregrinos para uma visita à mais famosa das praças do país.
Pouco resta hoje da herança ideológica e das teorias do fundador da República Popular da China, criada em 1949 depois de os comunistas de Mao vencerem os nacionalistas de Chiang Kai-Shek na guerra civil. O Grande Timoneiro morreu em setembro de 1976, e seu sucessor, Deng Xiaoping, desmontou com habilidade e pragmatismo a herança maoísta e conduziu a China em um processo de abertura e reformas, que desencadeou uma das maiores e mais velozes transformações experimentadas por um país na história da humanidade.
O Pequeno Timoneiro estabeleceu uma economia de mercado socialista, baseada no chamado socialismo com características chinesas, que substituiu a economia central planificada soviética imperante com Mao, e exortou seus compatriotas a trabalharem pelo progresso chinês com a famosa frase “Ser rico é glorioso”, que se converteria no mantra de um país ansioso por deixar a pobreza para trás.
Enquanto nas capitais prolifera o luxo, em certas zonas rurais não há água corrente
Mas com o salto ao capitalismo e a reestruturação da economia chegou o rápido enriquecimento de um setor da população, graças, em muitos casos, às suas relações com o partido e à corrupção, um flagelo que afeta atualmente todas as camadas da sociedade, mas alcançou seu auge entre representantes das elites políticas e empresariais, até o ponto em que os próprios dirigentes reconheceram que se trata de um sério perigo para a sobrevivência do PCC.
O mundo de Mao –aquele da sociedade igualitária, a eliminação das classes endinheiradas e a supressão da propriedade privada– já é apenas uma recordação nostálgica entre os mais velhos, dos quais muitos olham com irritação para os excessos de uma parte da classe dirigente e têm saudade dos tempos em que as pessoas acreditavam em uma quase religião chamada comunismo, e não apenas em “ser rico”.
Funcionários corruptos tiraram 290 milhões de reais da China ao longo de 15 anos
Em maio do ano passado, a inclusão de Kong Dongmei, neta de Mao Tsé-Tung, uma lista das pessoas com as maiores fortunas do país provocou uma onda de críticas e acusações de hipocrisia nas sempre ativas redes sociais chinesas, apesar de muitos dos internautas terem nascido quando o Grande Timoneiro já era um corpo embalsamado exposto em seu mausoléu de Tiananmen. Kong, com pouco mais de 40 anos, e seu marido, Chen Dongsheng, ocupavam a posição 242 da classificação da revista financeira Nova Fortuna, com uma riqueza estimada em 5 bilhões de yuans (1,9 bilhão de reais). Kong abriu em 2001 uma livraria em Pequim com publicações sobre Mao, depois de ter estudado nos Estados Unidos. Em 2011, casou-se com Chen, que controla uma companhia de seguros e uma casa de leilões, entre outros negócios.
Alguns internautas chineses acusaram Kong de trair a posição de seu avô, o “grande mestre da revolução proletária”. “A descendente do presidente Mao, que nos conduziu à erradicação da propriedade privada, se casou com um capitalista”, criticou Luo Chongmin, um conselheiro governamental.
A neta de Mao é somente uma entre os muitos casos de parentes e pessoas próximas aos heróis da revolução e empresários que enriqueceram até extremos inesperados nas três décadas transcorridas desde o início das reformas, graças às suas conexões com o poder.
Um estudo divulgado em junho de 2012 pela agência norte-americana de notícias Bloomberg revelou que, à medida que o hoje presidente Xi Jinping ascendia na hierarquia do Partido Comunista da China, membros de sua família, tanto a de sangue como a política, expandiram seus interesses empresariais com participações em companhias dos setores mineiro, imobiliário e de telecomunicações. Segundo documentos aos quais a agência teve acesso, esses interesses incluem investimentos em empresas com ativos de 275 milhões de euros (872,7 milhões de reais), uma participação indireta de 18% em uma empresa de terras raras com 1,26 bilhões de euros em ativos (4,02 bilhões de reais) e uma holding de 14,8 milhões de euros (46,97 milhões de reais) em uma companhia acionária. Nenhum dos bens estava ligado a Xi, sua mulher – Peng Liyuan– ou sua filha, nem havia indícios de que Xi tivesse atuado para favorecer as operações de seus parentes ou que ele ou seus familiares tivessem cometido algum delito.
Os documentos mostraram que a família tinha ao menos sete propriedades em Hong Kong; entre elas, um chalé avaliado em 23,1 milhões de euros (73,3 milhões de reais. A maioria dos ativos da família era propriedade da irmã mais velha de Xi Jinping, Qi Qiaoqiao; seu marido, Deng Jiagui, e a filha de Qi, Zhang Yannan. Xi ascendeu a secretário-geral do PCC em novembro de 2012 e a presidente da China em março de 2013.
Outra investigação, realizada pelo The New York Times e publicada em outubro de 2012, revelou que familiares do primeiro-ministro entre 2003 e 2013, Wen Jiabao, entre os quais sua mãe, filho, filha, irmão mais velho e cunhado, ficaram “tremendamente ricos” durante o tempo de Wen no poder. “Um exame dos registros empresariais e regulatórios indica que os parentes do primeiro-ministro, entre os quais alguns com facilidade para realizar negócios, incluindo sua mulher, controlavam ativos de 2,7 bilhões de dólares (6,37 bilhões de reais)”, apontou o levantamento.
A informação sobre a família Wen foi compilada a partir de registros existentes em corporações e órgãos regulatórios entre 1992 e 2012. Os investimentos abrangem desde o setor bancário a complexos turísticos, telecomunicações, joalheria e projetos de infraestrutura. Os nomes dos proprietários dos ativos foram com frequência ocultados mediante a utilização de empresas offshore ou estruturas empresariais complexas. A maioria da fortuna foi acumulada desde a nomeação de Wen para primeiro-ministro em 1988. O diário não encontrou nenhum grupo de empresas no nome do próprio Wen.
Os resultados do estudo, publicados três semanas antes da renovação da cúpula do partido, com a chegada ao poder de Xi Jinping e os outros seis membros do Comitê Permanente do Politburo (o órgão máximo de poder), desatou a ira de Pequim e representou um duro golpe para a credibilidade de Wen Jiabao, que havia cultivado com zelo durante seu mandato uma imagem de homem austero, próximo ao povo e reformista, que lutava contra os abusos e a corrupção dentro do partido.
Como publica hoje EL PAÍS, tanto familiares de Xi como Wen recorreram a paraísos fiscais por meio de empresas criadas por eles mesmos ou sua participação em outras já constituídas, segundo revelam os arquivos obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, em inglês). É o caso de Deng Jiagui – cunhado de Xi – e o filho e o genro de Wen Jiabao –Wen Yusong e Liu Chunhang, respectivamente.
A nobreza vermelha e as elites empresariais se enriqueceram e se beneficiaram de sua posição privilegiada, em meio ao desencanto e o ressentimento de uma parte da população, que dá como certo que eles obtiveram o êxito graças às suas boas conexões e relações, o que na China é conhecido como guanxi.
A disparidade entre ricos e pobres no país asiático está entre as maiores do mundo, algo que há alguns anos os líderes tentam resolver, sem muito sucesso. Enquanto nas ruas das grandes cidades como Pequim e Xangai há grande quantidade de carros esportivos Ferrari, Lamborghini e Porsche, dirigidos por filhos de grandes empresários e danomenklatura, nas zonas rurais ainda há muitos povoados sem água corrente, ruas asfaltadas e saneamento básico.
Segundo a lista Hurun dos Mil Mais Ricos da China em 2013, publicada em setembro passado pelo instituto de pesquisas de mesmo nome, situado em Xangai, o número de bilionários em dólares passou de nenhum há uma década a 64 em 2012 e a 315 em 2013. O mais rico nessa classificação, elaborada pelo empresário britânico Rupert Hoogewerf, é o magnata do setor imobiliário e de lazer Wang Jianlin, com uma fortuna estimada em 16,13 bilhões de euros (51,19 bilhões de reais). Wang, de 59 anos, proprietário da companhia Wanda, é dono do maior número de salas de cinema do mundo. A média de idade dos 10 mais ricos é de 52 anos. Dos integrantes da lista, 153 são membros da Assembleia Popular Nacional ou de seu órgão consultivo.
Alguns dos potentados o são graças à corrupção. A lista de empresários e políticos investigados nos últimos anos pelo que a imprensa oficial chama eufemisticamente de “violação da disciplina do partido e da lei” cresce sem parar. Entre outros, destacam-se os nomes de Bo Xilai, ex-secretário do partido no município de Chongqing e ex-membro do Politburo, e Liu Zhijun, ex-ministro de Ferrovias. A China figura em 80º. lugar entre os 177 países e territórios incluídos num ranking de percepção da corrupção feito pela Transparência Internacional em 2013. Uma posição mais alta indica um setor público mais limpo.
Muitos dos que enriqueceram durante o boom econômico chinês levaram suas fortunas para fora do país. Funcionários corruptos tiraram da China 124 bilhões de dólares (290,6 bilhões de reais) procedentes de desfalques ou obtidos ilegalmente em um período de 15 anos, segundo um relatório do banco central chinês publicado pelo Financial Times em 2011. Cerca de 17.000 membros do partido, funcionários judiciais e executivos de empresas estatais abandonaram a China entre meados dos anos 1990 e 2008, ano em que foi redigido o relatório. O estudo foi publicado em junho de 2011 no site do departamento do BC chinês encarregado da luta contra a lavagem de dinheiro, mas foi retirado rapidamente, depois que começou a causar reações de protesto.
A nova geração de líderes, chegados ao poder no congresso quinquenal do PCC em 2012, empreendeu uma cruzada contra a corrupção, já que ela é vista como uma ameaça à sobrevivência do partido. Assim voltou a recordar recentemente Xi Jinping. “Evitar que o Partido seja corrupto no governo no longo prazo do país é uma missão política fundamental. E devemos fazê-lo de forma correta”, disse ele na segunda-feira da semana passada durante uma reunião da Comissão Central de Inspeção da Disciplina do PCC. Xi prometeu tolerância zero com os subornos e disse que castigaria com dureza os implicados. “Cada funcionário do PCC deve ter em mente que todas a mãos sujas serão apanhadas.”
A imprensa oficial respaldou em cheio a campanha de Xi. O Diário do Povo – órgão partidário oficial – publicou editoriais em que advertia aos funcionários que “o culto ao ouro e às posses materiais” são uma via para a ruína.
Pequim começará este ano realizando investigações aleatórias sobre os ativos e outras informações pessoais que os funcionários devem oferecer ao partido, e castigará aqueles que ocultarem bens, perante a pressão pública para que haja maior transparência. As declarações não são divulgadas ao público, e no passado a falta de supervisão praticamente reduziu o sistema a uma mera formalidade.
A decisão de Deng Xiaoping e de seus mais chegados de protegerem a supremacia do PCC os levou a colocar suas famílias à frente da abertura e da reforma lançadas em 1978, o que resultou na concentração de riquezas e poder nas mãos de alguns poucos. Na década de 1980, muitos desses parentes foram escolhidos para dirigir os conglomerados estatais. O processo de desenvolvimento teve início e tirou centenas de milhões de chineses da pobreza. Mas com ele vieram também a corrupção e o enriquecimento desmesurado de uma parte da população. A sociedade igualitária deixou de sê-la.

Mais, aqui. E aqui.




quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

“Planejamento de puxadinhos”






Meus caros, muito elucidativo o texto que vai abaixo. É da lavra do economista e fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas, Gil Castello Branco. Demonstra a lógica que permeia as ações governamentais, sempre ao largo dos princípios do planejamento, glorificando-os sempre na oratória e no proselitismo politiqueiro, mas, no dia a dia, tratando-os a açoites e pontapés, o tal “planejamento de puxadinhos”... Leiam e me darão razão...


O sistema penitenciário brasileiro é ineficiente e brutal. Condenados ou não, milhares de presidiários são amontoados como detritos. Assim, sobrevivem se revezando para dormir, seminus, doentes, sem água por dias a fio, em temperaturas de até 50 graus.
O Estado omisso foi substituído por facções que comandam os complexos penitenciários. Enquanto isso, parte da sociedade, indignada pela violência crescente, curte silenciosa a vingança. Um eventual big brother venderia horrores, literalmente.
Nesse ambiente, a frase rabiscada em um cárcere na Bahia parece ameaçadora: “Hoje estou contido, amanhã estarei contigo.”
Os números são impressionantes. O Brasil tem cerca de 550 mil presos, a quarta maior população carcerária do mundo. Nesse G4 só ficamos atrás de Estados Unidos, China e Rússia. No entanto, a capacidade máxima das 1.312 unidades prisionais brasileiras é de aproximadamente 310 mil detentos, o que gera déficit de 240 mil vagas. Essa situação seria atenuada caso o Judiciário fosse mais ágil, pois quase 40% dos detentos são presos provisórios, com processos não julgados. Por outro lado, existem 500 mil mandados de prisão expedidos e não cumpridos.
A depender das leis, teríamos, há muito tempo, presídios no padrão Fifa. Na Constituição do Império (1824), embora fosse admitida a pena de morte, já havia disposições que protegiam os presos de penas cruéis, torturas, açoites e marcas de ferro quente, assim como determinações acerca do local do encarceramento que deveria ser limpo, bem arejado, com separação dos réus de acordo com os crimes pelos quais foram condenados. Pura balela.
Mais recentemente, em 7 de janeiro de 1994, foi criado o Fundo Penitenciário Nacional (Funpen), com a finalidade de proporcionar recursos e meios para financiar programas de aprimoramento do Sistema Penitenciário Brasileiro. Paradoxalmente, na véspera de o Fundo completar 20 anos, Ana Clara, uma menina de 6 anos, morreu queimada no Maranhão, em incêndio deflagrado por ordem direta de presidiários do Complexo de Pedrinhas.
No Funpen, dinheiro não é problema. Como, por lei, 3% das loterias e 50% das custas processuais destinam-se ao Fundo, desde a sua criação já foram amealhados cerca de R$ 6,7 bilhões, em valores atualizados. No entanto, como esclarece relatório do próprio Ministério da Justiça, “os repasses do fundo são classificados como transferências voluntárias, ou seja, não decorrem de obrigação constitucional ou legal e, dessa forma, suas dotações orçamentárias fazem parte da chamada base contingenciável que o governo federal dispõe para obtenção do superávit primário”.
Nos últimos 13 anos, dos R$ 4,5 bilhões autorizados no orçamento da União, apenas R$ 1,9 bilhão (41%) foi efetivamente desembolsado. Apesar de o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ter dito, no final de 2012, que preferia morrer a ficar preso, a execução do Funpen, no ano seguinte, sob a responsabilidade de sua pasta, continuou pífia. Dos R$ 384,2 milhões autorizados, apenas R$ 73,6 milhões (19%) foram pagos, incluindo os restos a pagar.
Como o dinheiro entra, mas não sai, cresce o caos no sistema penitenciário, enquanto o saldo contábil do Funpen é atualmente de R$ 1,8 bilhão! A meu ver, cabe ao Ministério Público ajuizar ação por crime de responsabilidade contra as autoridades que determinam ou são coniventes com esse “contingenciamento” em área tão crítica.
Enfim, falta gestão! A conscientização dos cidadãos para que aceitem presídios (seguros) em suas cidades, a maior integração entre os órgãos federais, estaduais e municipais, a criação de um sistema integrado de segurança pública, as formas de reinserção de ex-presidiários na sociedade, a implantação das penas alternativas, o monitoramento eletrônico e a privatização de presídios são temas consensuais que ainda não produziram resultados com repercussão nacional. As crises não podem resultar somente em ameaças veladas de intervenção, quando o estado é governado por adversários políticos, ou em bajulação, quando administrado por aliados.
As cadeias são, há muito tempo, as universidades do crime. A reincidência é de aproximadamente 70%. Por isso, talvez seja difícil imaginar que a expressão “hoje estou contido, amanhã estarei contigo” possa envolver emoção, sentimento e significar um reencontro com a própria vida. Mas a frase é de um detento recuperado prestes a deixar a penitenciária e expressa saudade e afetividade. Afinal, diz o ditado, a única prisão paradisíaca é a paixão.



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Falhas estruturais e de planejamento


Cobertura de obra de Calatrava em Valencia começa a ser desmontada

      Casa de Ópera de Valência, na Espanha, projetada por Santiago Calatrava
Da Folha de São Paulo

Operários já começaram a remover a cobertura de fragmentos de azulejos do Palácio das Artes, a ópera de Valencia, desenhada pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, depois que pedaços do telhado despencaram no final de dezembro, interditando o prédio.
A operação de substituição da cobertura por uma provisória de placas de alumínio custará R$ 9,7 milhões. Segundo autoridades da cidade espanhola, o escritório de Calatrava e as construtoras Acciona e Dragados deverão arcar com a despesa.
Até 10 de fevereiro, todo o mosaico da cobertura, que, segundo especialistas, está danificado em 60% de sua extensão, deverá ser removido, a tempo da estreia, em 23 de fevereiro, da ópera "L'Italiana in Algeri", de Rossini. O problema com o telhado em dezembro levou ao adiamento da estreia do espetáculo "Manon Lescaut", que agora ficou para o outono espanhol.
Este é apenas um dos problemas enfrentados pelo badalado arquiteto espanhol, que responde a processos no resto da Espanha e da Europa por falhas estruturais e de planejamento em seus megaprojetos.

 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

‘Terra à vista’... seria "tsunami à vista"



Em um ano de eleições, políticas artificiais com finalidade meramente eleitoreiras e um conjunto de magias e malabarismos a que se resolveu denominar contabilidade criativa, objetivam esconder uma realidade que teima em se mostrar cada vez mais, de forma ostensiva, eloquente, nua e crua...

Produtividade do Brasil cai pelo terceiro ano consecutivo
Da Veja

Mesmo com as projeções de um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 2% em 2013, a produtividade do Brasil segue patinando. Pelo terceiro ano consecutivo, houve queda no indicador. O índice recuou 0,9% no ano passado. Em 2012, a perda foi de 1,9% e em 2011, de 0,4%. Os dados foram divulgados pelo Conference Board, renomado instituto de pesquisas sobre produtividade que possui parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) no país.
O estudo mostra que o recuo ocorreu na produtividade total dos fatores, conceito usado para mensurar o quanto a economia produz levando em conta uma mesma quantidade de capital e horas trabalhadas. Tal indicador é considerado o componente mais importante na avaliação das perspectivas de crescimento econômico no longo prazo. "O resultado revela ineficiências no uso dos recursos, incluindo infraestrutura inadequada, alta carga tributária trabalhista e investimentos insuficientes em tecnologia", informa o comunicado do instituto.
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Contra inflação, consumidor retoma 'compra de mês' em supermercado
Da Folha de São Paulo

Depois de sentir no bolso a escalada da inflação nas compras do supermercado ao longo de 2013, o consumidor começa a adotar estratégias para compensar o aumento dos preços e evitar novas surpresas neste ano.
Mais, aqui.


Para Banco Mundial, Brasil deve crescer 2,4%, abaixo da média global
Do Estadão

O Brasil deve ter uma das menores taxas de crescimento este ano entre os países emergentes, prevê o Banco Mundial. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve se expandir 2,4%, maior apenas que as taxas previstas para o Irã e o Egito, respectivamente de 1% e 2,2%, de acordo com números citados no relatório "Perspectiva Econômica Global 2014", divulgado nesta terça-feira.

O Brasil deve também crescer menos que a economia global, com expansão prevista de 3,2% em 2014, e que os países em desenvolvimento (média de 5,3%), prevê o Banco Mundial. A instituição, porém, está mais otimista com o País que economistas brasileiros. O mercado financeiro, de acordo com o Relatório Focus, do Banco Central, espera crescimento de 1,99% este ano.
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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

ISRAEL: alta tecnologia e segurança cibernética!



 
Israel no topo da revolução cibernética

De Jorge Castro no Clarín

O rápido crescimento da plataforma global de computação ("cloud computing" / "a nuvem"), nos últimos cinco anos, revelado pelo boom dos telefones celulares (smartphones), mudou a natureza da indústria de alta tecnologia e concedeu a seus núcleos decisivos - entre eles, Israel – um poderio qualitativamente superior. A estrutura de custos da indústria de alta tecnologia (high tech) cai 20% / 30% por ano e no horizonte da "nuvem", isso pode chegar a quase zero (0%).

O surgimento da "nuvem" significa para Israel ter deixado para trás sua condição de inovador primário ("nação start-up"), dotado de uma extraordinária capacidade de criação de novos negócios, mas geralmente de curta duração, prontas para serem compradas por grandes empresas dos EUA (Apple, Cisco, Google, Intel, HP). Atualmente tornou-se um gerador de empresas próprias de projeção global, o que coloca Tel Aviv no mesmo patamar, apenas um pouco menor do que o Vale do Silício.

Israel investe 4,3% do PIB no desenvolvimento científico e tecnológico (I & D), o dobro da média da OCDE (1,8%) e os investimentos estrangeiros de alta tecnologia alcançaram 11 bilhões de dólares nos últimos 10 anos, duas vezes o obtido pela Índia, e metade do investido pela China, e todas as grandes empresas de alta tecnologia dos EUA levaram laboratórios de pesquisa e desenvolvimento para o território de Israel.

A Indústria israelense de alta tecnologia é focada em telecomunicações, principalmente em aplicações móveis, e sua especialização principal é tecnologia ligada à segurança da comunicação (segurança cibernética). Todo este complexo, incluindo a "Unidade 8200", mudou-se agora para o deserto de Negev, com eixo na Universidade de Beersheba, perto de Eilat, no Mar Vermelho.

O objetivo é fazer com que Israel se transforme em líder da segurança cibernética do mundo, abrangendo nesse papel de vanguarda as indústrias adjacentes. Na política internacional do século XXI, o poder não depende de território, população, arsenais militares ou produto bruto. Israel também é um ator global, somente com 8 milhões de pessoas, mas que lidera uma das principais correntes do século.

 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A nova tecnologia: impressora 3D



Caça britânico voa usando componentes feitos em impressora 3D
Da Folha de São paulo e The Guardian

A BAE Systems, companhia britânica de tecnologia militar e aeronáutica, anunciou ter realizado no mês passado o primeiro voo de caça usando partes que haviam sido confeccionadas em impressoras 3D.

O emprego da tecnologia pode significar uma economia de 1,2 milhão de libras esterlinas (R$ 4,7 milhões) ao longo dos próximos quatro anos, diz a companhia.

Entre os componentes feitos por meio da técnica, estava capas protetoras para o comunicador de rádio do piloto e uma alavanca de partida. Algumas das partes, segundo o jornal "Guardian", custaram menos de 100 libras esterlinas (R$ 390) para serem feitas.

"Você, de repente, não está mais engessado em termos de onde você precisa produzir essas coisas", disse à publicação inglesa Mike Murray, chefe de integração de partes aéreas na BAE Systems. "Você pode criá-las na base que quiser –dado que consiga uma máquina [de impressão 3D] lá–, o que significa que você pode apoiar outros tipos de segmento, como naval e porta-aviões."

"E, se for possível levar máquinas ao front [de batalha], isso também poderia incrementar possibilidades [tecnológicas] onde não poderíamos ter qualquer tipo de apoio de produção", disse.

 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Capitalismo de Estado patrimonialista



No lugar de insistir numa reforma de cima para baixo, governo deveria voltar à federação, dar autonomia aos Estados e aos municípios em todas suas esferas
André Lara Resende, no Estadão

O sentimento em relação ao Brasil no exterior mudou em 2013. O otimismo no País já vinha em queda há algum tempo, mas a percepção externa parece ter finalmente alcançado - e até mesmo ultrapassado - o recente desalento doméstico. A evidente deterioração da situação fiscal brasileira - apesar do uso de todo tipo de manobras contábeis para impedir que a extensão da piora fique clara - é o fator mais preocupante para analistas e investidores estrangeiros. A queda do superávit primário se refletiu num aumento do prêmio de risco, medido pelo seguro financeiro contra a probabilidade de calote - os chamados CDS - da dívida brasileira.

A alta do prêmio de risco, se entendido como a probabilidade de o país vir a ter problema de solvência com sua dívida pública, como ocorreu no passado recente, parece-me despropositado. A dívida em moeda estrangeira, especialmente a dívida pública, é pequena, não passa de 5% do PIB. Mesmo a dívida bruta total, que os truques contábeis têm menos capacidade de maquiar, está entorno de 60% do PIB. É alta, mas está longe de ser preocupante. O prêmio de risco reflete um desconforto mais difuso sobre o futuro do país. Os problemas são muitos, a grande maioria deles não é nova, mas há uma dimensão especialmente grave no atual quadro brasileiro: um Estado despreparado, patrimonialista, com objetivos próprios, dissociados da sociedade.
Desde a estabilidade monetária, o país vinha fazendo avanços sistemáticos na ordenação das finanças públicas. A carga fiscal passou de 25% para 36% do PIB e a dívida pública estava em queda. O processo foi revertido a partir de 2008. É preocupante, mas o problema do Estado brasileiro, hoje, não é de solvência, nem de descontrole macroeconômico, que poderia ser revertido, mas o fato de atuar contra a sociedade, a favor de seus interesses próprios. O custo do Estado está hoje perto de 40% da renda anual, equivalente aos mais altos do mundo, mas seu desempenho é abaixo da crítica.

O papel do Estado sempre foi um tema polêmico. Durante o século 20, tomou contornos ideológicos tão demarcados que praticamente inviabilizou o debate sereno e reacional. Parece inevitável que sociedades maiores e mais complexas sejam mais difíceis de ser administradas, exijam mais das empresas, das instituições e também do Estado. Há uma inexorável correlação entre tamanho e complexidades em toda empreitada humana. O mundo está superpovoado e definitivamente interligado pelo avanço das comunicações e da informática. A questão da escala e da complexidade está em toda parte, mas é ainda mais grave onde é menos reconhecido: na esfera da vida pública. As sociedades modernas se sofisticaram, tornaram-se mais complexas. O Estado foi obrigado a crescer para atender às suas novas funções.
Em livro de 2011, Vito Tanzii faz uma isenta e ponderada análise do inexorável avanço do Estado sobre todas as esferas da vida. O peso do Estado cresceu sistematicamente em toda parte do mundo. A proporção da renda extraída da sociedade pelo Estado, que era geralmente inferior a 10% no início do século 20, dobrou lá pela metade do século, até atingir mais de 40%, neste início de século 21. O avanço foi sistemático, sobretudo a partir da década de 30.

Quando se exige mais do Estado, é razoável que o seu custo suba, mas espera-se que haja alguma correlação entre o custo e o serviço prestado, entre o custo e a qualidade do Estado. Não foi o que ocorreu no Brasil. Ao contrário, a rápida elevação recente da fatia da renda extraída da sociedade não foi acompanhada pelo investimento em infraestrutura. Houve séria deterioração da segurança pública e um dramático aumento da criminalidade. Não houve melhora digna de nota nem na educação, nem na saúde. O saneamento e o transporte público continuam abaixo da crítica.
Notícias recentes indicam que mais de 20% das pessoas - até 50% em alguns Estados - dizem terem sido vítimas de assaltos nos últimos doze meses. O nível de compreensão da língua e da matemática dos alunos brasileiros, segundo resultados recém-divulgados do PISA, exame de avaliação internacional de estudantes conduzido pela OCDE, é deplorável. O Brasil continua entre os últimos colocados, junto com a Albânia, a Tunísia e a Jordânia, muito abaixo do Chile e do México.

O World Economic Forum publica anualmente um índice global de competitividade. O Brasil caiu para o 56.º lugar este ano. Ocupa o 80.º lugar em relação ao funcionamento das instituições e a 124.ª posição em relação à eficiência do governo. A educação está na 121.ª posição e a confiança nos políticos, na 136.ª. Os bolsões de excelência tecnológica e a qualidade do empresariado ocupam a 36.ª e a 39.ª posições. As estatísticas e os rankings apenas confirmam uma realidade perceptível a olho nu: o Estado brasileiro não está à altura do estágio de desenvolvimento do País.
A herança patrimonialista, misturada aos desafios de um país grande e desigual, a meio caminho para o mundo desenvolvido, criou um Estado caro, ineficiente e, sobretudo, disfuncional. Um Estado cujo único objetivo é viabilizar a expansão de seu poder e de suas áreas de influência. Um Estado que cria uma regulamentação kafkiana, com exigências burocráticas cartoriais absurdas, cujo resultado é aumentar custos, reduzir a produtividade e complicar todas as esferas da vida. O patrimonialismo do Estado brasileiro, sua incapacidade de respeitar os limites e os deveres em relação à sociedade, tem longa tradição, mas toma novos contornos com a sofisticação da economia, com a chegada do País à sociedade do espetáculo e à democracia de massas. O uso e o abuso das técnicas publicitárias, a criação de dificuldades de toda ordem para a venda de facilidades, a simbiose com cultura dos direitos especiais adquiridos e a aliança com grupos econômicos selecionados são a nova face do velho patrimonialismo.

Crítica. Diante da polarização do debate, a crítica ao patrimonialismo do Estado tende a ser desqualificada como uma reação conservadora aos avanços da cidadania. Cada uma das dimensões do progresso da cidadania - a civil, a política e a social - enfrentou, a seu tempo, fortes reações ideológicas. O século 18 foi palco da luta pela cidadania civil, pelos direitos de opinião, de expressão e à justiça. No século 19, avançaram os aspectos políticos da cidadania, o direito ao voto e de participação política. Finalmente, no século 20, sobretudo a partir da década de 30, houve o avanço da dimensão social, com a criação dos sistemas de assistência e previdência, de educação e de saúde pública, capazes de garantir um padrão de vida mínimo para o exercício das demais dimensões da cidadania.
Adotado depois da grande crise do capitalismo do início dos anos 30 do século 20, o Estado Assistencialista foi uma forma de aliviar as pressões sociais e o apelo do comunismo marxista, mas nunca deixou de enfrentar resistência. Resistência que encontrou na teoria econômica um poderoso aliado. A economia sempre teve um de seus pilares na tese de que os mercados competitivos tendem ao equilíbrio eficiente. O mercado competitivo é uma construção intelectual, uma referência importante para a alocação eficiente de recursos, mas a polarização ideológica levou a uma inferência indevida: a de que toda interferência governamental sobre o livre mercado seria contraproducente.

Com a vitória incontestável dos direitos sociais, a teoria econômica paga até hoje o preço político de ser percebida como intrinsecamente conservadora. Toda crítica à falta de critérios e à ineficiência do gasto público, sobretudo se embalado como gasto social, é tachada de reacionária e desconsiderada. No Brasil de hoje, o velho patrimonialismo do Estado se esconde por trás do assistencialismo. O patrimonialismo indefensável reveste-se de assistencialismo inatacável. Desde que sob o guarda-chuva de gasto social, toda sorte de abuso patrimonialista não admite questionamento.
A divisão do trabalho, o comércio internacional e os mercados são poderosos estímulos à criação de riqueza, mas dependem de leis, instituições e do Estado inteligentemente organizado. A complexidade do mundo contemporâneo exige do Estado ainda mais do que suas funções clássicas. As modernas sociedades democráticas requerem, necessariamente, algum tipo de assistencialismo distributivista, o que exige a coordenação do Estado. O desafio é ter um Estado competente, que contribua para uma sociedade melhor e cujos serviços justifiquem seu custo.

Um seminário recente, em Viena, em homenagem a Peter Drucker, reuniu expoentes da administração para discutir o tema da complexidade no mundo contemporâneo. Concordaram que a gestão dos negócios está mais complicada do que jamais foi e que a capacidade de lidar com a complexidade é prioridade na agenda dos empresários. Como em todas as outras esferas da vida contemporânea, os homens de negócios são confrontados com muito mais de tudo a todo tempo.
Duas linhas alternativas de interpretação se delinearam. A primeira é de que é preciso simplificar, concentrar em alguns poucos objetivos, dar às empresas um foco e uma direção para os que nela trabalham, ainda que por imposição, de cima para baixo. A segunda interpretação sustenta que a maior complexidade é apenas uma nova ordem, que exige a revisão do modo de se administrar. A revolução das comunicações e da informática tornou obsoleta a administração linear, de comando e controle, que deve ser substituída por uma nova, baseada em redes espontâneas de módulos autônomos. O mundo contemporâneo é não linear e as empresas, assim como as demais instituições, ainda não se adaptaram a essa não linearidade. O caminho a ser seguido é reconhecer a nova ordem e não insistir na tradicional gestão de comando e controle, pois é a imposição de um estilo anacrônico de gestão que é contraproducente na complexidade contemporânea.

As duas interpretações exprimem as alternativas para se lidar com a complexidade contemporânea, não apenas na vida empresarial, mas também na vida pública. A opção por simplificar, ainda que de cima para baixo, por concentrar em alguns objetivos claros e dar uma direção para o país, tem enorme apelo diante das dificuldades da democracia representativa. O encanto provocado pelo novo capitalismo de estado chinês é exemplo do apelo da simplificação autoritária. Como demonstrou a experiência soviética, é sempre possível acelerar o crescimento por meio da mobilização centralizada de poupança e do investimento estatal, com base em grandes planos, formulados a partir de um "projeto nacional" definido pelo Estado. A estratégia demonstrou ser bem-sucedida para as economias de baixa renda, onde as taxas de poupança e investimento são limitadas pelas necessidades básicas de consumo. Enquanto se percorre caminhos tecnológicos conhecidos, é possível acelerar autoritariamente o crescimento, mas quando a economia se aproxima da fronteira tecnológica, a estratégia do planejamento estatal deixa de obter resultados.
Tendo aprendido as lições do fracasso do planejamento central soviético, o capitalismo de estado chinês compreendeu que não poderia prescindir dos mercados. Usa as companhias estatais para garantir investimentos nos setores considerados estratégicos e utiliza empresas privadas escolhidas para dominar os mercados. Os resultados foram extraordinários, mas as tensões e desafios têm aumentado. Embora a China tenha dado sinais de que pode vir a aumentar o papel dos mercados, é pouco provável que a flexibilização mude a essência do modelo. Seu objetivo é manter o poder político concentrado na mão do Estado e a maximizar a probabilidade de perpetuação do governo.

Há uma diferença fundamental entre o Brasil e a China. A China tem uma tradição milenar de autoritarismo burocrático competente. O custo do Estado é menos de 30% renda e está em queda. Já a participação do Estado no investimento, na chamada formação bruta de capital fixo, é de 21% do PIB. Ou seja, só o investimento direto do Estado chinês é uma proporção maior da renda nacional do que todo o investimento brasileiro, público, privado e estrangeiro, que não chega a 19% do PIB. Na China, o Estado é competente, custa pouco e investe muito. No Brasil, o Estado é caro e incompetente, não investe, nem cumpre suas funções básicas.
É questionável se o investimento estatal direto ainda seria capaz de fazer a diferença e acelerar o crescimento no Brasil. O modelo foi adotado por aqui durante o regime militar. Depois de reformas modernizadoras, inteligentemente concebidas e adotadas com competência, as taxas de crescimento atingiram níveis de até dois dígitos, durante o chamado "milagre econômico", da primeira metade da década de 70. O seu esgotamento, a partir da década de 80, deixou um triste legado: o Estado deficitário e endividado, as empresas estatais esclerosadas e duas décadas de estagnação sob o signo da inflação crônica.

Modelo. Na última década, o Brasil se beneficiou do ganho nas relações de troca com o exterior. A alta dos preços dos produtos primários, provocada pela demanda da China, significou uma expressiva transferência de renda para o Brasil. Os governos do PT foram suficientemente inteligentes para manter as bases da política macroeconômica, mas passaram a desmontar as reformas que viabilizaram a estabilidade monetária. O processo se acelerou a partir da crise de 2008. Aparelharam o Estado, criaram novas estatais e elegeram parceiros privados incompetentes. Com a desculpa de praticar uma politica anticíclica, expandiram o gasto corrente do governo, mas não investiram em infraestrutura. O resultado é conhecido: baixa produtividade, uma economia que não cresce e contas públicas que se deterioram.
Não é possível saber se o capitalismo de estado chinês continuará bem-sucedido, mas uma coisa é certa: o capitalismo chinês requer um Estado competente e autoritário. No Brasil, não temos a requerida competência, nem desejamos - quero crer - o autoritarismo. Diante da complexidade do mundo contemporâneo, a tentação da solução autoritária estará sempre presente, mas o caminho mais promissor é o da alternativa delineada na conferência de Viena: não insistir na tradicional gestão centralizada, de comando e controle, mas avançar na descentralização. Um Estado autoritário e patrimonialista, sustentado pela demagogia, o marketing e a intimidação, onde apenas as aparências democráticas são respeitadas, é o caminho mais rápido para volta ao subdesenvolvimento. A fórmula, como demonstra sua aplicação na Argentina e em outros países vizinhos, é devastadora.

Não há como bem governar com o Estado disfuncional. A primeira tarefa de quem pretende fazer um bom governo será a de reconstruir o Estado. No lugar de insistir numa reforma de cima para baixo, de comando e controle, deveríamos experimentar a descentralização. Deveríamos voltar à federação, dar autonomia aos Estados e aos municípios em todas suas esferas, desde a fiscal, até a segurança, a saúde e a educação. Como escreveu Hirschman, no prefácio da edição alemã do seu Exit, Voice and Loyality: "Assim como os economistas, com a ênfase nas virtudes da competição (i.e. da 'saída'), não deram atenção à contribuição da 'voz', os cientistas políticos, com seu interesse na participação política e no protesto, negligenciaram o possível papel da 'saída' na análise do comportamento político." Tenho a impressão de que mais possibilidade da opção de "saída" em relação à "voz", isto é, de ter a opção de se mudar ao invés de protestar, é mais importante do que nunca, num mundo complexo e interligado.
Os mercados não são milagrosos, mas um pouco de competição no sistema político, sob o guarda-chuva de uma verdadeira federação, pode ser a única forma de viabilizar a complexidade contemporânea com a democracia e a existência de Estados eficientes e com mais respeito pelos contribuintes.

 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A burocracia afoga a sociedade civil brasileira


O excesso de trâmites exigidos pelos órgãos públicos e privados demora, frustra e encarece projetos e empresas dos cidadãos
Do El País

Demonstrar que uma pessoa é ela mesma, preencher infinitos formulários, apresentar inúmeros documentos, fazer fila em todas as janelinhas dos órgãos públicos... é uma experiência comum dos cidadãos frente ao Brasil oficial. Herança colonial ou não, a burocracia, tantas vezes baseada na desconfiança do poder sobre a sociedade, demora, encarece e frustra projetos, empresas e inclusive destinos, com aquele trâmite a mais, que muitas vezes é tão absurdo quanto desnecessário. Nos últimos anos, as novas tecnologias vieram para aliviar a situação, mas o problema ainda persiste.

"O cartório é a coisa mais burocrática que existe no mundo", afirma Rosana Chiavassa, advogada especialista em defesa do consumidor. Fomos colonizados por portugueses que trouxeram na bagagem a burocracia dos registros e princípios administrativos que legitimariam a doação de bens da Coroa aos primeiros beneficiários. O Brasil é um dos poucos países onde a própria assinatura do cidadão, até os dias de hoje, não vale por si só - ela sempre deve ser "reconhecida" em um cartório para ser válida em quase todos os trâmites cotidianos dos brasileiros e processos administrativos de empresas.

A polêmica de longa data foi exposta no começo de dezembro de 2013 pela pesquisadora da Universidade de São Paulo Lygia da Veiga Pereira, profissional que é referência nas pesquisas com células tronco no país. Ela publicou em um blog seu desabafo sobre as dificuldades dos pesquisadores em receber material do exterior. No post ela lista a burocracia imposta pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para liberar amostras do material para pesquisa - que vieram congeladas desde o centro de investigação norte-americano Harvard Stem Cell Institute, para uma pesquisa sobre células tronco.

As amostras chegaram em 24 horas ao Brasil, com cinco quilos de gelo seco, o suficiente para mantê-las congeladas por dois dias. Nove dias depois, as células ainda não haviam sido liberadas e se encontravam detidas no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, interior de São Paulo. Como disse Pereira em seu texto, "as preciosas células-tronco podem já ter virado mingau". Entre os documentos solicitados pela Anvisa, havia um termo de responsabilidade que deveria conter as assinaturas - neste caso, dela e do diretor do centro de pesquisa - reconhecidas em cartório. Conseguiram reunir toda a documentação em tempo e apresentá-la, mas o material não foi liberado.

Dia 14 de dezembro a Anvisa lhe avisou que o material estava sendo enviado para a Alfândega, órgão responsável a partir deste ponto. "E não é a primeira vez que acontece", afirma a professora, "eu perco credibilidade quando estrago o material, é um desperdício", lamenta, pela demora no processo. No entanto, esta história teve um final feliz e em 27 de dezembro a pesquisadora pôde aproveitar as células para suas pesquisas, pois sobreviveram aos 13 dias de burocracia.

Em nota, a Associação dos Notários e Registradores do Brasil, a Anoreg alega que "a falta de exigência do reconhecimento de firma, por exemplo, abre brechas para golpes, como utilização de documentos falsificados na abertura de empresas”. A burocracia se justifica pela possibilidade do outro ser corrupto ou estelionatário, mas quase nunca se explica que ocorre pela falta de segurança dos próprios organismos públicos, que não têm outros mecanismos, além destes, arcaicos, para evitar as fraudes. O cidadão demora para alugar um apartamento, para abrir uma empresa, para se casar... porque ele tem que superar muitas barreiras para conseguir determinada certidão ou documento legalizado, ou seja, passos prévios a qualquer outra gestão que ele faça, ainda que o tempo gasto com a burocracia varie a cada cidade, dependendo das facilidades criadas pelas prefeituras e governos. Por último, poderíamos considerar que tudo isso ocorre pela falta de credibilidade do próprio cidadão. "Os princípios da veracidade e da boa fé inexistem nos órgãos públicos", defende Chiavassa. A desconfiança gera mais mecanismos de controle, que prejudicam o cidadão de bem.

O excesso de exigências de documentos no Brasil é histórico, a ponto de o país ter tido um ministério da Desburocratização, entre 1979 e 1986, que deram origem, por exemplo, aos juizados de Pequenas Causas, que garantem soluções mais rápidas para conflitos jurídicos de pequena monta.

De lá para cá, a tecnologia também se tornou um aliado do Estado e do cidadão brasileiro para reduzir as exigências de documentação. Em 1997, por exemplo, as declarações de imposto de renda feitas anualmente já podiam ser realizadas pela internet. A Polícia Federal, em muitos estados, permite ao cidadão agendar a retirada de passaporte com um formulário online. E nos estados de São Paulo e Minas Gerais existem órgãos públicos dedicados a centralizar os serviços básicos de cidadania, trânsito e setores da prefeitura para os cidadãos, que são o Poupatempo e o Minas Fácil, respectivamente, que também permitem algumas consultas e agendamentos via web.

 Ainda assim, demonstrar reincidentemente que uma pessoa é ela mesma e de apresentar os mesmos documentos em diferentes instâncias - RG, CPF, comprovante de residência, registro de imóvel, entre outros - torna qualquer processo cansativo e contraproducente. Para Vinicios Leoncio, advogado tributarista, repetir informação e documentos hoje em dia “é incompreensível”. A Receita Federal eliminou a exigência de documentos com firma reconhecida em 26 de dezembro do ano passado. Questionado sobre a medida, Leoncio opina que é “muito tímida”. E ataca: “Uma empresa tem que preencher 2.200 campos no formulário de declaração do imposto de renda, sendo que a maioria deles estão repetidos”, diz o autor do livro que reúne 5.565 legislações diferentes para a cobrança de um tributo municipal, o Imposto sobre Serviços (ISS) no Brasil, símbolo da ineficiência e da falta de diálogo entre o coletivo de leis. "São 5.600 legislações para tratar do mesmo assunto: impostos!", se indigna. O otimismo, no entanto, não ofusca seu ponto de vista: “Desburocratizar é um processo doloroso porque trata de mudar hábitos, mas é algo necessário, ainda que seja feito vagarosamente”.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Só 8% dos municípios brasileiros arrecadam mais do que gastam




Do Estadão
A grande maioria dos municípios brasileiros tem gastos públicos maiores do que o que sua economia gera de imposto sobre a produção, somando as arrecadações municipais, estaduais e federais. No total, apenas 417 cidades brasileiras geram mais dinheiro público do que gastos. Elas são as responsáveis pelo superávit usado nos outros 4.875 municípios que apresentam gastos maiores que o arrecadado em impostos.
Os números foram calculados pelo Estadão Dados com base na pesquisa do Produto Interno Bruto (PIB) dos Municípios de 2011, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no fim de dezembro. Eles mostram um retrato revelador de como a produção e geração de riqueza é extremamente concentrada no Brasil: a arrecadação total de impostos sobre a produção é de R$ 612 bilhões por ano, enquanto os gastos calculados pelo IBGE chegam a R$ 576 bilhões. No entanto, apenas 7,8% das 5.292 cidades que constam no levantamento geram mais impostos desse tipo do que gastam. Todo o resto do Brasil é deficitário.




sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Fachada de prédio para combater poluição

Na capital do México, uma nova tecnologia foi usada para criar a fachada de prédio que ajuda a limpar os poluentes do ar.
Da BBC-Brasil

Fachada foi construída em hospital da Cidade do México (BBC)

A fachada com dióxido de titânio poderia absorver a poluição de até mil veículos

A fachada foi colocada em um hospital da Cidade do México como parte de um investimento de US$ 20 bilhões (quase R$ 47 bilhões) na infraestrutura de saúde do país.

Os arquitetos responsáveis pela obra no hospital afirmam que a fachada consegue neutralizar a poluição de até mil veículos.

A estrutura também refresca o prédio, ao criar uma sombra sobre ele. Com isso, diminui o uso do ar condicionado, gerando uma economia de energia elétrica.





segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Tecnologia & Planejamento



 



Merval Pereira, no jornal O Globo

Eduardo Brick, especialista do Núcleo de Estudos de Defesa, Inovação, Capacitação e Competitividade Industrial da Universidade Federal Fluminense, em vez de comemorar ou criticar a compra dos novos caças Gripen suecos pela Aeronáutica, prefere uma visão pragmática e de longo prazo.

Por mais paradoxal que a afirmação possa parecer, diz ele, essa decisão não será importante para a defesa do Brasil nos próximos 20 anos, e sim para daqui a 30 a 50 anos.

Nesse raciocínio, o país simplesmente não tem no momento recursos humanos, tecnológicos, industriais e financeiros para se opor a eventuais ameaças. Mas pode aproveitar a oportunidade para desenvolver sua Base Logística de Defesa (BLD).

Esse, diz ele, pode ser um dos principais benefícios da escolha do Gripen — a ampliação da capacitação industrial e tecnológica não só da Embraer como de muitas empresas de sua cadeia produtiva em produtos cuja tecnologia o Brasil ainda não domina.

Portanto, Eduardo Brick acha que o planejamento de hoje deve visar, prioritariamente, a um horizonte mais longínquo, não importando se o Gripen não é uma das mais eficazes armas existentes hoje. “O que importa é que essa aquisição pode ser um importante instrumento para o Brasil se capacitar para conceber e desenvolver aeronaves de combate amanhã.”

Do ponto de vista de desenvolvimento econômico e social, a BLD, apesar de sua finalidade precípua não ser essa, ressalta Brick, é instrumento importantíssimo de política industrial, por vários motivos:

a) Atua no limiar do desenvolvimento tecnológico;

b) Políticas industriais de conteúdo nacional para defesa são necessárias por questões de garantia de suprimento de itens críticos (que são cerceados pelos países que detêm essas tecnologias) e não oneram a economia como um todo.

c) A capacitação industrial construída tem uso dual. Ele cita o exemplo da Embraer, que, após décadas procurando se capacitar com produtos de uso militar, conseguiu desenvolver jatos comerciais e ser importante ator no mercado internacional de produtos civis.

Para o especialista da Universidade Federal Fluminense, a defesa nacional na era pós-industrial depende de dois instrumentos fundamentais: as Forças Armadas (FFAA) e a Base Logística de Defesa (BLD). A construção de qualquer uma delas é uma tarefa de décadas, mas a criação da BLD pode ser mais difícil devido à aceleração do desenvolvimento tecnológico, que causa obsolescência rápida de qualquer produto de defesa.

Portanto, diz Brick, não é sensato, nem financeiramente exequível, manter grandes estoques de produtos de defesa, exceto, evidentemente, se houver iminência de conflito, mas, sim, de capacidade industrial para inovar continuamente.

A Estratégia Nacional de Defesa define, muito apropriadamente, diz ele, que a construção e sustentação de uma BLD adequada às necessidades brasileiras são um dos seus eixos fundamentais. Não se pode esquecer, ressalta Eduardo Brick, que o Gripen é apenas um projeto de cerca de R$ 11 bilhões, em um programa de R$ 1 trilhão, valor estimado para o Plano de Articulação e Equipamentos de Defesa (Paed), em 20 anos.

Na sua avaliação, com a atual estrutura de governança da BLD brasileira, o país corre um sério risco de sofrer um "apagão de gestão" se o orçamento aumentar, e o Paed realmente deslanchar. Há nada menos que seis ministérios envolvidos, “numa estrutura caótica".

No caso de recursos humanos, a necessidade monta a vários milhares de profissionais, principalmente engenheiros, altamente qualificados e experientes em definição de requisitos e especificações, teste e avaliação de sistemas, gestão de projetos complexos, negociação de contratos, entre outras coisas.

 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013


Feliz Natal!!!
(...)
São dias em que experimentamos a magia dos olhares mais sinceros, dos abraços e gestos mais fraternos, calorosos, solidários. Dias em que percebemos, de uma maneira única e especial, a real importância do amor, da paz, da família e do fundamental compromisso de empregarmos todas as nossas forças e energias por um país mais generoso e um mundo melhor e mais justo para todos. (...)



Pois é, quando tantos imaginaram – e, não poucos, desejaram - que os EEUU estivessem na eminência do debacle, os indicadores estão evidenciando o contrário, o país não está somente se recuperando da crise mas prestes a dar um gigantesco salto deixando um rastro de poeira sobre seus concorrentes diretos...

“(...)
Há cinco anos, os EUA produziam menos de 20 milhões de barris diários de petróleo e gás natural, divididos em partes iguais. A Rússia superava esse nível combinando as duas fontes fósseis, enquanto que a Arábia Saudita era o maior produtor do óleo. Agora, a produção total norte-americana está perto de 25 milhões de barris e supera o país árabe em petróleo.

A chave desta reviravolta está na exploração do xisto. Há uma dezena de países tentando viabilizar um modelo para explorar o gás natural acumulado nas formações rochosas. Mas os EUA estão claramente na frente, apesar da controvérsia em torno desta técnica de extração. Atualmente, o xisto representa mais de 40% da produção total de gás natural nos EUA e 15% no Canadá.
(...)”

Aqui, a matéria do jornal El Paiz O grande salto dos Estados Unidos ...